terça-feira, 1 de janeiro de 2013

CEREJA EXPLOSIVA - 2

2.  Caindo em Tentação

Eu soube que havia algo errado antes mesmo de entrar no apartamento, porque, ao chegar na porta, escutei uma música das mais deprimentes.
Então nem foi com grande surpresa que me deparei com Rebeca, deitada no sofá só de calcinha, meias de tricô e camisa amassada, rímel preto escorrendo pelo rosto, cabelo loiro desgrenhado, uma garrafa de vodca em uma mão e um charuto cubano aceso na outra.
Fechei a porta e soltei a bolsa na mesinha de centro.
- Comece a falar. – Digo, empurrando os joelhos dela para que eu pudesse me sentar no sofá.
- Omar – começou ela, com o olhar meio vago. – O idiota começou com estupidez. Foi na minha sala me convidar para um jantar regado a champanhe, dizendo que eu sou uma mulher incrível e que não parava de pensar em mim.
Ela deu um riso seco, meio engasgado.
- E? – Pressiono, começando a ficar aflita.
- Daí eu perdi a paciência, ué. Disse que ele era um belo de um frangote infiel e ridículo. E que eu não ia mais aceitar esse papel ridículo de amante do chefe. Que ou ele pedia o divórcio hoje mesmo, ou desencanasse. E que eu ia jantar com o estagiário bonitinho do RH. – Rebeca fungou. – Então o filho da puta simplesmente me demitiu!
Arregalei os olhos.
- Não... Ele não fez isso!
- Sim, ele fez! Agora, me diz: como você pode demitir alguém numa sexta-feira depois das quatro?
- Que cretino! Rebeca, vamos por fogo no carro dele!
Rebeca limpa o rímel do rosto, dando de ombros.
- Que ele queime no fogo do inferno. – Diz ela, soprando a fumaça fedorenta do charuto. – Bom, agora somos duas desempregadas.
- Isso não é culpa nossa – digo, erguendo a cabeça. – Porque eu deveria ser uma grande estilista, então é claro que não vou me encaixar numa vaguinha de telemarketing ou o que for que essas empresas ofereçam...
- E eu deveria ser dona de um bar em Las Vegas – diz Rebeca, dando uma golada na vodca direto da garrafa.
- Viu só? O problema não somos nós. O problema é que estamos na área de trabalho errada. Você faz os melhores drinks do mundo, querida. Seria um barman melhor do que o Tom Cruise em Coquetel. E eu sou tipo a Gabrielle Chanel do século XXI.
- Só que não. – Diz Rebeca, dando um meio sorriso.
- Só que não. – Sou obrigada a concordar.
Foi quando o interfone tocou.
- Caramba! Esqueci geral! O seu primo Samuel vai vir aqui hoje, não vai?
- É... Deve ser ele. – Diz Rebeca, indo até o interfone. – Quem é? Oi. Pode subir. – Depois se vira pra minha direção. – Como você sabia que...?
Só que eu já havia disparado para o meu quarto e revirava minhas gavetas.
- Meu vestido Louis Vuitton! – Grito. – Onde está?
- Aquele preto e indecente? – Indaga Rebeca.
- Isso!
- Pra que você precisa dele, criatura?
A olho, sabendo que tinha pouco tempo.
- Você se lembra do quanto eu era louca pelo seu primo no colegial?
- Lembro.
- Encontrei com ele hoje na rua e percebi que ainda sou louca por ele!  - Digo, fuçando entre os cabides do guarda-roupa. - Achei! Deus abençoe o Sr. Vuitton!
- Falando em Deus – começa Rebeca, colocando um shorts enquanto eu tentava uma rápida e atrapalhada troca de vestido. – Acho que você não sabe, mas o meu primo Samuel virou padre.
- O que?! – Berro, paralisada, com o zíper do vestido ainda aberto.
Nesse momento bateram na porta, e Rebeca deu de ombros antes de ir abrir.
Fechei a porta do quarto e me encostei nela, ainda paralisada.
Padre? Samuel Petri agora é padre?
Respirei fundo.
Calma, Vera Lúcia, calma.
Deve ser uma brincadeira da Rebeca, só pode.
Respiro fundo outra vez.
Um pouco mais tranquilizada, ajeito o vestido curto e elegante no corpo e solto os cabelos, aplicando uma fina camada de gloss nos lábios.
Perfeito. Nenhum homem poderia resistir. E eu conheço os homens muito bem. E estou certa de que Samuel flertou comigo hoje mais cedo.
Porque um padre me convidaria para tomar café? Dã!
Saio do quarto mais autoconfiante, ouvindo vozes.
Mas tudo desmoronou de vez.
Lá estava Samuel, com aquele cabelo loiro que caia nos olhos, sorriso brilhante... E batina de padre.
Eu teria voltado pro quarto e chorado no travesseiro se ele e Rebeca não tivessem se voltado pra mim.
- Vera Lúcia! Como vai?
- Bem. Só um pouco... Chocada. – Digo, antes que pudesse segurar minha língua, forçando um sorriso. – Samuel, eu não fazia ideia de que você é padre agora!
Ele pareceu surpreso.
- Sério? Me uni ao clero há dois anos. Mas fui transferido para a Igreja da cidade na semana passada. Vim buscar algumas roupas que a Rebeca separou para doar para a igreja. – Finaliza, indicando duas grandes sacolas aos pés deles.
Sorri, me aproximando de Rebeca e passando um braço pelo ombro dela.
- É mesmo? – Digo, dando um puxão no cabelo dela sem que ele percebesse. – Porque não me avisou, amiga? Eu faria questão de separar algumas coisas também.
- Ah, claro! – Diz Rebeca, trincando os dentes. – Imagine os sem teto que a igreja ajuda desfilando por aí com peças de grifes com etiquetas de Nova York!
- Você pode ajudar em uma próxima, Vera Lúcia – diz Samuel, muito sério. – E, a propósito, gostaria de convidá-las para conhecer a nossa pequena igreja. É simples, mas é uma comunidade muito unida.
- Adoraríamos – eu digo, também séria, tentando transmitir um pouco de luxúria pelo olhar. – Onde fica?
- Só a três ou quatro quarteirões – diz ele. – Vou levar essas sacolas pra lá.
- Você está de carro? – Disparo.
- Não... Vou pegar um táxi.
Sorrio.
- Pare com isso! Eu te levo no carro da Rebeca!
Rebeca me olha, incrédula.
- Vera Lúcia, você dirige mal pra caramba. Seu pai comprou sua carteira de motorista. Não vou te deixar dirigir meu carro. Eu levo o Samuel.
- Rebeca, porfa... Você não está conseguindo nem andar em linha reta!
- Não se preocupem comigo, eu pego um táxi. – Diz Samuel.
Reviro os olhos.
- Samuel, em nome de Deus: eu quero ajudar. Já não contribui com as doações. Me deixe conhecer a igreja e fazer um favor a um velho amigo.
Rebeca pigarreou, se retirando da sala.
- Vera Lúcia? Posso conversar com você um instantinho?
Sorrio para Samuel e a sigo, fechando a porta sanfonada da cozinha.
- O que foi? – Sussurro.
- Você perdeu o juízo? – Cochicha Rebeca. – Qual parte do “ele é padre” você não entendeu?
- Querida... Você faz suas loucuras, me deixe fazer as minhas! – Digo, balançando a chave do carro na cara dela.
Dei uma grande golada na vodca e voltei para a sala antes que ela pudesse me impedir.
- Vamos?
***

Deixamos as sacolas de doações na igreja (um prédio pequeno aparentemente novo, com uma pintura recente que poderia ser mais viva, na minha opinião) e eu me ofereci para levar Samuel até a casa dele.
- É na próxima rua, posso ir andando. – Disse ele.
- Não custa nada. – Insisto, sem deixar de sorrir, confiante. – De qualquer forma, eu iria ter que passar por ali para fazer o retorno...
É claro que ele aceitou.
E, é claro que, depois de parar em frente a casa dele e ele ter apertado a minha mão como um bom padre e estar pronto para sair do carro, eu tive que tomar uma atitude.
- Não quer me convidar para um café? Agora não estou atrasada para nenhuma entrevista. – Digo, com ar sugestivo.
Ele hesitou, e eu continuei encarando-o.
- Vera Lúcia, eu acho que... – Ele faz uma pausa, um pouco constrangido. –  Seria bom. Ótimo. Ainda é cedo, não é?
- Ainda nem bateu as nove. – Digo, abrindo um sorriso.
- E eu posso ler o meu novo sermão para que você me diga o que acha. – Acrescenta ele, começando a convencer a si mesmo de que aquilo seria um café inocente entre amigos.
- Seria ótimo... – Digo.
Assim, entramos, e depois de me servir café, Samuel começou a ler um sermão sobre as tentações e a importância de resistir a elas.
***
Acordei as seis da manhã, ciente do quanto eu estava encrencada.
Olhei para Samuel, que dormia ao meu lado na cama.
O mais silenciosamente que pude, vesti meu Louis Vuitton amarrotado, peguei a bolsa e os sapatos e me preparei para cair fora.
Oh, céus... Porque me meto nesse tipo de encrenca?
Olhei novamente para Samuel, aquele corpo perfeito e bronzeado adormecido, os cabelos claros sobre a fronha azul... Dormia como um bebê. Parecia um anjo.
Ah, e ele ainda tinha a tatuagem de dragão na coxa.
Eu não podia fazer aquilo.
Ir embora desse jeito era covardia.
Peguei meu bloco de anotações e uma caneta na bolsa e deixei um bilhete na porta da geladeira:

Querido,
Tivemos uma noite incrível juntos.
Mas não posso me casar com você e formar uma família abençoada como você me propôs... Simplesmente não posso. Tenho 21 anos e outros planos.
Me perdoe. Sei que vai encontrar alguém melhor do que eu, que realmente te mereça.
Talvez uma freira. XD

Tenha um lindo dia!
V. Lúcia Sales
Agora sim!
Me senti com a consciência muito mais tranquila ao sair, tomando cuidado para que nenhuma beata me visse, mas a rua estava deserta.
Porém, enquanto destrancava o carro de Rebeca, senti que havia alguém atrás de mim.
Me virei e dei de cara com um homem que me encarava fixamente.
Perdi o fôlego, recuando automaticamente.
- Cuidado, eu tenho spray de pimenta! – Avisei, abrindo a bolsa.
Ele não disse nada, apenas continuou me encarando.
Era alto, pálido e estranho. Mas havia algo de atraente nele. Talvez fossem os olhos muito escuros, o cabelo estranhamente acinzentado, ou os traços meio aristocráticos.
E ele era elegante. Usava um terno que eu achei show. Se não estivesse tão assustada, perguntaria se era italiano.
Como não achei meu spray de pimenta na bolsa, meus olhos se encheram de água.
- Por favor, não me mate! – Implorei. – Eu só tenho 21 anos...
Ele deu um passo na minha direção.
- Eu imploro! – Continuo. – Não posso te dar a chave do carro porque é da minha amiga Rebeca, e ela está desempregada e bêbada... Mas tenho um vale presente da Saraiva! Serve?
O sujeito continuou calado, e eu fui me apavorando ainda mais.
- Estou grávida! – Isso não era totalmente mentira, porque anticoncepcionais podem falhar.
O cara deu mais um passo, sem nunca deixar de me encarar. Olhei fundo nos olhos dele. Eram estranhos.
Muito escuros, mas havia uma espécie de faísca neles.
- Você – a voz dele era suave e baixa, mas me deu calafrios. – Você está amaldiçoada.
Franzi o cenho.
- Como?
Ele não respondeu.
Em um gesto rápido, agarrou meu pulso.
Um grito ficou preso na minha garganta.
Senti como se estivessem pressionando brasas na minha pele, e a dor era mais do que eu podia suportar.

CONTINUAR

5 comentários:

  1. Uou, é nisso que dá se meter em confusões...

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  2. Nossa! O que esta acontecendo?! De mais! adorei!

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  3. Adorei a série! rsrsrsr muito divertida =)

    planetavx.blogspot.com

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