quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

CEREJA EXPLOSIVA - 8

8. Feras de Fogo

Mas quando o fogo começou a arder em mim, tudo pareceu menos pavoroso.
Eu perdia qualquer noção de perigo, medo ou sensatez quando me transformava.
Então, sorri despreocupada para o homem que flamejava diante de mim.
Isso é novo para você, não é?
As palavras não foram ditas em voz alta, mas sim como mais uma faísca dentro da minha cabeça.  Poderia ser até mesmo algum delírio.
Aham...
Respondo da mesma forma.
Ele também sorria para mim, as chamas no cabelo vermelho e nas mãos que deslizavam pela grade intacta.
Eu quero sair! - Exclamo, impaciente, mas eu não conseguia fazer com que as barras derretessem, por mais que tentasse concentrar o calor nas minhas mãos.
Ele gargalhou chamas, sentando-se no catre da cela, despreocupado.
Não pode sair. Essas barras não são de aço comum, são de prata. O fogo do inferno não pode com a prata.
Bufo, soltando sem querer duas labaredas pelo nariz.
Isso é tão frustrante! Posso ouvir os relinchos de Cherry lá fora, ela espera por mim...
Batizou sua égua de Cherry? Ele tinha uma sobrancelha erguida. Bem, deveria arrumar um estábulo para ela. Consegui um para o Trevo.
Estalo a língua, aproximando-me da grade e observando-o com curiosidade.
Como consegue ficar tão calmo?
Nada disso é novidade pra mim. Já aprendi a me controlar, raciocinar. E planejei esse lugar para ajudar a me conter.
Ele desviou o olhar para a parede da cela.
Como consegue não queimar sua cueca? Pergunto.
Ele ri outra vez.
Você é hilária, Vera Lúcia. Tente se conter um pouco sua euforia e talvez reste algo das suas roupas caras quando amanhecer.
Mordo o lábio inferior.
Me conter! Parecia o maior dos absurdos.
Eu queria gritar e lançar chamas para todas as direções. Queria ser livre para percorrer a noite e liberar todo o fogo que havia dentro de mim.
Destruir quem eu não gostava.
Dessa vez seria aquela loja de departamentos que tentou me vender aquela sandália da coleção passada pelo preço de uma nova, como se eu não conhecesse muito bem os catálogos...
Você está se iludindo. Queimar cada pessoa que te irritou não vai te satisfazer.
O encaro, em tom de desafio.
O que vai me satisfazer, então?
Ele dá um sorriso misterioso.
A luxúria. Acredite, agora parece que destruir a casa da sua rival ou beber e enlouquecer no meio do campo é bom, mas depois que você descobrir o que pode fazer com os seus poderes... A coisa se torna viciante.
Apenas o olho, prevendo que aquela seria uma longa noite, com muito papo e pouca ação.
Conte-me mais sobre isso.

***

Na manhã seguinte não acordei tão mal como nas anteriores.
Um catre de prisão não era a cama mais confortável do mundo, mas, apesar do meu jeans arruinado, eu estava coberta por uma manta e vestia o suéter largo e macio do Christian.
Oh, meu Deus... Christian.
O policial que também era... Bem, era como eu.
E com quem eu tinha tido conversas mirabolantes durante toda a madrugada, conversas das quais agora eu me envergonhava um pouco.
Fico pirada quando me transformo. Pior do que quando bebo.
Ao lado do catre havia uma bandeja com cappuccino e um croissant de quatro queijos, que eu devorei ansiosamente.
Assim que terminei, ouvi passos no corredor.
- Bom dia – ele abriu a cela, magnífico em seu jeans esporte e camisa branca, o cabelo alinhado com gel e impecável, enquanto eu estava um estrupício.
- Oi. – Digo, me encolhendo um pouco. – Bom... Depois da noite de ontem... Eu tenho algumas dúvidas.
- Mais dúvidas? – Aqueles olhos verdes zombeteiros deixavam claro que ele se lembrava perfeitamente das coisas que tínhamos falado na véspera. – É, eu achei que teria.
- Estou presa? Digo... De verdade? – Pergunto, nervosa.
Ele ri.
-        Não, senhorita. Está livre. Apenas te convido para me acompanhar até aqui algumas noites. É a parte antiga da delegacia, ninguém vem mais aqui, e eu mandei revestir as barras...
- Com prata.
- Isso. – Ele voltou a sorrir. – Já está conseguindo se lembrar das coisas que faz e fala enquanto se transforma, não é?
Dou de ombros.
- Como descobriu... O que eu sou?
- A primeira pista foram as cerejas na parede da casa daquela mulher. Me lembrei da tatuagem no seu pulso, que eu tinha reparado no dia da morte do padre. Também não era difícil imaginar você com sapato de grife encontrado por perto. E, para completar, ontem de manhã eu fui checar uma denúncia de “fogos de artifício” em um bairro do interior da cidade que perturbaram os moradores durante a madrugada.
Mordi o lábio inferior, assentindo calada, mas outras perguntas disparavam na minha cabeça.
- Christian... – Chiei, sem saber direito se podia mesmo chama-lo assim. - Como isso... Como isso aconteceu com você? Tipo... Você namorou uma freira ou o que?
A expressão dele endureceu.
- Não. Foi... Outra coisa.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, e ele tinha o olhar meio vago.
- Podemos conversar em outro lugar? – Pergunta ele, de repente. – Sei lá... Sair para comer.
Meu coração deu um pulo.
Tipo... Um encontro?
Uau.
- Primeiro eu tenho que ir pra casa. Eu preciso... – Lavar o cabelo. Colocar uma roupa que seduza você. Escolher um lingerie. – Preciso avisar minha amiga que eu estou bem! Ela deve estar preocupada.
Ele apenas assentiu e me acompanhou até a rua, onde chamou um táxi pra mim.
- Comida japonesa. Passo no seu apartamento lá pra uma e meia. Eu pago.
Ele deu uma piscadela antes de fechar a porta do táxi, e eu senti uma satisfação que não sentia há dias.

***

- Ok, deixa eu ver se eu entendi... – Rebeca ainda tentava recapitular a história, sentada de pernas cruzadas na poltrona. – O policial sexy na verdade também pega fogo na Lua Cheia e vai te levar para almoçar com ele? E agora vocês vão se transformar juntos em celas com barras de prata para não surtarem por aí?
- Exatamente. – Eu desfilava na frente do espelho, admirando a perfeição do meu conjunto branco da Juicy e meus sapatos Hermès também brancos.
Mas o melhor estava por baixo...
- Lúcia, está usando a combinação rosa e dourada da Victoria’s Secret? – Rebeca me perguntou, erguendo uma sobrancelha.
- Pode apostar que estou! – Respondo, radiante.
- Você sabe que isso não é exatamente um encontro, não é? – Pergunta Rebeca. – É mais tipo... Oi, vamos bater um papo entre aberrações flamejantes!
Jogo minha bolsa Alexander McQueen nela.
- Hei! Pode me xingar do que quiser, mas pense bem antes de falar do Christian, ok? Ele com certeza não é nenhuma aberração.
Rebeca revira os olhos.
- Pronto! Já está caída pelo cara. Eu sei que ele é quente... Bom, literalmente quente, mas tente não se jogar muito, ok?
- Como?
- Só estou alertando você. Não dê muito mole pra ele.
Dou risada.
- Querida, com quem você acha que está falando? Eu sei muito bem segurar um homem pelo tempo que eu quiser!
Mas Rebeca balançou a cabeça.
- Não é isso... Pense bem: você dormiu com um padre e por isso foi amaldiçoada, certo? Mas a maldição dele é diferente... Ele tem um trevo de quatro folhas no pulso e parece que não dormiu com uma freira. O que ele fez, então?
Não respondo.
Na verdade, ainda não tinha pensado naquilo.
- Apenas se cuide – continuou Rebeca. – Ele pode ter feito algo realmente errado.
- Você viu Loki ultimamente? – Pergunto, subitamente.
- Loki? Não...
- Não me lembro de Christian mencioná-lo. – Digo. – Será que ele foi amaldiçoado por ele também?
- Eu não faço ideia...
Outra vez, um silêncio um pouco pesado dominou o apartamento, que só foi interrompido pelo timbre do interfone.
Era ele.
***

Eu me sentia desconfortável, por mais tranquilo que o ambiente do restaurante japonês fosse.
Christian não falara quase nada, e por mais que eu tentasse quebrar o gelo, ele permanecia distante. E o fato de dessa vez ele estar fardado só aumentava meu nervosismo.
- Você sabe como aconteceu comigo. – Começo, depois de engolir um sushi. – Mas como aconteceu com você?
Minha nuca formigava de curiosidade.
Ele me encara por sobre a mesa.
- Isso... É pessoal.
O olho, com uma ponta de irritação.
Isso era muito injusto. Ele sabia tudo de mim, e mesmo assim continuava fechado.
Me lembrei de como me sentira pela manhã, acreditando que ele queria me levar para sair, queria ser meu amigo... Ou algo mais.
Só que parecia que, junto com a farda, o policial irônico e vazio havia voltado.
Tentando parecer segura e repassando mentalmente tudo o que sei sobre os homens, segurei a mão dele que estava sobre a mesa.
Ele pareceu nem notar, e continuou a olhar fixamente para o copo de cerveja japonesa, com os pensamentos distantes.
Só quando meu dedo deslizou gentilmente até o pulso dele, acariciando de leve o trevo de quatro folhas tatuado, ele ergueu os olhos pra mim.
- Christian – começo, bem baixinho. – Você pode confiar em mim. Assim como eu tive que confiar em você. Nós dois temos um segredo parecido, e talvez a única forma de compreendê-lo seja...
Ele puxou a mão devagar.
- Vera Lúcia, não se ofenda – começa ele. – Mas nada de compartilhar segredinhos. Nós temos algo em comum, sim, mas mesmo assim prefiro manter minha vida pessoal reservada. Eu sou assim. Sei que você é o tipo de pessoa um pouco... – Ele se interrompeu, suspirado.
- O que? – Indago. – Que tipo de pessoa eu sou?
- Escancarada. – Solta ele. – Sem propriedade. Que não se importa com o fato de se expor.
Prendo o ar, ofendida, sentindo meu rosto esquentar.
- É isso que você pensa de mim? O que mais o brilhante tenente deduziu sobre o meu caráter?
- Você é fútil. – Ataca ele, sem hesitar. – Um homem se suicidou depois de passar a noite com você e sua maior preocupação era que ninguém soubesse, porque você seduziu um padre apenas por um capricho de menina mimada. Estou errado?
Engulo em seco, sentindo meus olhos se encherem de água, por mais que eu tentasse me segurar.
- Foi para isso que me trouxe até aqui? Para me ofender?
Ele balançou a cabeça.
- Eu te trouxe aqui para te ajudar com o problema pelo qual você está passando. E isso não inclui falar sobre mim e o meu passado. E foi você quem perguntou o que eu pensava a seu respeito, e eu apenas disse...
- Tudo bem. – Digo, soltando meu guardanapo da mesa. – Está claro que o senhor é um homem arrogante e grosseiro, embora eu tenha pensado que depois da noite anterior...
- O que? Íamos nos tronar íntimos? Dois amaldiçoados apaixonados? Não seja infantil...
Forço uma risada seca.
- Apaixonados? Faça-me o favor... O que eu poderia querer com um tenentezinho presunçoso? Sem ofensas, mas eu mereço coisa bem melhor.
- Ótimo – ele parecia tranquilo. – Que bom que estamos esclarecidos nesse aspecto, porque eu jamais poderia me interessar por uma boneca de plástico viciada em grifes, por maiores que sejam os seios dela.
- Já chega! – Pego o copo de cerveja e atiro mais da metade na direção dele, embora minha mão estivesse tão trêmula que pouca coisa o acertou. Sempre vejo isso nos filmes. E foi legal. – Não vou deixar que me desrespeite dessa maneira! Só porque sabe uma história ou outra sobre mim acha que sou uma qualquer?!
Christian semicerra os olhos.
- Fale baixo por favor. E sente-se... – Diz ele, em um tom baixo e controlado.
Eu havia levantado e gritado sem perceber, e agora o restaurante todo me encarava.
Ai, meu Deus... Que vergonha.
Sinto minhas bochechas ficarem vermelhas, mas eu não ia me rebaixar.
- Obrigada pelo almoço – cuspo, pegando minha bolsa e dando-lhe as costas.
- Vera Lúcia... – Ele me chama, levantando-se também. – Eu te levo.
- Não se incomode! – Digo, já abrindo a porta.
- Está chovendo – alerta ele, abrindo a carteira e deixando algumas notas na mesa.
- Não se preocupe – continuo irônica. – Minhas roupas de grife não vão encolher. – Finalizo, batendo a porta de vidro do restaurante e saindo embaixo da chuva forte.
Comecei a caminhar pela calçada, e fiquei encharcada em alguns minutos.
Mesmo assim, não estava arrependida.
Eu havia sustentado muito bem o meu orgulho, e parecia até uma heroína de TV.
Era só dobrar três esquinas e eu estaria em casa, onde tomaria um banho quente e desabafaria com Rebeca.
Bem que ela havia me avisado... Só podia haver algo errado com o policial. Porque ele fazia tanta questão de não me contar nada?
Ele achava que eu era uma dessas vagabundinhas levianas viciada em roupas caras. Pensando bem, muita gente achava isso.
Até Rebeca dizia isso às vezes... Só que isso não era verdade. Era só uma brincadeira dela.
Porque eu não sou assim... Ou sou?
Ah, todos sempre me tratam como se eu fosse uma piada!
Como se eu não fosse uma mulher com sentimentos ou uma boa pessoa... E tenho quase certeza de que sou uma ótima pessoa.
Foi quando percebi que havia passos atrás de mim na rua deserta.
Me virei.
Christian estava me seguindo na chuva.
- Isso é ridículo... – Começou ele, mas se interrompeu. – Você está chorando?
O encaro, pensando no quanto meu rímel deveria estar borrado, e franzo o lábio, como uma criança.
- Que te importa?
Ele se aproxima, com uma ruga de preocupação na testa.
- Me importa muito. Eu não faço mulheres chorarem, sou totalmente contra isso. Por mais malucas que elas sejam.
- Por favor, me deixe em paz... – Digo, continuando a andar, decidida.
- Sei que fui grosseiro... É que... Eu sou assim. – Ele caminhava ao meu lado sem dificuldade, por mais que eu apertasse o passo. – E sou uma pessoa reservada, não é fácil pra mim falar sobre a minha vida, já fico na defensiva...
- O. Problema. É. Seu. – Digo, sem me importar com o fato de ser mal educada.
- Cara, você é mesmo infantil... Quatos anos tem? Dezenove? Vinte?
- Tenho vinte e um. – Fala sério! Eu não deveria nem respondê-lo.
- Ok, Vera Lúcia. Eu sou um homem de vinte e oito anos, tenente na polícia e não saio com uma mulher há muito tempo... Acho que perdi minhas habilidades sociais.
- Diga de uma vez o que você quer. – Falo, quando chegamos à portaria do prédio.
- Eu quero apenas ajudar você. Com as transformações. Não quero que se machuque, nem que machuque outras pessoas... Não quero que cometa os mesmos erros que eu.
O olho, avaliando a sinceridade dele.
Parecia real.
- Vou para a delegacia essa noite. Só essa noite. Depois arrumarei meu próprio lugar. – Digo, apertando o botão do elevador.
- E não é só isso – continuou ele. – Você tem que tomar cuidado com algumas pessoas. Pessoas que tentarão te fazer mal.
O encaro, enquanto ambos entramos no elevador, pingando água no carpete.
- Do que está falando? – Pergunto. Erguendo as sobrancelhas.  – As únicas pessoas que sabem sobre mim são você e a Rebeca... E Loki.
Ele me olha.
- Loki?
- Aquele demônio – digo, cruzando os braços com raiva. – Não foi ele quem te amaldiçoou?
- Foi. – Murmura ele. – Você o chamou?
- O que? Não! Ele apareceu e quase me matou de susto depois de eu dormir com o Padre Samuel.
Christian arregala os olhos, me segurando pelos braços de repente.
- Vera Lúcia! Acho que o seu caso não é impossível de solucionar!
- Ai, me solta! – Exclamo, me afastando. – Não encoste em mim. Ainda estou bolada com você.
A porta do elevador abre e saio caminhando apressada pelo corredor.
- Tchau, Christian – digo.
- Espera! – Exclama ele, afoito, logo atrás de mim. – Você não entende? Isso muda tudo! Vera Lúcia...?
Eu já não o escutava.
Estava paralisada.
Nosso apartamento estava com a porta escancarada.
E quando entrei na sala estava tudo revirado.
A bagunça de bagagens que havíamos deixado prontas quando pretendíamos fugir se misturava a objetos quebrados e móveis fora do lugar.
E nenhum sinal de Rebeca.
- Rebeca? – Chamei, olhando a cozinha, os quartos e o banheiro. – Rebeca, cadê você?!
O telefone tocou e eu corri para atendê-lo, trocando um olhar aflito com Christian.
- Alô? – Meu coração martelava. – Rebeca?
- Se quiser ver sua amiga de novo – disse uma voz abafada. – Esteja no antigo prédio da editora antes que anoiteça. Sozinha. E nada de polícia. Ou ela já era.
Abri a boca, em choque.
Christian tirou o telefone da minha mão, mas já haviam desligado.
Caio na poltrona, pálida.
Ele se limitou a pegar o rádio.
- Base? Vou precisar de reforços.

CONTINUA

3 comentários:

  1. Oh my God, serio isso? Não acredito.
    Serio eu acho que a Vera Lúcia deveria ficar com o Christian, eu acho. Bom continua Giovanna? bjs

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  2. God, que apreensivo! Esperando por Christian x Vera *.*

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