sábado, 2 de fevereiro de 2013

CEREJA EXPLOSIVA - 09

9.  Quase Louca

- Não faz isso! Paraaaa! – Salto pra cima de Christian e arranco o rádio das mãos dele.
- O que..?! Qual é o seu problema?
- Tenente? Está na escuta? QSM... – Chiou o rádio.
Olhei ao redor, sem saber o que fazer. Então atirei o rádio pela janela.
- Pronto! – Suspirei, aliviada.
- Mas que diabos você fez?! – Christian quase arrancava os cabelos.
- Os sequestradores disseram nada de polícia. – Digo, batendo o pé. – Oh, meu Deus... Minha melhor amiga foi sequestrada...! Acho que vou desmaiar!
Cambaleio para trás.
Christian me segura, não com gentileza, mas me sacudindo.
- Se controla, mulher! O que disseram pra você?
- Para ir sozinha antes que anoiteça até o antigo prédio da editora se eu quiser ver Rebeca de novo!
- Onde?!
- O antigo prédio da Editora Classic... Imagino que seja onde Rebeca começou a trabalhar, antes que a editora se mudasse para um prédio maior. Eu tentei um estágio lá uma vez, só que não colou...
- Era voz de homem ou mulher?
- Não dava para saber! Estava abafada...
Ele bufou, me soltando e me deixando me jogar no sofá.
- Porque não me passou o telefone? Porque jogou meu rádio pela janela? Eu sou o policial aqui. Eu sei agir em uma situação dessas.
- Hei! – Me levanto. – Mas a amiga é minha!
- Ok... – Ele passa a mão pelo rosto, tenso. – Talvez você possa ajudar. Suspeita de alguém? Algum inimigo?
- Rebeca não tem inimigos. Todo mundo adora ela. Ela nem tem haters nas redes sociais. – Digo, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Não duvido. Mas estou falando de você. Existe alguém que te odeie e queira te prejudicar?
Desvio o olhar.
- Talvez... Algumas pessoas.
- Lista.
- Hmm... Alguns dos meus ex-namorados... As ex-namoradas dos meus ex-namorados.... Aquele homem da boate nova. O meu gerente do banco. Minha prima invejosa...
- Chega! – Ele parecia irritado outra vez. – Estou falando de alguém que realmente seria capaz de tudo para te derrubar. Que tenha alguma acusação grave a fazer...
Penso um pouco.
Pensando bem, o dono da boate em quem eu havia vomitado não sabia meu nome ou onde eu moro. E meu pai já havia dado um jeito naquela minha dívida no banco. E apesar das ex-namoradas dos meus ex-namorados e a minha prima serem invejosas, nenhuma delas tinha estômago forte o suficiente para planejar um sequestro.
Que pessoa poderia ser tão calculista, fria e maligna a esse ponto?
Arregalo os olhos.
- Irene Van Daime!

***

- Acha mesmo que foi ela? – Christian me perguntava, quando já estávamos dentro da viatura.
- Só pode. Não conheço ninguém tão vil quanto a Irene. E se ela, de alguma forma, descobriu que eu provoquei o incêndio na casa dela...
- É, ela parecia bastante aborrecida pelo incêndio. – Diz ele, pensativo. – Foi assustador ver uma mulher tão bonita irritada daquele jeito.
- Acha ela bonita?! – Minha voz saiu esganiçada.
- É a maior gata. Convidaria ela pra sair, mas eu soube que é casada.
- Pois saiba que ela tem inveja de mim porque já ganhei dela várias vezes nos concursos de popularidade na escola.
Fungo, cruzando os braços, quando paramos em frente a delegacia.
- O que viemos fazer aqui?
- Vou deixar a viatura e pegar o meu carro, ou então vamos dar muito na telha. Vem. Precisamos falar com o Delegado.
Concordei. Quanto mais rápido pudéssemos ir até lá, melhor. O que aconteceria exatamente se Christian e eu nos transformássemos na frente de Irene ou quem mais estivesse por lá?
Céus...
Poderíamos fazer muito estrago.
Tínhamos que resolver tudo antes do anoitecer.
O Delegado era um homem grande e robusto, nos seus cinquenta e poucos anos, com um bigode de foca grisalho. E ele me dava medo. Me escondi atrás de Christian quando ele me encarou.
- Com licença, senhor – Christian entrou na sala dele, me puxando logo atrás. – Permissão para deixar meu turno.
- Agora? – O Delegado checou o relógio do pulso. – É assunto de extrema urgência, tenente?
- De suma importância. – Christian deu um passo para o lado, me expondo. – Talvez eu precise de cobertura. Essa é a Srta. Vera Lúcia Sales, de quem falei.
O Delegado deu um sorriso simpático.
- Oi... – Eu disse, tímida.
- A moça do caso do padre! Sim, eu me lembro.
Fuzilo Christian com os olhos.
Os dois me encaravam com zombaria, como se eu fosse uma criança que resolveu aprontar e meteu os pés pelas mãos.
- Muito bem – disse o Delegado, por fim. – Está liberado, tenente.
Só consegui respirar de novo quando nos afastamos da vista dele.
Dei uma cotovelada no estômago de Christian.
- Ai! O que foi agora?
- Me trouxe até aqui pra zoar com a minha cara, é?
- Claro que não, sua dissimulada – disse ele, baixando a voz. – Temos que descer até as celas do andar de baixo. Deixei algumas armas guardadas lá, e talvez precisemos.
- Então vamos logo!
Descemos até as mesmas celas onde havíamos nos transformado na véspera. Christian destrancou uma delas e entramos.
Olhei debaixo do catre.
- Não tem nenhuma arma aqui! Onde você as escondeu? Christian?
Mas minha única resposta foi um ranger de metal atrás de mim.
- O que você está fazendo?!
Grito, enquanto Christian me trancava na cela.
- Desculpe, desculpe mesmo... – Diz ele, com a testa franzida. – Farei de tudo por Rebeca, mas não posso te deixar livre, Vera Lúcia. Você ainda não sabe controlar seus poderes, colocaria muita gente em risco...
- Está brincando, né? – Segurei com força as barras diante de mim, desesperada.
- O Delegado sabe do meu segredo e vai te trazer comida e roupas extras. Ele é de confiança. Bom... Até mais.
- Christian! Volta aqui! – Grito, inutilmente, enquanto ele se afasta e vira o corredor. – Não pode fazer isso!
Mas ele nem me escutava mais.
Ah, droga.
Isso foi golpe baixo. Muito baixo.
E agora? Eu ia ficar de braços cruzados enquanto minha melhor amiga corria perigo? E Irene queria a mim, era eu quem ela odiava... Rebeca não tinha nada com aquilo.
Suspirei. Quem poderia me ajudar agora?
- Loki! – Digo, em voz alta, sem saber se era possível que ele me escutasse. – Loki, pode me ajudar? Eu sei que você se amarra na Rebeca, então me dê uma mãozinha e me ajude a salvá-la.
Silêncio.
E me senti patética.
Loki não estava nem aí para os meus problemas. Eu que me virasse sozinha.
Suspirei.
- Senhorita?
Ouvi uma voz e ergui a cabeça.
Era o Delegado.
- Ah, graças a Deus... – Tentei, desesperada. – O tenente está fazendo uma brincadeira boba comigo. Me deixou trancada aqui, acredita? – Forço um sorriso. – O senhor poderia me soltar para que eu possa surpreender o Christian com um tapa na cara?
Ele me olha de jeito sagaz e me dá um sorriso por baixo do bigode de foca.
- Não adianta blefar, Cereja Explosiva. – Diz ele. – Sou um velho amigo do Christian e sei tudo sobre ele... E sobre você. E é melhor que esteja segura nessa cela.
Murcho, desanimada.
- Oh, bem... Do que você me chamou?
- Aceita um café? – Pergunta ele, erguendo a garrafa térmica e um copinho descartável, me passando por entre a grade. – Cereja Explosiva. Ainda está havendo muita especulação sobre o caso do incêndio na chácara. Alguns estão falando sobre atividades paranormais, outros acreditam se tratar de algum tipo de explosivo desconhecido que deixou as marcas na parede. Cereja Explosiva foi só uma das manchetes dos jornais sensacionalistas.
Penso um pouco.
- Hmm... Até que é um nome legal.
- Christian não me deu detalhes. Qual é a emergência?
Mordo o lábio inferior.
Não sei se deveria contar. Afinal, ele era o Delegado. E se resolvesse agir? Isso colocaria tudo em risco.
- Não precisa falar se não quiser – diz ele, percebendo minha hesitação.
- O que posso dizer – começo. – É que uma amiga minha pode estar correndo perigo. E por mais que Christian tenha medo de confiar em mim, eu sei que sou a única que pode ajudar de verdade.
- Christian não tem medo de confiar na senhorita – diz ele. – Acho que na verdade ele só quer protege-la.
- Ele não gosta de mim. – Digo, antes que pudesse evitar. – Acha Irene Van Daime mais bonita do que eu. E não quis me contar nada sobre o passado dele.
Percebo tarde demais o quanto minha voz soou ressentida.
O Delegado me olhou com compreensão.
- Não diga isso, minha querida. O Christian é assim mesmo. Não gosta de falar do passado. Mas posso garantir que ele gosta de você, e te acha bonita... Posso te contar um segredo?
Dou de ombros.
- Pode.
- No dia do suicídio do padre, ele chegou para me contar a história e disse: “Eu até entendo o coitado. Você precisava ver que mulher... Não deve ser fácil ser abandonado por uma gata daquelas”.
Rio.
- Está inventando isso! – Acuso.
- Juro que não. – Sorri o Delegado, cheio de pés de galinha ao redor dos olhos. – Agora, se você não se importa, tenho que voltar lá pra cima. Cuide-se, senhorita. Eu a soltaria, mas não posso. Fiz uma promessa ao Christian.
Assenti, cabisbaixa, enquanto ele dava uma piscadela e se afastava.
Bufei, terminando de tomar o café.
Eu tinha um problema enorme para resolver, e ninguém para ajudar... Ia ter que pensar em algo.
E meu cabelo estava molhado. As lentes dos óculos embaçadas. O sapato enlameado e...
Foi quando senti uma coisa fria e metálica encostar em meus lábios.
Olhei para o fundo do copinho descartável com um restinho de café.
Havia uma chave.
Fiquei perplexa por alguns segundos. Depois sorri.
Eu devia uma ao Delegado.

***

Dirigi o carro de Rebeca até as proximidades do prédio.
Não era um prédio muito velho: era marrom e bege, devia ter uns quatro andares e ficava em um bairro até que bastante movimentado.
Retoquei o gloss no retrovisor e saí do carro, preparada para a luta.
Eu usava um vestido Chanel e sapatos Prada: impossível mais clássico e elegante.
Calculei que faltava uma hora para anoitecer...
- Que diabos você está fazendo aqui?! – Um braço me puxou para trás de uma árvore.
Gritei, mas era só o Christian.
- Eu escapei, seu grosso. – Respondo, soltando meu pulso da mão dele.
- O Delegado te soltou, não foi?
- Não. Ele cumpriu a promessa. – Digo, um pouco decepcionada por ele não parecer nem um pouco feliz em me ver, mesmo eu estando tão bonita.
- Você trocou de roupa? – Pergunta ele, parecendo perplexo.
- Só você tem direito a uma troca de figurino? – Pergunto, desafiadora.
- Não seja retardada. Se eu viesse até aqui de farda iria dar muito na telha.
Eu ia argumentar, mas ele me puxou outra vez, me pressionando contra a árvore, com o corpo colado no meu.
- O que está fazendo?! – Exclamo, encarando-o, assustada.
- Psiu. Tem um cara que toda hora olha pela janela do terceiro andar para checar a área. É melhor que ele não nos veja.
Assenti, calada, sentindo o cheiro de hortelã que ele emanava.
- Alguma chance de você voltar e ficar longe daqui?
- Nenhuma. Eu preciso salvar Rebeca. E sei que vou conseguir me controlar dessa vez.
- Como pode ter certeza? – Sussurrou ele.
Ah, Deus... Ele estava tão perto...
- Eu simplesmente sei. É que... Quando estou com você é diferente.
Ele abre um sorriso, e eu desvio os olhos, sentindo meu rosto ficar vermelho. O que há comigo? Estava agindo como uma adolescente boba.
- Digo... A transformação.
Ele assente, voltando a ficar sério.
- Eu tenho um plano. Está disposta a se arriscar?
- Só se for agora. – Respondo, mais segura do que nunca.

***

Bato na porta do prédio, com a respiração um pouco acelerada.
A porta se abriu em uma fresta.
- Está sozinha? – Perguntou uma voz masculina.
- Estou. – Respondo.
Um cara desconhecido olhou em volta antes de me puxar pra dentro e trancar a porta novamente.
Um calafrio percorreu meu corpo ao perceber que ele estava armado.
A coisa era mesmo séria.
- Ok – começo. – Não sei quem você é e nem porque está fazendo isso, mas é só falar a quantia que você quer e eu...
- Psiu – diz ele, levando a pistola e aproximando-a da boca, em sinal de silêncio. – Não é comigo que você tem que negociar.
Ele me fez atravessar cômodos escuros e subimos um elevador até o terceiro andar.
Lá saímos em um saguão um pouco empoeirado, também mal iluminado, e de lá entramos em uma segunda grande sala.
- Lúcia! – A voz de Rebeca foi a primeira coisa que eu escutei.
Ela estava sentada em uma mesa de reuniões, com outro cara armado na cola dela.
- Você está bem? – Pergunto, aflita.
- Ela está ótima – responde uma voz atrás de mim. – Por enquanto...
Me viro, revirando os olhos.
- Irene. Não estou surpresa.
- Vera Lúcia, a incendiária.
Ergo uma sobrancelha para o modelito de alguma grife francesa dela.
- Sempre looks europeus desconhecidos no ocidente. Você não enjoa? – Indago.
- Não preciso seguir modinhas. – Sorri ela. – Mas você é realmente fiel aos clássicos, não é? Parabéns.
Suspiro.
- Vamos parar com essa palhaçada toda. – Começo. – Você tem ideia do que está fazendo? Sequestro é crime, não é mais uma disputa boba de escola como quando você grudou chiclete no meu cabelo.
- E destruir o meu patrimônio é brincadeira para você?! – Exclamou ela, com voz de drama.
- Primeiro – começo. –Você não tem como provar isso. E, segundo, Rebeca não tem nada a ver com isso... Deixe-a ir embora.
Irene ri.
- Para variar, você não faz ideia do que está acontecendo. Esqueça o incêndio. Esqueça o quanto eu detesto você. –Ela fez uma pausa e fuzilou Rebeca com os olhos. – Essa vadia da sua amiga me irritou além dos meus limites. Ela fez justamente a única coisa que poderia me frustrar para o resto da vida, acabar com a minha imagem, meus planos...
- Menos drama, please – pede Rebeca, revirando os olhos.
- Ela roubou meu marido! MEU MARIDO! – Irene agora parecia totalmente fora de controle. – Ele me pediu divórcio por causa dessa vagabundinha...
- Rebeca? – Pergunto, incrédula.
Ela suspira.
- Omar, Lúcia... Eu te disse que ele era casado.
Arregalo os olhos.
- Com Irene Van Daime?! Porque nunca me contou um babado desses?!
- Porque você ia surtar, dã!
Irene chorava como se não houvesse amanhã. E talvez não haveria... Dava pra sentir o sol indo embora.
- Vocês duas destruíram minha vida – ela tinha os lábios trêmulos. – Onde vai parar minha reputação agora?
Eu a olhei, descrente.
- Sério? Você, a fortona, a rica, a poderosa, está se lamentando? Não pretende se reerguer, darling?
- Pretendo. – O rosto dela estava lívido. – Assim que eu acabar com vocês duas! Assim que não restar mais nada de vocês... Só assim posso me garantir.
- Pirada. – Cospe Rebeca.
- Mexeram com a mulher errada – disse ela, abrindo um sorriso espantosamente parecido com o do Coringa. – Papai me ensinou o jeito da máfia de concertar as coisas.
Abri a boca para argumentar, mas minha resposta nunca saiu.
Irene tirou uma arma de dentro do casaco e atirou contra mim. Várias vezes.
O mais bizarro foi que eu senti as balas entrarem no meu peito e cabeça, queimando e rasgando, antes de cair para trás.

CONTINUA

2 comentários:

  1. O.O esperando ansiosamente e loucamente pela continuação

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