sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

CEREJA EXPLOSIVA - 3

3. Cerejas Quentes

- Aaaah! – Gritei, quando consegui tomar fôlego. – Me larga, seu DOIDO!
Então eu tive a impressão de que tudo se apagou por alguns segundos.
E quando abri os olhos, me dei conta de que a porta do carro estava aberta, e eu estava meio jogada, deitada com a cabeça no banco do passageiro, traseiro no banco do motorista e pernas para fora do carro.
Estranho, muuuito estranho.
Rapidamente me ergui, olhando para os lados e ajeitando os óculos no rosto, mas, outra vez, a rua estava deserta. O estranho desaparecera sem deixar vestígios, assim como havia surgido.
Me apresso em fechar a porta do carro e sair dali o mais rapidamente possível, atropelando algumas plantas na calçada.
Meu Deus, que loucura...
Será que aquele copinho de vodca tinha efeitos colaterais?
Foi quando percebi que o meu pulso estava formigando, em uma estranha sensação de queimação na pele. Aproveitei o sinal fechado para verificar.
Engasguei.
Era uma espécie de... Tatuagem.
Um par de cerejas, muito vermelhas. Pareciam reluzir, como chamas. E estavam... Quentes.
As esfreguei com o dedão, freneticamente, mas elas não saiam... Como se fossem uma tatuagem de verdade.
Oh, céus... O que estava acontecendo comigo naquela manhã?
Eu nunca tatuaria cerejas no meu pulso!
Eu nem estava bêbada o suficiente na noite passada para fazer isso. E tinha certeza de que não havia saído da casa do Samuel!
Peguei meu celular e liguei pra casa.
- Por favor, Rebeca... Atende o telefone! – Choraminguei, cerrando os dentes. – Por favor!
Mas minhas preces não foram atendidas.
Provavelmente ela estava de porre.
Encostei a testa no volante, desanimada. Que diabos estava acontecendo?
Ok. Calma, Vera Lúcia, calma...
Vá para casa.
Tome um banho e durma um pouco.
Fale com Rebeca.
Vai ficar tudo bem.
Mas antes passei no shopping, minha terapia favorita. Comprei um sapato. Duas saias. Uma camisa social (eu precisaria de várias quando começasse a trabalhar) e um conjunto simples de verão, que levei para o banheiro, onde troquei meu Louis Vuitton amarrotado por ele.
Paguei tudo no meu último cartão de crédito. Sei que era para emergências, mas eu precisava daquilo ou endoidaria. E, além disso, provavelmente meu pai pagaria a fatura sem comentar nada com a minha mãe.
Para finalizar meu tour, peguei algumas coisinhas no McCafé para poder ter uma refeição descente quando chegasse em casa.
Respirei fundo e recomecei a dirigir, me esforçando para não bater em ninguém. Rebeca tinha razão: sou uma péssima motorista.
Felizmente, consegui guardar o carro no estacionamento do prédio depois de derrubar dois cones e quase matar um cachorro da rua.
Subi para o apartamento e tirei os sapatos ao entrar, desejando não acordar Rebeca.
Estava tão afoita para falar com ela que, até aquele momento, havia esquecido que ela arrancaria meu fígado por ter dormido com o Samuel.
Nas pontas dos pés, me dirigi para o meu quarto, mas fui barrada no meio do caminho por um furacão de cabelos loiros que escancarava a porta sanfonada da cozinha com um drink de alguma coisa em uma mão e uma caixa de biscoitos na outra.
- Ora, ora, ora... – Começou ela. – Cuidado, religiosos: a nova vadia do pedaço ataca padres também, sem medo e sem escrúpulos.
- Você dormiu na cozinha? – Pergunto, olhando para a toalha de mesa esticada no chão e a desordem de garrafas e taças.
- Eu avisei que precisava urgentemente de um frigobar no meu quarto. – Responde ela, dando de ombros. – Mas não mude de assunto.  Aí, como conseguiu desviar meu primo dos princípios religiosos e envergonhar nossas famílias?
Suspiro, soltando a bolsa e os sapatos no chão e caindo em uma poltrona.
- Estou exausta! – Exclamo.
- Sério? Ele deu tanto trabalho assim? – Pergunta Rebeca, com um sorriso atrevido, sentando-se no braço do sofá.
- Não é isso... – Digo. – É que tive uma manhã difícil!
- Espere. – pede ela. – Comece do começo. Quero detalhes.
Suspiro outra vez.
- Bom... Depois de deixarmos as roupas da doação na igreja eu me ofereci para leva-lo em casa. Dai acabei entrando para tomar um café. Ele começou a ler um texto mega chato...
Baixo os olhos.
- E então? – Pressiona Rebeca.
- E então eu me levantei do sofá, tirei o papel da mão dele e disse: “Sabe o que pode ser divertido? Cair em tentação de vez em quando!” E o beijei.
Rebeca caiu no riso.
- Sério? Isso funcionou mesmo?
Dei de ombros, com o rosto um pouco vermelho.
- Sim... Eu conheço os homens. Sabia que ele estava se segurando por pouco. E então... Aconteceu.
- E foi bom? – Rebeca semicerrou os olhos, ansiosa por detalhes.
- Foi ótimo. – Digo. – Mas quando terminamos ele começou a dizer coisas...
Ela arregalou os olhos.
- Que tipo de coisas? Sacanagem...?
- Não! – Grito, escandalizada. – Que isso... Ele é padre!
Rebeca apenas me olhou com descrença.
- Ok! – Me rendo. – Isso foi irônico. Mas ele começou a dizer que eu era uma mulher especial e fantástica, e que estarmos tendo aquele momento só podia ser coisa do destino...
- Que brega! – Diz Rebeca, dando de ombros.
- Espera... Você não me entendeu. Ele me pediu em casamento... Ou melhor, me impôs casamento. Disse que deveríamos nos unir diante de Deus o mais breve possível para podermos pedir perdão por nossos pecados. Que por amor verdadeiro e puro tudo vale. E que formaríamos uma família católica e feliz...
Rebeca gargalhou novamente.
- Não acredito que o Samuel disse isso! Que mico! E você? Disse o que?
Mordi o lábio inferior.
- Eu... Fingi que concordei e esperei ele dormir. Acabei dormindo também, mas me levantei bem cedo, deixei um bilhete e cai fora.
Rebeca me olhou, incrédula.
- Você não fez isso...
Me encolhi na poltrona.
- Fiz... – Digo, em um fio de voz. – Sei que foi meio covarde, mas não consegui dizer na lata. Ele parecia tão ingênuo, tão inocente.
- Você é uma biscate – diz Rebeca.
- Não sou! – Respondo, irritada. – Eu era simplesmente louca pelo seu primo desde a escola... Pode-se dizer que eu era apaixonada por ele.
- Aham – começa ela. – E para satisfazer sua fantasia sexual de adolescente você seduziu um homem que estava feliz e certo do caminho que havia escolhido, atropelou os princípios dele com os seus hormônios e depois o enganou. Parabéns, Vera Lúcia.
- Hei... – Começo.
Mas não continuo.
Porque era isso mesmo, droga.
- Mas acho que já paguei pelos meus pecados. – Digo, me lembrando de outra coisa. – Fui atacada por um maluco hoje de manhã.
- Como assim? – Pergunta Rebeca, esvaziando a taça de bebida.
- Um cara bizarro apareceu do nada. Ele só segurou o meu pulso e disse algo como: “você está sob uma maldição” e caiu fora. E quando olhei para o meu pulso...
Mostrei a ela as cerejas incandescentes.
Rebeca segurou meu braço e passou o dedo pelo desenho.
- Está quente... É uma tatuagem de verdade?
- Parece que sim – eu disse, fazendo bico.
Mais tarde eu jogaria no Google: “como remover uma tatuagem?”. E alguém do Yahoo já deve ter perguntado isso e recebido uma boa resposta.
- Que estranho... – Diz ela. – Como era o homem?
Abro a boca para descrever o sujeito, mas sou interrompida por batidas na porta.
- Autorizou alguém a subir? – Pergunto.
- Não. – Diz Rebeca. – O interfone nem tocou. Será que é o síndico?
- Pra que, se a gente não deve aluguel?
- Não devemos aluguel ainda, amiga desempregada. – Diz ela, abrindo a porta.
Não era o síndico.
Era um policial.
- Vera Lúcia Sales? – Pergunta ele.
Me levanto, hesitante.
- Sou eu. – Digo.
- E você é Rebeca Petri, prima de Samuel Petri? – Pergunta ele, encarando minha amiga.
Rebeca se apoia na porta e ergue a cabeça, em uma exagerada pose sensual.
- Sou eu, sexy policeman...
Ele apenas ergueu uma sobrancelha.
Pior que ele era sexy, mesmo. Alto, cabelo arruivado, cavanhaque...
- Perdão, ela está bêbada. – Digo, com um sorriso amarelo, indo até a porta.
- Bom, a Srta. Vera Lúcia esteve na casa do Padre Samuel recentemente?
Sinto meu estômago gelar.
Céus... Será que infringi alguma lei por ter dormido com um padre?
Pense em algo!
- Estive. – Digo, com o coração na garganta. – De ontem à noite para hoje de manhã. Ele é um homem muito caridoso, sabe? Sempre oferece café e abrigo a qualquer alma perdida...
Alguma coisa no olhar do policial sexy parecia indicar zombaria, mas ele continuou sério.
- Bom – começa ele. – Infelizmente tenho uma má notícia para as senhoritas. Hoje de manhã uma vizinha encontrou o corpo de Samuel Petri na casa dele. Tudo indica que ele se suicidou.

CONTINUA

3 comentários:

  1. Oh My God! Já estou com pena da Vera, será que ela ai ser envolvida neste caso?

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  2. Coitado do cara!!! Não acredito que ele acabou morto!!


    planetavx.blogspot.com

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