quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

CEREJA EXPLOSIVA - 5

5. Brincando com Fogo

Acordei em um estábulo.
Isso mesmo: em um estábulo, como um animal.
Parecia que o sol havia acabado de nascer.
Minha cabeça doía, e havia um cavalo comendo feno ali. Me lembrei de que eu tenho medo de cavalos, então tratei de me levantar.
Um dos meus sapatos havia sumido, e meu vestido preto e discreto Donna Karan estava rasgado em vários pontos.
Ótimo. Não sei onde estou nem o que aconteceu, e meu vestido elegante e perfeito para qualquer ocasião agora parecia uma trapo.
Saio mancando e olhando em volta, quando avisto o carro de Rebeca a alguns metros.
Pelo menos eu teria como sair dali, um lugar deserto e estranho, sem nenhuma alma viva a vista.
O que tinha acontecido ontem mesmo?
Me sento no carro e começo a me lembrar.
Oh, Deus... O cara esquisito.
E... Fogo.
Muito fogo. Eu estava queimando...
Olho para as cerejas no meu pulso.
E minha memória volta.
Me lembro da explosão de calor, das chamas no meu cabelo e rosto. Me lembro da égua negra (por algum motivo, agora eu sabia que era uma égua e não um cavalo), também flamejante.
E me lembro de montar nela e sair cavalgando pela cidade.
Isso foi um sonho.
Só pode ter sido um louco e surreal sonho. Onde já se viu? Eu nem sei cavalgar! Detesto cavalos, éguas e todo tipo de animal grande que tenha muitos dentes.
Aquele psicopata lunático tinha me drogado. Só podia.
Como o sujeito tinha dito que se chamava? Lori? Luke?
- É Loki. – Diz a voz odiosa que agora já era familiar.
Dou um pulo, apertando a buzina sem querer.
Ele estava parado diante do carro.
Liguei o motor.
- Vou atropelar você, maldito! – Grito. – Saia do meu caminho imediatamente!
Ele revira os olhos.
- Ora, vamos parar com o teatro, Cerejinha. – Diz ele. –Essa é a sua vida agora. Em noites de Lua Cheia, o poder do fogo reina.
Dou uma gargalhada seca.
- Acha que vou cair no seu truque? Você me dopou, mas não vou acreditar nessa história doida, ok?
Loki abre um sorriso que não me deixa nada a vontade.
- Ainda relutante? Está bem. Assista ao noticiário e não se esqueça de que esta noite ainda é noite de lua cheia... Boa sorte com as roupas queimadas.
Automaticamente, olho para a minha roupa.
Passo as unhas por um dos buracos e tenho uma desagradável surpresa.
Eram buracos de queimaduras. Como quando se deixa o ferro ligado sobre uma roupa por muito tempo, só que esses buracos eram bem maiores.
Engulo em seco, mas, quando olho pra frente, não há mais ninguém por perto.

***

Entro no prédio de cabeça baixa depois de guardar o carro, rezando para não trombar com nenhum vizinho.
Nem é preciso dizer que Rebeca estava fula comigo, e me atacou assim que coloquei os pés no apartamento.
- Onde foi que você se meteu, Vera Lúcia?! Eu fiquei te esperando naquele maldito velório por duas horas e acabei tendo que aceitar a carona da tia Dolores! Tem ideia do que eu tive que enfrentar? Lágrimas, catarro, ladainhas... Mas que diabos aconteceu com você?
Ela reparava pela primeira vez no meu estado.
- Rebeca... – Começo, séria. – Eu tive a noite mais louca da minha vida...
Ela revira os olhos.
- Jesus Cristo... Qual foi a aventura sexual da vez? Um bombeiro? Parece que esfregaram carvão no seu nariz...
Penso um pouco.
- Um bombeiro teria vindo bem a calhar, mas não foi o caso. Lembra que eu te contei do psicopata que me atacou ontem de manhã, depois que eu sai da casa do Samuel?
- Lembro.
- Então... Quando eu sai do velório, ele estava dentro do seu carro...
- O que?!
- …Me obrigou a dirigir para um lugar lá onde Judas perdeu as botas e depois... – Fico sem saber como explicar.
Rebeca revira os olhos outra vez.
- Ok, de padre você passou para psicopatas...
- Não! – Digo. – Não seja tonta, eu não dormi com ele! Ele disse que se chama Loki, Rei do Fogo ou algo assim e... Disse que eu estava amaldiçoada pra sempre, e quando olhei em um espelho eu estava pegando fogo, e era Lua Cheia, daí apareceu uma égua que pegava fogo também e...
Parei de falar. Porque Rebeca estava rindo.
Como se eu tivesse acabado de contar uma piada.
- Mula-sem-cabeça? Boa! A mocinha seduziu o padre, e, agora, em todas as noites de Lua Cheia, se transforma em uma fera terrível e descontrolada... Achei que você não entendia de folclore, Vera Lúcia!
A olho, petrificada.
- Hei! É isso mesmo... Loki disse isso tudo. Ai, meu Deus... Rebeca, acho que a lenda é verdadeira! – Digo, horrorizada. – Devo ter virado a mula-sem-cabeça em uma versão mais sexy, cavalgando uma égua puro-sangue...
- Como sabe que a égua é puro-sangue? – Me interrompe Rebeca.
- Não sei, estou inventando porque acho mais glamouroso assim.
- Ah, tá...
- Meu Deus... – Continuo, apavorada. – Sou um monstro! Um perigo para a sociedade! Rebeca... Sei que isso é difícil, mas você vai ter que atirar em mim com uma bala de prata...!
- Vera Lúcia – começa Rebeca, erguendo uma sobrancelha. – Bala de prata é para lobisomens. E você não precisa inventar histórias absurdas, certo? Você é apenas a biscate-sem-noção que não voltou para me buscar ontem.
- Mas estou dizendo a verdade! – Choramingo.
Rebeca ia me dar uma resposta grosseira, mas a interrompo quando outra coisa chama a minha atenção.
- Hei! O que é isso na TV?
- O noticiário das sete. É um lixo. Só estou vendo isso porque o fuso horário do trabalho ainda está no meu cérebro, e não consigo levantar depois das seis... É um saco.
- Aumente o volume! – Grito.
Rebeca obedece, mesmo sem entender.
- ...E só agora os bombeiros conseguiram conter o fogo. – Dizia o apresentador. – Veja a seguir mais detalhes ao vivo com o nosso repórter. É com você, Loki.
Dou um pulo.
Ele havia dito Loki? Mesmo?
E lá estava o sujeito, parecendo muito sério usando terno e gravata e falando com a câmera de maneira profissional.
- É ele! – Grito. – Ele é o... Maluco!
- O repórter? – Rebeca continuava descrente.
- Aquele filho da puta consegue ser tudo o que quiser!
- Ainda não se sabe a causa do incêndio – dizia ele. – Os bombeiros alegam que pode ter sido vazamento de gás, mas isso ainda será investigado pela perícia. Por enquanto, temos apenas o relato de uma das testemunhas...
Ele se aproxima de uma garota morena, com uma máscara de creme noturno no rosto e vestindo um hobby, como se tivesse acabado de acordar.
- Hei... Essa não é a Irene?
Faço que sim com a cabeça, perplexa.
- Ela deve estar muito perturbada para se permitir aparecer na TV desse jeito.
Irene Van Daime era tipo a Paris Hilton da cidade, só que com um pouco menos de dinheiro e muito menos vergonha na cara.
Eu não a suportava, e o sentimento era mútuo.
Ela havia ganhado dos pais uma “casa de campo” nos limites da cidade quando completou dezoito anos.
A mesma casa que, agora, estava totalmente destruída e queimada.
- A senhorita é a proprietária da casa? – Pergunta Loki.
- Sim! – Diz Irene, quase histérica. – Quero ser indenizada por isso, quero o culpado preso!
- Acha que existe um culpado pelo ocorrido?
- Eu sei que existe! – Cospe ela, quase triunfante. – Eu vi! Escutei um barulho de cascos e um relincho de madrugada, e fui espiar pela janela para ver se nenhum dos meus cavalos havia escapado dos estábulos. E eu vi uma mulher com um cavalo, e ela tinha uma tocha na mão...
- Uma tocha?
- Só podia! – Diz Irene, revirando os olhos, irritada por ter sido interrompida. - Era isso ou a cabeça dela estava pegando fogo!
Rebeca e eu nos entreolhamos, caladas.
- Pois, bem... Não consegui identificar a desgraçada, porque minha empregada começou a gritar lá embaixo, e quando desci metade da sala já estava em chamas.
Loki assentiu educadamente, franzindo o cenho. Ele era um belo de um ator, notei. Conseguia parecer sério e elegante quando na verdade era uma peste desvairada...
- Esse seu louco é um gato. – Diz Rebeca, em um sussurro.
Meu estômago se contraiu.
- Eca, Rebeca...
- E essas são as informações que temos até agora. Felizmente não houve nenhum ferido...
- Como assim?! – Irene puxa o microfone das mãos dele. – Toda a minha coleção Tiffany novinha já era! Alguém terá que pagar por isso!
Dou uma risada satisfeita.
- Bem feito!
- Psiu! – Rebeca agora parecia até mais interessada do que eu.
Loki agora entrevistava um bombeiro.
- Foi realmente estranho – dizia ele. – Não era o tipo de fogo com o qual estamos acostumados a lidar. Não era como fogo provocado por curto-circuito ou uma vela acesa esquecida... E só conseguimos conter as chamas quando o sol começou a nascer. E... Nos surpreendemos com a marca que ficou em uma das paredes.
A câmera foca em uma das paredes quase destruídas da casa.
Prendo minha respiração.
Havia uma espécie de mancha de queimado na parede, só que não era uma mancha qualquer. Tinha forma. Uma forma exata e bem definida, como se fosse obra de um artista profissional com tinta preta. Era como um desenho.
Duas cerejas, exatamente iguais as que eu tinha no pulso, só que muito maiores.
Nem tive tempo de surtar.
O repórter se virou para um dos policiais.
- Hei! – Grita Rebeca. – É o policial sexy... Aquele que veio nos avisar sobre a morte do Samuel ontem... Lembra?
- Lembro. – Digo, mordendo o lábio inferior.
- Estou me sentindo importante. Conhecemos todo mundo que está na TV!
Loki perguntou sobre o incêndio para o Tenente Christian Elias (o nome dele apareceu no rodapé da tela).
- Bom, acabamos de encontrar uma pista que talvez possa nos levar a um possível responsável pelo incêndio – diz ele, parecendo muito satisfeito. – Encontramos isso aqui perto e a dona da casa afirma não pertencer a ela.
Congelo.
O policial erguia um saquinho plástico com o par do meu sapato Hobbs de salto, novinho.
Como se não bastasse, ele olhou fixamente para a câmera, que se aproximou do rosto dele. Me encolhi no sofá, como se ele pudesse me ver através da TV.
- Hei, você – começou ele, com a expressão bastante grave. – Seja quem for ou onde estiver, nós vamos te encontrar.
 - Ai, não! – Gemo.
Tenho 21 anos! Não posso ser presa por algo que um maluco me obrigou a fazer! Não posso passar os melhores anos da minha vida na cadeia!
Rebeca desliga a TV, percebendo minha aflição.
Ela me encara.
- Lúcia... O que foi tudo isso?
- Espere! – Grito, me erguendo como se estivesse ligada no 220. – Eu também preciso de resposta!
Ligo o notebook em cima da mesa e automaticamente abro a página inicial do Google.
Hesito um pouco antes de digitar:
Cerejas – significado
Abro a página do Wikipédia.
E encontro mais ou menos o que queria saber.

Como tatuagem, a cereja representa a castidade feminina e a pureza do amadurecimento da fruta. Uma vez arrancada, no entanto, a cereja representa a perda da inocência e da virtude. Uma cereja provada, sua carne perfurada pelo apetite, não é mais virgem. Uma cereja em chamas fala do desejo insaciável, paixão e luxúria.

Percebo Rebeca bem atrás de mim, lendo a pesquisa.
- Perda da inocência e da virtude – digo, rangendo os dentes. – Aquele maldito do Loki realmente acha isso engraçado, não é?
- Isso é quase uma piada! – Concorda Rebeca. – Mas faz sentido. Você não era virgem, mas corromper um padre...
- Para! – Peço, estressada. – Já entendi o recado... Mas se uma cereja em chamas representa luxúria e desejo insaciável... Então porque eu coloquei fogo na casa da Irene Vadia?
- Vai ver você teve um orgasmo fazendo isso.
- Olha, eu não duvido. – Digo, me voltando para o computador.
Novamente peço auxílio ao santo Google:
Loki
E outra vez o Wikipédia me foi útil.

Loki é um deus da mitologia nórdica. Deus do fogo, da trapaça e da travessura, também está ligado à magia e pode assumir a forma que quiser. É frequentemente considerado um símbolo da maldade, traiçoeiro, de pouca confiança; e, embora suas artimanhas geralmente causem problemas em curto prazo aos deuses, estes frequentemente se beneficiam, no fim, das travessuras de Loki.

- Perfeito. – Declaro. – Um deus nórdico me amaldiçoou por ter dormido com um padre, me dando uma tatuagem para que eu nunca esqueça do quanto fui safada e agora também sou a mula-sem-cabeça... Que droga é essa?!
- Pesquise sobre a lenda da mula-sem-cabeça. – Pede Rebeca.
Obedeço.
 Os resultados foram as mesmas coisas de sempre: Mulher que namorou um padre se transforma em uma mula sem cabeça que solta fogo pelo pescoço, o que já não era 100% verdade no meu caso.
- Formas de se livrar da maldição – leio em voz alta. – Espetar a “mula” com um alfinete... Ai! Rebeca!
Ela riu, segurando um broche.
- Não teve graça! – Ralho. – Bom... A outra solução que apresentam na maioria dos sites é recorrer ao padre envolvido para que ele retire a maldição... O que não podemos fazer.
Nos entreolhamos, sérias dessa vez.
- E agora? – Pergunto, percebendo que cheguei ao fim da linha.
Rebeca suspira, olhando meu calendário Vogue na parede.
- É o seguinte: hoje ainda é Lua Cheia. Vamos juntas para um lugar bem longe e você me mostra essa bizarrice para vermos até onde vai isso.
Dou de ombros, desanimada.
- Isso tudo é uma droga! E o que vamos fazer até lá?
Minha amiga abre um sorriso brilhante.
- Vamos beber, minha cara.

***

Rebeca e eu fomos em alta velocidade para os limites da cidade, ainda mais longe do que na última vez.
Estávamos chapadas, claro, ou provavelmente não teríamos saído de casa por causa daquela loucura toda.
Íamos rindo sem parar, Rebeca dirigindo em ziguezague e eu cantando as músicas do rádio na maior felicidade.
Ela parou o carro de qualquer jeito e nós duas saímos, meio cantando, meio dançando e meio caindo.
- Oh, Céus... – Começo, recuperando o fôlego depois de rir tanto. – Está escurecendo... Vai acontecer, Rebeca! Eu não consigo parar de rir!
Rebeca dá uma risadinha nervosa
- Então manda a ver, Lúcia! Mostra que você é quente!
Gargalho, cambaleando para longe dela, por precaução.
Paro, um pouco tonta, entre algumas árvores, vendo a silhueta de Rebeca dançando a alguns metros.
Aceno.
Cara... Estou muito louca.
O álcool havia subido para a minha cabeça.
Álcool na cabeça... Álcool na cabeça... Álcool na cabeça?
Álcool, inflamável?
Congelo por dentro, mas o gelo não duraria por muito tempo.
A Lua Cheia apareceu e eu fechei os meus olhos o mais forte que consegui.
E a explosão de fogo dessa vez foi assustadoramente mais violenta.

CONTINUA

3 comentários:

  1. Olá, estou começando um novo projeto. Uma série de vampiros e caçadores. Espero que você goste!
    Visite lá e dê a sua opnião: http://contosdeduasirmas.blogspot.com.br/

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  2. Oh My God, estou com pena da Rebeca, que susto que ela vai ter!

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  3. Aushaushaush Susto? Quem sabe...

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