quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

CEREJA EXPLOSIVA - 7

7.  Antes só do que mal acompanhada

Eu não tinha carro, não tinha pra onde ir, só vinte contos no bolso e, como se não bastasse, estava mal vestida.
Não era assim que eu imaginava que seria se eu tivesse que fugir da polícia um dia. Eu tinha em mente algo mais como um belo vestido godê, sapatos brancos perolados de salto, echarpe sobre o cabelo e óculos escuros estilo gatinha.
Para completar, Rebeca dirigiria um Cadillac vermelho, eu me sentaria ao lado dela, com a echarpe e o cabelo ao vento.
E talvez assaltássemos um banco no caminho. Ah, sim... Eu ficaria muito mulher fatal segurando uma arma potente, contrastando com meu visual anos 60.
Eu sonhava com isso para tentar não entrar em pânico.
Porque nesse momento eu estava sentada em uma lanchonete pobre, folheando uma revista de fofoca pra lá de velha e bebendo uma xícara do café mais barato do mercado depois de um almoço quase miserável.
Que decadência. Se alguém tirasse uma foto minha e postasse no Facebook agora, seria o maior assassinato social de todos os tempos.
Mas ainda era possível piorar.
Uma hora a lanchonete iria fechar.
Em breve ia anoitecer, e eu ia perder o controle.
E estava no centro da cidade, sozinha, sem dinheiro ou lugar para ir.
Sem meu celular, que devo ter perdido durante a fuga.
Sem poder falar com Rebeca ou com meus pais, a não ser que eu quisesse mata-los do coração e incendiar a casa deles.
Quando me dou conta, estou chorando.
Lágrimas grossas escorrendo pelo meu rosto.
Bem, agora era tarde para parar. E eu não queria parar. Chorar era tudo o que me restava.
Afundei o rosto nos braços apoiados na mesa e comecei a chorar alto, sem me importar com as pessoas que estavam em volta.
- Hei, boneca... – Sinto uma mão no meu braço. – Seque as lágrimas. O papai está na área.
Ergo o rosto, imaginando se seria alguém que eu conheço.
Só que não era.
Aquele cara usava chinelo, bermuda e uma regata que deixa ver os braços tatuados. E não eram tatuagens legais.
E ele me olhava de um jeito desagradável.
Puxo o meu braço, incomodada.
- Eu estou bem, obrigada. – Digo, me encolhendo.
- Ora, não tenha medo, gostosa – disse ele, sentando-se ao meu lado. – O que uma moça bonita como você faz sozinha em um lugar como esse?
- Não estou sozinha. Meu namorado está chegando. – Digo, com uma voz falha que me denunciava.
- Ah, está... – Riu ele. – Aposto que está.
Olhei em volta. As pessoas pareciam nem perceber aquilo. Ou não se importar.
Mas quando ele passou a mão na minha perna, eu gritei.
- Ah, seu pervertido! – Berro, me levantando. – Não encoste em mim!
As poucas pessoas na lanchonete olharam, mas nenhuma delas se moveu.
Meu rosto ficou vermelho.
Oh, céus... Como as pessoas podem ser tão egoístas? Um cara passa a mão em mim e ninguém ia fazer absolutamente nada?
- Venha cá, minha linda – continuou o sujeito, dando tapinhas na cadeira ao lado dele. – Não precisa se fazer de difícil comigo...
- Você é repugnante. – Cuspi, erguendo a cabeça e lhe dando as costas.
Saí da lanchonete sentindo que a minha dignidade, pelo menos, estava de pé.
Só que isso não foi muito boa ideia.
Porque o cara veio atrás de mim.
- Hei, boneca – disse, segurando meu braço com força. – Aonde pensa que vai? Hoje você vem comigo.
Ele tinha um terrível bafo de cachaça.
Tentei me soltar, mas ele não me largava, apenas tentava me agarrar ainda mais.
- Me solte! – Gritei, dando-lhe um tapa na cara.
Isso o irritou ainda mais.
Ele cerrou o punho, pronto para me dar um murro que com certeza me quebraria.
Fechei os olhos, pronta para receber o soco.
Só que a porrada não veio.
Abri os olhos, e o que eu vi foi o meu braço esticado, minha mão erguida, segurando o punho do sujeito sem a menor dificuldade.
Ele parecia espantado.
Eu sorri selvagemente. Uma vaga lembrança dentro de mim pareceu despertar.
Aquele cara detestável gritou quando o calor da minha mão o atingiu, lhe causando uma queimadura grave no braço.
- Sua vadia! – Berrou ele, urrando de dor.
- Do que você me chamou? – Digo, erguendo minha mão incandescente sobre ele, as cerejas brilhando. – Diga: Me desculpe, senhorita. Vamos!
Dei um passo na direção dele.
- Me desculpe, senhorita... – Disse ele, baixando os olhos.
- Você nunca mais vai desrespeitar nenhuma mulher, entendeu? – Vi o reflexo das chamas nos meus olhos refletirem em medo nos olhos dele. – Ou eu vou voltar. E vou fazer suas bolas virarem carvão! Suma daqui!
Não precisei falar duas vezes para que ele se mandasse correndo.
Eu não pude evitar sorrir.
Eu estava sozinha e muito encrencada, mas naquele momento me senti poderosa.
Mais poderosa do que quando eu comprava roupas novas ou quando minhas fotos batiam recordes de curtidas no instagram.
Dei meia volta, só para que meu sorriso sumisse ao dar de cara com o policial, parado bem atrás de mim.
- Ah, não... – Gemo.
- Ah, sim. – Diz ele, olhando para o relógio no pulso. - Droga... Logo vai anoitecer. Não há muito tempo.
Tentei decifrar a expressão dele, sentindo uma pontada de esperança. Talvez Rebeca tivesse falado com ele.
Talvez ela tivesse explicado tudinho, e ele tenha acreditado, no final das contas. E agora ele me aconselharia a ir para bem longe me transformar, e daria um jeito de me encobrir.
E seria meu parceiro nessa rodada, nos tornaríamos uma dupla, talvez eu conseguisse até um emprego na delegacia, e seria tudo ainda melhor do que CSI.
- Vera Lúcia...
- Sim? – Quase sorrio.
- Me acompanhe até a delegacia. E dessa vez faça o favor de não fugir.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele colocou um par de algemas nos meus pulsos, e me conduziu para um carro preto estacionado ali perto.
Merda!
***

- Tenho direito a um advogado! E você não pode me prender sem farda ou viatura, pode? Acho que não.
Eu tentava parecer confiante, mas a verdade é que nunca fui muito boa com assuntos relacionados à lei ou política.
Sempre pulo essas partes das revistas e vou direto para as páginas de moda e vida das celebridades.
Ele apenas me ignorava, dirigindo com certa tensão.
- Você vai receber um aumento se me levar logo, soldado? – Solto, sem conseguir evitar.
Pela primeira vez desde que entramos no carro, ele me encara com tom de zombaria.
- É tenente Christian Elias – corrige ele.
Olho para fora do carro.
Em vinte minutos ou menos anoiteceria.
Ai meu Deus...
- Você está correndo um risco muito grande, sério. – Digo, mordendo o lábio inferior.
- Isso foi uma ameaça, mocinha? – Indaga ele, parando o carro.
- Não. – Digo, em um fio de voz.
Minhas pernas bambeavam enquanto ele me encaminhava para o prédio da delegacia. Não entramos pela frente, mas sim por um portão lateral trancado por correntes e cadeado, que ele abriu com um molho de chaves.
Começamos a descer escadas e mais escadas, e logo estávamos em um corredor de celas vazias com cheiro de bolor. Parecia inutilizado há anos.
Ele soltou as algemas do meu pulso e me empurrou para dentro de uma delas, trancando-a.
- Tenho direito a uma ligação! – Gritei, tremendo dos pés a cabeça. – Quero falar com o delegado!
- Agora? – Pergunta ele, indicando a janela gradeada com o queixo.
Olhei para trás. O sol estava se pondo, deixando o corredor cada vez mais escuro.
As barras de ferro pareciam bastante firmes, mas, mesmo que me segurassem, se alguém visse a minha transformação...
- Vá embora! – Grito de repente. – Me deixe em paz... Sozinha. Aguardando julgamento.
Ele me olhou com uma sobrancelha erguida e deu um meio sorriso sarcástico.
- Você não sabe o que quer, não é mesmo?
Ele entrou na cela em frente a minha e se trancou.
Fiquei boquiaberta.
- O que está fazendo?
Ele não me respondeu, apenas tirou o suéter.
Fiquei ainda mais boquiaberta.
- Não vai tirar a roupa? – Me perguntou ele.
- O que?! – Minha voz saiu como um guincho. – Ah, meu Deus... Você é algum tipo de maníaco, não é? Que tipo de jogo sadomasoquista é esse?
Ele deslizou a calça jeans, ficando apenas de cueca box preta diante de mim, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
- Se eu fosse você eu tiraria a roupa – adverte ele, me olhando de braços cruzados. – E pode ficar tranquila, estou bem preso aqui. Ah, e não me esqueci de que você gosta de religiosos.
Aquilo foi a gota d’água.
As cerejas no meu pulso começaram a brilhar por baixo do moletom.
E quase fiquei feliz.
Porque agora aquele tenentezinho ia ver no que dá se meter comigo.
As pessoas estavam sempre me subestimando.
Acho que eu deveria mostrar para elas que sou muito mais do que uma garota bonita que gosta de comprar roupas de marca.
- Agora você vai ver uma coisa que vai te deixar com a cara no chão. – Eu digo, sentindo meu corpo começando a esquentar.
- Talvez seja você quem fique surpresa. – Provoca ele.
Sorrio, enquanto as ondas de calor começam a ficar mais intensas.
Mas meu sorriso morre.
Porque havia algo de errado com ele.
Ele sorria. Ele tinha um brilho avermelhado nos olhos.
E, quando ele ergueu o pulso, vi a tatuagem de um trevo de quatro folhas, mudando de verde para vermelho incandescente, assim como seus olhos.
Arfo, incrédula, enquanto o calor começa a subir para a minha cabeça. Oh, meu Deus... Eu não era a única.

CONTINUA

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