terça-feira, 22 de janeiro de 2013

CEREJA EXPLOSIVA - 6

6.  Gato e Rato

Senti uma luz incômoda e quente no rosto, e percebi que era o sol.
Só que eu não queria abrir os olhos, acordar e... Ter que lidar com tudo.
Minha cabeça doía pra valer, e eu estava deitada em algo que parecia grama.
Nada legal. Nada...
- Hei! Você… - Alguém me cutucou no braço.
Me sobressaltei e me sentei em um segundo.
A luz me cegava, e eu só podia ver uma silhueta masculina contra o sol.
Tentei me levantar, mas a dor de cabeça insuportável me fez sentar e respirar fundo.
- Você está bem?
- Minha cabeça está explodindo. – Eu disse, me xingando por dentro.
Onde estou? E o que aconteceu?
Ah, cara... Vou acordar assim todos os dias agora?
- Beba um copo de água.
Aceitei a água porque minha boca estava seca.
Ergui a cabeça para agradecer quem quer que fosse, mas engasguei.
Era o policial.
Não usava farda, apenas jeans e uma camisa polo, mas mesmo assim eu me encolhi.
Ah, meu Deus...
Meu estômago se revirou e a culpa invadiu minha expressão.
Ele havia me pego com a mão na massa... Eu ia ser presa por queimar casas por aí, quando nem tinha controle sobre mim mesma.
- Eu... Eu preciso ir. – Foi tudo o que consegui dizer, me levantando, sem encará-lo.
Eu esperava que ele tentasse me impedir, mas, para o meu alívio, ele deixou que eu me afastasse, olhando em volta.
Vi o carro de Rebeca não muito longe e respirei aliviada.
Mas onde ela estava?
- Hei, Srta. Sales – disse o policial atrás de mim.
Gelei. Ele lembrava do meu nome... Isso não era bom. Nada bom.
Me virei devagar.
- Sim? – Tentei parecer segura, o que era um bocado difícil usando aquelas roupas queimadas faltando pedaços: ainda bem que dessa vez eu havia vestido peças baratas e sem marca.
- Acho que precisamos conversar. – Ele tinha uma sobrancelha erguida e as mãos na cintura, e pela primeira vez parecia totalmente sério, sem zombar de mim. – Vou passar no seu apartamento mais tarde.
Estremeci por dentro, mas me esforcei para continuar encarando-o.
- Não sei se vou estar em casa.
- Eu vou até lá. – Pressionou ele. – Isso não pode esperar.
Assenti, dando de ombros, e continuei meu caminho.
Ah, droga...
Ele vai aparecer fardado no meu apartamento, com um mandado de busca. E vai encontrar o par do meu sapato Hobbs. E a Irene Vadia vai contar pra todo mundo que eu a odeio. E serei condenada porque nem tenho como pagar um advogado decente, e serei uma vergonha para a minha família.
Vão leiloar todas as minhas roupas.
As revistas vão falar mal de mim.
E vou apodrecer na prisão.
Só vão me soltar quando eu estiver velha e nem conseguir mais subir em um salto.
Rebeca vai estar morando em algum lugar distante e lindo como a Suíça com os netinhos dela, meus pais e irmãos estarão mortos, eu não terei filhos e irei passar o resto da minha vida em um asilo público, usando camisolas brancas abertas atrás...
Oh, não.
Isso não pode acontecer comigo.
Nada disso está nos meus planos para o futuro!
Mas, por outro lado... Eu teria uma história de vida sofrida para contar. Poderia escrever minha biografia enquanto estivesse presa, pedir ajuda de Rebeca, que conhece várias editoras, e o mundo inteiro se comoveria! E então estudantes começariam a fazer passeatas e greves para que eu fosse solta, e até o maldito Tenente Christian iria chorar e me pedir perdão publicamente...
Percebo que havia alguém dentro do carro.
- Rebeca...! – Começo com lágrimas nos olhos, abrindo a porta. – Ahn? Ai, que nojo!
Eu havia interrompido um amasso entre Rebeca e... Loki.
Os dois se afastam e me dão sorrisinhos amarelos.
- Bom dia, Vera Mula! – Exclama Rebeca, bem humorada demais para o meu gosto. – Tem cappuccino pra você lá atrás.
Fecho a cara.
- Estou passando pela maior crise da minha existência e você saiu para comprar cappuccino?!
- Claro que não! – Diz ela, parecendo ofendida. – Loki trouxe café pra gente. Ele não é fofo?
Cerro os punhos.
- Claro, muito fofo! Me amaldiçoa e depois trás café. Impossível ser mais fofo!
- Eu só fiz o meu trabalho, Cerejinha! – Defende-se Loki, franzindo a testa. – Não tive culpa do seu tête-à-tête com o padre.
- Cerejinha – bufo, semicerrando os olhos e exibindo o pulso. – Perda da inocência... Isso também é parte do seu trabalho?
- Ok, isso foi criatividade minha. – Confessa ele, com um sorriso brilhante.
Reviro os olhos.
- Ah, meu Deus! O que eu fiz essa noite? – Pergunto, olhando em volta, esperando ver algum desastre de fogo.
- Relaxa, você só brincou – diz Rebeca. – Ficou galopando sua égua, saltitando... Como uma mula-sem-cabeça bêbada.
- Sério? – Pergunto.
- É, mas se eu não tivesse controlado seu fogo explosivo por causa do álcool – começa Loki. - Teria provocado um incêndio nesse mato seco e morrido asfixiada. E matado Rebeca. Então, de nada.
Mostro o dedo do meio para ele, irritada.
- Não tenho nada para agradecer a você! – Digo. – Vamos, Rebeca. Precisamos dar o fora, e depressa.
Olho para trás, onde o Tenente Christian ainda me observava de longe.
Rebeca acompanha o meu olhar.
- Vixi... É o...?
- Policial. – Digo, mordendo o lábio inferior. – Vamos embora. Já!
Loki salta do carro e eu ocupo o lugar dele no banco do passageiro.
Rebeca arranca e logo estamos na estrada principal, na direção do centro da cidade.
- Loki é tão hot – diz ela, enquanto dirige.
- Credo. – Cuspo, mordendo o canudo do meu cappuccino.
- Para, vai... Confesse que ele é bonitão. E sabe divertir uma garota. E ele realmente te deu uma ajuda ontem.
- O cara é um psicopata com poderes sobrenaturais, Rebeca – digo, revirando os olhos. – Mas nós temos problemas mais sérios. O policial me acordou hoje. Ele lembra o meu nome, sabe onde eu moro e disse que vai passar lá em casa mais tarde.
Sinto um nó no estômago só de lembrar.
- Vixi... – Murmura Rebeca novamente. - Isso não é muito bom, né?
- Ele vai me prender! – Choramingo. – Provavelmente já me ligou ao incêndio na casa da Irene. E vai começar a investigar, e... Ah, droga! REBECA, TEMOS QUE SAIR DA CIDADE!!!
- O que?! – Rebeca freia o carro bruscamente, me olhando assustada. – Você pirou de vez, Vera Lúcia? Vai fugir da polícia?
- Não... – Suspiro. – Mas precisamos adiar isso. Não posso ser presa na Lua Cheia. Já pensou se eu me transformo no tribunal, diante de todos? O que vão fazer comigo? O que eu vou fazer com as pessoas?
Rebeca arregala os olhos ainda mais.
- Lúcia, você tem razão! – Guincha ela. – Usou o cérebro pela primeira vez... Caramba, se isso acontecer vai ser um tremendo desastre!
- Eu sei eu sei eu sei! – Gemo, batendo os pés. – Vamos pegar nossas coisas no apartamento e dar o fora.
Rebeca recomeça a dirigir, tensa.
- Ir embora pra onde? Estamos desempregadas, lembra? A grana tá acabando...
- Podemos alugar um apartamento mais barato. E tentaremos arrumar alguma coisa como... – Olho para o meu copo de cappuccino. - Empregos na Starbucks!
- Starbucks não! – Geme Rebecca. – Não vende nada alcóolico lá.
Entramos correndo no apartamento, tirei as roupas queimadas e as coloquei em um saco de lixo, junto com o vestido também queimado da noite anterior e o par do meu sapato Hobbs – precisava me livrar de todas as provas possíveis.
Vesti jeans e uma blusa de moletom GAP com capuz, me sentindo um garoto adolescente – mas assim não iriam me reconhecer.
Também calcei um All Star de couro branco e peguei meu óculos escuro com grau mais discretos – totalmente preto, da NK Malone...
- Vera Lúcia! – Berra Rebeca. – Saia da frente do espelho e faça a sua mala.
- Tá legal... – Digo, meio trêmula. - Devemos pegar só o essencial. Não podemos levar tudo porque irão dizer que fugimos, e só vamos... Tirar férias.
- Certo – concorda Rebeca. – Então vamos lá. Apenas o essencial...
Trocamos um olhar grave, e eu disparei para o meu guarda-roupa ao mesmo tempo em que Rebeca corria para o bar.
Minhas roupas, bolsas e sapatos! Armani, Chanel, Louis Vuitton, Gucci, Versace, Dolce e Gabbana...
Estremeci. Eu não podia deixar nada daquilo pra trás.
Era melhor ir logo para a cadeia do que abandonar todo o esforço de uma vida, toda as horas passadas em shoppings e desfiles para formar um guarda-roupa tão completo, e maravilhoso, e...
- Vera Lúcia, você está pronta? – Grita Rebeca da cozinha.
- Quase! – Minto, tentando desesperadamente socar o máximo possível na minha mala.
Coube tudo, graças a Deus.
Coube em cinco malas grandes de viagem, e já passava do meio-dia, mas coube!
Só deixei para trás roupas fora de moda ou sem marca, pijamas, tênis e chinelos.
- Tudo pronto! – Exclamo, triunfante, finalizando com a minha nécessaire de mão Prada, onde estava toda a minha maquiagem, um perfume e minha escova de dentes. – Podemos ir. – Digo, arrastando minha bagagem para a sala.
Rebeca me olha.
- Não dá pra levar tudo isso!
- Não fale da minha bagagem e eu não falarei da sua!
Eu sabia por experiência própria que nas duas mochilas de Rebeca haviam apenas garrafas de whisky, absorventes, aspirinas, calcinhas e balas Halls.
Assim, ela dá de ombros e pega o telefone.
- Vou alugar um carro. – Diz ela. – E deixar o meu na casa dos meus pais. O policial gostosão deve ter anotado a placa...
Concordo, satisfeita.
- Rebeca! Você é um gênio!
Estou prestes a pular de felicidade, mas acabo pulando de susto quando escuto a campainha tocar.
Rebeca coloca o telefone no gancho e silenciosamente desliza até a porta, espiando pelo olho de vidro.
- Oh, não... – Sussurra, branca como um fantasma. – É o policial, Lúcia!
Gelo, caindo no sofá.
E agora? Acabou!
- Vamos descer pela escada de incêndio! – Proponho, com o coração batendo forte contra as costelas.
- Não temos escada de incêndio! – Diz Rebeca.
- Que irônico – fungo. – Nosso próximo apartamento não pode deixar de ter uma...
A campainha toca outra vez, dessa vez acompanhada por batidas na porta.
- Vera Lúcia Sales – chamou uma voz grave. – Sei que está aí. Abra, por favor.
Engulo em seco.
- Já era... – Gemo.
- Não – diz Rebeca, me olhando decidida. – Eu tenho um plano!
***
Rebeca abriu a porta com um sorriso enorme, e eu prendi a respiração, me encolhendo atrás do sofá.
Ela havia tirado as roupas e colocado uma camisola propositalmente provocante.
- Hello... - Disse ela para o policial.
Ele ficou surpreso por alguns segundos, mas logo se voltou para o foco: eu.
- Desculpe pelo incômodo, mas eu procuro pela Vera Lúcia. Ela está?
- Não, ela não se encontra no momento... Quer deixar recado?
- Hmm... Na verdade, eu gostaria de espera-la aqui. É um assunto de extrema urgência...
- Claro! – Rebeca fingiu estar empolgada com a ideia, puxando-o para dentro – mas deixando a porta aberta.
Olhei para o tenente do meu esconderijo.
Outra vez, ele não estava fardado.
E me surpreendi ao perceber que ele se vestia bem. Jeans, suéter preto legal e tênis Adidas...
Ok, pare! Ele é o inimigo. Não confie nele... Mesmo que ele seja um homem de bom gosto para roupas. Ele quer te pegar... E não é no bom sentido!
Coloquei a cabeça para trás do sofá antes que ele me visse, e agora eu só podia ouvi-los.
- Senta aí! – Rebeca o empurrou para o sofá. – Posso te oferecer uma bebida?
Ele deu um pigarro, parecendo constrangido.
- Não, obrigado, eu estou ótimo...
- Ok! – Rebeca usava a voz de louca atirada. – Uns amassos, então!
Escutei alguns ruídos estranhos, que só podiam significar que Rebeca havia enfiado a língua na garganta dele e agora ele lutava com todas as forças para se livrar.
Aquela era a minha deixa.
O mais silenciosamente possível, rastejei pelo tapete na direção da porta, mas meu pé ficou preso entre a mesinha de centro e uma poltrona.
Droga!
Puxei com toda a minha força, e o resultado foi o vaso de tulipas que Rebeca havia ganho da mãe dela semana passada cair e se espatifar no chão.
O policial empurrou Rebeca no mesmo minuto, erguendo a cabeça.
- Vera Lúcia?
Ah, não...
Rebeca agiu mais depressa.
O agarrou como se fosse um coala e gritou:
- Corre, Lúcia, corre!
Obedeci, disparando porta a fora e correndo para o elevador que, pra minha sorte, estava no nosso andar.
- Licencinha, Dona Clara! – gritei, esbarrando na senhora que morava ao lado e tinha um milhão de cachorros poodles.
- Mas o que...?
- Não, espera! – Gritava o policial, chegando ao corredor com dificuldade, porque Rebeca ainda estava agarrada a ele, usando apenas a camisola que agora parecia ridícula.
Pulei para dentro do elevador, apertando freneticamente o botão do andar térreo.
Só consegui respirar quando a porta se fechou.
Mas, para o meu pavor, o elevador começou a subir, ao invés de descer...
Foi quando percebi que Jonas, meu vizinho de cima, estava no elevador, me olhando como se eu fosse um ET.
- Oi, Jonas! – Digo, sorrindo.
Ele apenas desvia o olhar.
Ok, tínhamos uma história embaraçosa.
Eu havia entrado no apartamento dele uma vez quando estava bêbada, e começamos a sair. Só que a mãe mora com ele e, quando voltou de sua viagem para Aparecida do Norte, nos interrompeu enquanto nos pegávamos no sofá e teve um ataque cardíaco que a deixou no hospital por duas semanas.
O prédio todo conhecia aquela história.
Mas agora o fato é que eu tinha que sair daquele elevador, ou, quando ele descesse de novo, o policial me pegaria.
- Tchau, Jonas! – Grito, saindo do elevador quando a porta abriu e correndo para as escadas.
Chego ofegante na recepção, mas meu coração consegue acelerar ainda mais quando vejo o policial sair do elevador e olhar em volta.
O prédio deve ter outra saída que não seja pela recepção. Tem que ter.
Vejo a placa indicando saída de emergência e meu rosto se ilumina.
Mais do que depressa, puxo o capuz sobre a cabeça e corro sem olhar em volta para as pessoas na recepção.
- Vera Lúcia!
Droga! Ele me viu!
A saída de emergência dava na rua de trás.
Corro o máximo que minhas pernas conseguem, e vejo um ônibus prestes a sair do ponto.
- Hei! – Grito. – Me espere!
Entro no ônibus quase tropeçando nos degraus, e olho para trás.
O policial olhava para os dois lados da rua, aturdido, tentando ver para onde fui.
Respiro aliviada, me largando em um dos bancos.
Nunca pensei que chegaria o dia em que eu ficaria feliz por embarcar no transporte público da minha cidade.


CONTINUA

3 comentários:

  1. Perfeito Giovanna! Estou apaixonada por essas história e pelas cerejas no pulso da Vera Lúcia! Continua...

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  2. Meu, que ansiedade que deu nessa louca corrida da Vera!

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  3. Obrigada, garotas! XD
    Continuando...

    P.S.: Carla, também adoro essa tatuagem de cerejas no pulso... Pensando seriamente em fazer uma! O.o

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