sábado, 5 de janeiro de 2013

CEREJA EXPLOSIVA - 4

4. A Maldição das Chamas

Abri a boca, incrédula.
- Como? – Pergunta Rebeca, também petrificada.
- Ele se suicidou. – Continuou o Policial. Porque eu tinha a nítida impressão de que ele queria rir? – Se enforcou com um cinto amarrado no lustre da sala. A perícia encontrou um bilhete amassado aos pés dele.
Corei. Devia ser o meu bilhete.
Rebeca correu para dentro de casa, agarrando o telefone.
O policial me encarou, e dessa vez deixou escapar um sorriso torto.
- Então, apesar da noite incrível, você tem 21 anos, outros planos e não pode se casar com o pobre padre e formar uma família abençoada?
Arregalei os olhos, chocada e envergonhada.
- O que? – Sussurro. – Você leu o bilhete?
Ele ajeita a farda, ainda sorrindo.
- Todo mundo leu, moça. A polícia, os peritos... Será a piada do batalhão durante a próxima semana.
Me zango.
- Ora, essa... Como podem brincar com uma tragédia dessas?
- Não se irrite – diz ele, mascando um chiclete que devia ser de menta, pelo cheiro. – É que vemos coisas assim todos os dias. Algumas bem piores. Pelo menos o padre se foi por vontade própria... Apesar de alguém tê-lo corrompido.
Fecho os olhos, ainda brava.
Depois o olho novamente.
- O que quer que eu faça? – Gaguejo. - Não sabia que ele ia se matar!
- Pobre da vizinha que o encontrou – diz o policial, balançando a cabeça penosamente. – Uma velhinha de setenta e oito anos. Estranhou o fato dele não ter comparecido a missa das sete e foi ver se estava tudo bem. Como ninguém atendeu a porta, resolveu usar a chave reserva e deixar pãezinhos caseiros na cozinha... E encontrou um cadáver de cueca, com uma tatuagem de dragão na coxa.
O olho, horrorizada, enquanto ele se divertia ao descrever a cena.
- Pare de me torturar! – Grito, fechando a porta no nariz dele.
Rebeca colocava o telefone no gancho no mesmo momento.
- A Tia Lívia já sabe. Está todo mundo chocado.
- Meu Deus – digo, trêmula. – Onde vou enfiar a minha cara quando todos souberem do bilhete?
- Bilhete? Não, ela não falou nada sobre um bilhete. Provavelmente a polícia ocultou esse detalhe para preservar a imagem dele. Parece que ele era muito querido pela comunidade.
Suspiro.
- Ele era uma pessoa maravilhosa, mesmo. – Digo, trêmula. – E acho que a culpa é toda minha!
- Não seja tonta. Para o cara fazer isso é sinal de que ele estava bastante desequilibrado. Onde já se viu, se matar depois da mulher com quem você só transou uma vez recusar se casar com você?
Penso um pouco, depois balanço a cabeça.
- É verdade. Não é culpa minha. Ah, Deus, agora me sinto melhor. Espero que Samuel descanse em paz. Amém! Preciso de um banho quente e um cochilo. Me acorde para a maratona de Friends.
- Nada disso! – Exclama Rebeca. – Você vai comigo no velório me ajudar a consolar as tias choronas. E não é porque a culpa não foi sua que você deixa de ser uma piranha egocêntrica.
Torço o nariz.
- Preciso mesmo ir?
Rebeca apenas me lançou um olhar duro.
Me dou por vencida e me dirijo para o banheiro, pensado se eu teria alguma opção de vestido preto mais comportado do que aquele da noite anterior.
***
O velório já estava apinhado de gente quando chegamos.
Até a imprensa estava lá, alguns repórteres e câmeras. Parece que o suicídio de um padre era aquele tipo de notícia que dava o que falar.
Caramba... Ninguém tinha mais o que fazer em uma tarde de sábado? Será que aquelas pessoas sabiam que na TV a cabo estava passando o episódio em que Ross e Rachel se beijam pela primeira vez?
Até a polícia estava lá, para controlar a pequena multidão.
- Olha – diz Rebeca, enquanto descíamos do carro. – É o policial gostoso!
Acompanho o olhar dela, com um calafrio na espinha.
- Eu diria policial grosseiro. – Sussurro, passando por ele sem encará-lo, embora sentisse o olhar de zombaria na minha nuca.
Eu estava decidida a não olhar para dentro do caixão, pois queria me lembrar de Samuel vivo, não como um boneco de cera usando batina.
Isso não foi muito difícil: havia tantas beatas chorando em volta do caixão que seria difícil chegar perto, mesmo se eu quisesse.
Rebeca consolava uma das tias dela, enquanto eu circulava pelo salão.
Será que os aperitivos já tinham acabado?
- Você ficou sabendo – sussurrava uma senhora grisalha de bengala para a outra, que era ainda mais velhinha. – Que uma mulher esteve na casa dele na noite passada?
- Santo Deus! – Exclamou a velha. Falava engraçado por causa da dentadura. – Então é mesmo verdade a história do bilhete?
Foi como um soco no estômago.
Oh, céus... Sabiam do bilhete.
O bilhete que tinha a minha assinatura, o sobrenome da minha família.
O que seria de mim agora? Difamada socialmente, vítima da calúnia e de piadas de Facebook. Nunca mais arrumaria um emprego. Perderia seguidores no twitter. Meus pais jamais falariam comigo de novo.
O pavor foi se transformando em raiva.
Me dirigi para fora do prédio, onde o detestável policial estava.
O empurrei contra a parede e comecei a ralhar aos sussurros.
- Hei, tira! Porque você e seus colegas deixaram a história do bilhete vazar?
Ele ergueu uma sobrancelha.
- Cuidado, moça – começou ele. – Posso prendê-la por desacato. Mas não se preocupe quanto ao bilhete. Ocultamos sua identidade, ou haveria carolas te perseguindo com tochas e forcados nesse momento.
Ele abre um largo sorriso malicioso, e eu reviro os olhos, voltando para o salão onde velavam o corpo.
Rebeca ainda acalmava uma das tias, que chorava agarrada a ela como um coala.
- Rebeca! – Cochicho no ouvido dela. – Me dá a chave do carro, por favor. Preciso sair daqui! Estou me sentindo culpada e vou acabar me entregando.
Ela revira os olhos, mas me passa o molho de chaves.
- Venha me pegar em uma hora – diz, séria. – Preciso de um gole de rum.
Concordo, afoita por sair do meio daquela multidão.
Saio apressada, tentando não atropelar ninguém pelas ruas.
Ah, Deus... Preciso relaxar. Preciso me tranquilizar, colocar os pensamentos em ordem... Será que o meu spa preferido tem algum horário livre hoje?
- Uma massagem com pedras quentes seria ótima. – Diz uma voz.
Estava tão distraída que concordei com a cabeça, mas quando percebi que havia mais alguém dentro do carro, quase tive um ataque cardíaco.
Brequei com força, cantado os pneus. O carro atrás de mim quase bateu na minha traseira.
Sentado ao meu lado, descansados pés com tênis esportivos no painel, estava o sujeito que havia me atacado naquela manhã, deixando aquelas malditas cerejas gravadas no meu pulso.
- Você! – Exclamo, mais irritada do que com medo.
Ele sorri.
- Dirija. – Diz.
Cruzo os braços, embora outros veículos buzinassem atrás de mim.
- Não. – Digo.
Ele ri. Depois ajeita a postura, ficando sério.
- Dirija agora. – Ordena, apertando os dentes.
Ele não apontava uma arma nem nada do tipo. Mas aqueles olhos escuros com faíscas me davam arrepios.
Respirei fundo e recomecei a dirigir, devagar.
- Quem é você?  O que está fazendo no carro da Rebeca?
- Posso ser muitas coisas. – Diz ele, apontando para o boné e a camiseta com o nome da funerária, muito diferentes do terno elegante que ele usava pela manhã.
- Você é agente funerário, é? – Pergunto, desviando o olhar para a rua.
- Posso ser muitas coisas. – Repete. – Sempre estarei onde as coisas acontecem. Ou melhor, onde as coisas ficam quentes. E, principalmente, onde os amaldiçoados estão.
Reviro os olhos.
- Só por Deus! Você é maluco... Posso saber o que fez com o meu pulso?
Ele ri novamente achando muita graça em alguma coisa.
- É a marca da sua maldição, Vera Lúcia. Foi mais uma das minhas ideias brilhantes.
- Como sabe meu nome?!
- Sei o nome de todos os meus amaldiçoados.
O encaro. Aquele cara era pirado.
- Chega dessa história de maldição! – Exclamo, ao mesmo tempo em que vejo um guarda de trânsito com um apito no meio do cruzamento.
Paro o carro antes que o maluco pudesse me deter.
- Hei! Seu guarda! Socorro! – Grito.
O guarda se vira para mim, e eu congelo.
Que tipo de pegadinha era aquela?
O guarda sorriu.
E era ele. O maluco. Cabelo cor de cinza, olhos escuros esquisitos e nariz de aristocrata.
Olho dele para o cara ao meu lado diversas vezes, boquiaberta.
Um psicopata me perseguia, e ainda por cima tinha um irmão gêmeo guarda?
Ou a louca da história sou eu?
- Pela última vez – suspira o estranho no banco de passageiro. - Dirija essa droga de carro!
Arranco, agoniada.
- Como fez isso? – Pergunto, em um fio de voz.
- Posso fazer de tudo. – Diz ele.
Olho para onde ele aponta, o táxi que estava ao meu lado. O passageiro no banco de trás sorri.
E também era ele.
Fico boquiaberta outra vez.
E foi só prestar atenção para me espantar cada vez mais.
O cara no ponto de ônibus, o cara de bicicleta, o entregador de panfletos no farol... Todos eram ele!
- Porque você está fazendo isso? – Pergunto.
- Para que você saiba que não tem como escapar. – Diz ele. – Agora entre naquela rua.
Obedeço, a contra gosto.
No fim, eu estava no limite da cidade, em uma rua de terra batida totalmente deserta enquanto começava a escurecer, com um maníaco que provavelmente ia me matar e fazer coisas nojentas com o meu corpo.
Parabéns, Vera Lúcia.
- Pare aqui. – Diz ele, quando chegamos ao fim da rua sem saída cercada de mato.
Desligo o motor, sentindo meu coração na garganta.
É agora. Ele vai me matar.
- Desça do carro. – Manda ele.
Respiro fundo e desço, com as pernas trêmulas acima do salto. Ai, meu Deus.
Ele também desce do carro.
Caio de joelhos.
- Por favor não me mate! – Imploro. – Isso seria covardia, matar uma mulher indefesa...
Ele me olha com desprezo, depois ri.
- Matar você? Nada disso, a diversão começa agora... E você não é mais tão indefesa quanto pensa, minha querida.
Me levanto, ainda tremendo como uma vara verde.
- Poderia parar de falar por enigmas?
Os olhos dele se ascenderam.
- Você não entende, sua tola? Eu não fiz nada para você. Você mesma se condenou.  Agora leva cerejas no pulso.
Olho para a estranha tatuagem, que parecia brilhar.
Eu ainda não entendia.
- Estou sendo atencioso com você – explica ele. – Normalmente deixo a primeira noite acontecer sozinha... Mas te trouxe até aqui para assistir de camarote. De todas as maldições, essa é a minha favorita. Não é todo dia que uma linda jovem seduz um padre, sabia?
- Você não fala coisa com coisa, seu maluco! – Berro, pensando quais seriam minha chances se eu tirasse os sapatos e corresse.
- Mais respeito, por favor, reles mortal... Você está falando com Loki, o Senhor do Fogo!
Ele gargalha, erguendo os braços.
No mesmo minuto, um círculo de chamas se ergueu ao nosso redor.
Gritei, assustada.
- Certo, eu acredito! – Digo, em pânico. – Dormi com um padre e agora o diabo veio me assombrar. Mas... Oh, Deus... Eu me arrependo tanto, tanto, tanto... Juro que não queria fazer nada errado!
Ele riu ainda mais.
- Arrependida? Muitas antes de você se arrependeram, Cerejinha... E elas apenas serviram para virar lendas. Só que arrependimento não me vale de nada. Carregue o peso de uma noite de pecados... Para sempre!
Ele tinha um sorriso odioso e brilhante, e o fogo refletia nos olhos dele. De repente, fazia todo o sentido que ele tivesse o cabelo cor de cinzas.
Ele gargalhava, e eu tentava pensar em alguma coisa.
Foi então que eu senti.
Senti queimar.
Mas não eram as chamas ao meu redor.
Era como se o fogo estivesse dentro de mim.
Começava no meu pulso, e o calor ia rasgando meus braços e descendo pelas minhas pernas.
Gritei.
Eu só queria que a dor parasse.
Só que, ao invés disso, piorou.
Me deitei no chão, ofegando, agarrando a grama com os dedos e olhando para o céu com poucas estrelas, me perguntando se eu ia mesmo morrer assim.
E então a coisa saiu completamente do controle.
Porque o fogo subiu para a minha cabeça, e eu senti que estava explodindo.
Mas, por algum milagre, eu ainda estava inteira.
E, apesar da quentura, a dor ia embora aos poucos.
Demorei um pouco para conseguir me levantar, ainda sentido o fogo em cada um dos meus membros.
Olhei para Loki.
Ele estava sério, agora, e segurava um espelho rústico com moldura de madeira entalhada.
Ainda tonta, me aproximei dele.
E fiquei em choque.
Meu rosto, meu cabelo... Tudo estava envolvido em fogo. Minha pele não estava queimada, apenas um rosto com óculos por trás das labaredas... E meu cabelo parecia ter vida própria, como serpentes incandescentes balançando ao vento.
Era realmente... Sobrenatural.
Alguma coisa dentro de mim se manifestou.
E eu vi o rosto que pegava fogo sorrir pelo espelho.
Loki também sorriu, nada angelical.
Ouvi um relincho, e quando me virei vi um grande cavalo negro saltar sobre as chamas e aterrissar ao meu lado.
Assim como o meu cabelo, a crina dele pegava fogo.
Passei as mãos pelo animal, satisfeita.
Mas eu não sabia por que diabos eu estava satisfeita, quase feliz! Era como se... Eu não fosse mais eu.
E estivesse perdendo o controle sobre mim mesma.
- E então – diz Loki, enquanto eu ficava cada vez mais confusa, com uma estranha empolgação me dominando. – Pronta para suas primeiras aventuras?

CONTINUA

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