quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

CEREJA EXPLOSIVA - 10

10.  Pronta pra arrasar

Por alguns segundos, foi como se eu tivesse mergulhado no nada. Não via nem escutava nada.
Depois, pouco a pouco as coisas começaram a ficar mais nítidas, e o que eu vi me deixou horrorizada.
Eu via a mim mesma. Eu, Vera Lúcia Sales, usando meu vestido Chanel clássico e todos os meus acessórios de grife, caída no chão poeirento, com buracos de bala na barriga e um enorme na testa.
Rebeca chorando e gritando histérica, agachada atrás de uma cadeira, enquanto Irene, com a maquiagem dos olhos borrada por lágrimas, tentava mirar a arma nela.
Ai, meu Deus... Estou morta.
Sou um fantasma e vou ver Rebeca morrer também!
Ai, que horror...
Christian, onde está você?!
Já deveria ter chego a uma hora dessas...
Espera... O que é isso?
Uma luz começava a me cegar, me impedindo de ver Rebeca, Irene ou os dois caras armados.
Ah, não... Não quero ir para a luz. Não agora. Preciso saber o que vai acontecer. Preciso tirar Rebeca dali!
Mas a luz continuou a aumentar, até ficar tudo branco em volta de mim.
Oh, meu Deus... Não me leve agora. Por favor por favor por favooooor....
- Cerejinha?
Uma voz atrás de mim me fez dar um pulo.
- Loki! – Eu quase o abracei, mesmo ele não sendo uma das minhas pessoas favoritas no mundo. – O que está fazendo aqui? Onde estamos? Estou morta? Podemos ajudar Rebeca? Como está o meu cabelo?
Ele deu um meio sorriso.
- São perguntas demais. E tempo de menos. A verdade é que eu tenho uma proposta muito interessante para você.
Meu coração disparava, e eu sentia os batimentos cardíacos nos ouvidos.
- Loki, não tenho tempo para isso! Você lembra da Rebeca? Preciso ajudar Rebeca e...
- Se fechar esse acordo comigo, poderá salvá-la. Talvez. – Ele franziu o cenho.
Bati o pé, impaciente.
- Então diga de uma vez!
- Eu te amaldiçoei por ter cometido um sacrilégio, mas você poderia se livrar dessa maldição para sempre se encontrasse um padre, pastor, pai de santo ou qualquer outro cara que conhecesse esse tipo de força.
O olho, incrédula.
- Sério? Posso mesmo?
- Não, não pode. Eu disse que poderia. Se você não tivesse morrido.
Ele deu uma risadinha que teria deixado os meus nervos em farrapos se eu não estivesse tão aflita.
- Então estou morta mesmo? – Meus olhos se encheram de água. – Mortinha da silva, pra sempre?
- Não precisa chorar, doçura – continua ele. – Como sempre, eu posso te dar a solução. Eu posso te levar de volta.
O olhei, desesperada.
- Pode me levar de volta? Mas... Amaldiçoada?
- Irremediavelmente amaldiçoada. – Os olhos de chamas dele riam. – Sem saída. Sem forma de se livrar da maldição. Mas... Com algumas vantagens.
- Continue – digo, sentindo meu estômago se revirar, ficando ácido.
Aquela conversa não soava nada legal.
- Você continuará a se transformar durante a Lua Cheia. Só que agora terá que pagar um tributo na última noite de cada transformação.
- Tributo? – Meu cérebro zunia, justamente em uma hora que eu deveria pensar com clareza.
- Você vai roubar uma alma humana por transformação. E como você vai gostar disso, Vera Lúcia... Todo o prazer...
Minha boca ficou amarga.
- Christian já me falou sobre isso. – O encaro. – Loki, como poderei fazer isso com as pessoas?
- Christian – cuspiu Loki. – Ele tinha que se meter! É por causa dele que estou preocupado. Ele já ia te contando como poderia se livrar da maldição, sorte minha que você morreu... Está nas minhas mãos de novo. A escolha é sua. Decida rápido.
Respiro fundo.
- Você é muito mau e manipulador – começo, engolindo em seco. – Mas tudo bem. Nem que eu esteja condenando minha alma e outras mil. Me mande de volta. Rebeca precisa de mim.
Loki abriu um sorriso do diabo, de dar calafrios.
- Boa escolha, Cerejinha.
As luzes se apagaram.

***
E eu estava de volta.
Me levantei, firme e forte.
Olhei com um pouco de receio para a minha barriga, mas tudo o que vi foram as balas saindo para fora das feridas e os buracos na minha pele se fecharem e cicatrizarem em questão de segundos.
Passei a mão pela testa. Tudo bem por ali também.
Uau... Eu era tipo a Mulher Maravilha agora?
- Lúcia? – Rebeca tinha os olhos arregalados. – Santo Deus, como é que você fez isso?!
Olhei em volta. Christian já havia chego. Os dois sequestradores desconhecidos já haviam se rendido, mas Irene mantinha a arma apontada para ele, e vice versa, os dois se encarando.
Irene se assustou quando me viu, mas não largou a arma.
- Não chegue perto, ou atiro em você de novo!
Ignorei, e continuei avançando.
Christian voltou os olhos pra mim, surpreso, e nada mais.
Havia um brilho diferente neles.
Então reparei na luz do sol desaparecendo na janela atrás dele.
- Está pronta? – Ele me perguntou.
Não precisei responder.
O fogo começou a arder.

***

Quando meus cabelos se tornaram um mar de chamas, Irene abriu a boca, olhou de Christian para mim, deixou a arma cair, soltou um berro e saiu correndo pelo prédio.
Vá pegá-la. Christian parecia estranhamente calmo. Você merece, garota.
Ele olhava para os dois homens encostados na parede, que pareciam horrorizados.
Bom apetite - digo, antes de disparar em uma explosão controlada, passando zunindo por Rebeca.
Eu sentia o medo de Irene ao disparar escada a baixo. O cheiro do pavor dela me deixava ouriçada, quase com fome. Mas era uma fome diferente. Com uma voracidade apavorante...
Surgi na frente dela e a barrei antes que ela pudesse alcançar a porta da rua.
- Não! Saia de perto de mim! – Berrou ela, tentando cobrir o rosto.
Mas segurei seus braços contra a parede de tijolos.
Sua rata imunda... Comecei, projetando as palavras na mente dela em tom ameaçador. Queimei a sua casa porque estava tentando alcançar você. Agora me lembro. Você é tão suja, tão falsa... E covarde. Senti seu cheiro. Sei muito bem o que você merece.
Ela arregalou os olhos.
Vi o reflexo da luz do fogo neles, e naquele momento me senti mais linda e poderosa do que em qualquer outra ocasião.
Nenhuma roupa de grife ou sapato importado chegava aos pés daquilo.
Saboreando o momento até não aguentar mais, aproximei ainda mais o meu rosto do dela, e, sentindo as chamas ficarem mais quentes, comecei a sugar a alma dela.
Todo o medo e a dor dela se transformavam em prazer em mim.
Prazer, prazer puro. Luxuriante.
Diferente de qualquer prazer físico que eu já tivesse experimentando. Porque era na alma.
E era uma maldade extrema.
Quando acabei, Irene se encolheu em um canto, trêmula, e minhas chamas desenharam a marca de cerejas na parede.
Me virei, e topei com Christian.
Ele estava literalmente radiante.
E me olhava de uma forma quase desconcertante.
Vamos embora daqui.
Concordei.
Lá fora, Cherry, minha égua negra, me esperava ao lado de um cavalo castanho.
Oi, Trevo...
Christian e eu montamos, e começamos a galopar em alta velocidade nos animais também flamejantes.
Parecia uma espécie de sonho surreal.
Chegamos até uma rua deserta e silenciosa, na beira de um rio. A cidade havia se recolhido, e não íamos incomodar ninguém por enquanto, já que estávamos saciados.
Christian desmontou o cavalo, em seguida pegou minha mão e me ajudou a descer (foi desnecessário, mas foi fofo).
O que você fez? Perguntou, me olhando com um pouco de tristeza. Fez um pacto para poder voltar, não foi?
Precisava ajudar Rebeca. Como eu poderia saber que você ia conseguir?
Está condenada?
Estou.
E está satisfeita com isso?
Não muito... Mas por enquanto dá.
Você me enganou. Não é tão fútil quanto eu pensei que fosse... Só é mimada.
Oh! Obrigada, tenente!
E pode ser egoísmo meu, mas fico feliz por você ter voltado.
Sorrio, sem saber o que dizer. Ele me encara com franqueza.
Merece saber.
Ahn? O que?
Ele pegou minha mão e eu prendi a respiração. Nossas chamas se misturaram em uma explosão.
Foi inacreditável.
E eu fiquei sabendo das coisas que mais queria saber sobre ele, não com palavras... Mas de uma forma íntima e complexamente secreta.

***

- Eu nem sei como explicar, Rebeca – eu dizia, encolhida na poltrona, segurando minha xícara de chá, na manhã seguinte, de volta ao apartamento.
Eu estava apenas de roupão e pantufas, cabelos molhados e muita exaustão sobre os ombros.
Rebeca estava bem apesar dos traumas da véspera, e os noticiários ainda falavam sobre um telefonema anônimo e o sequestro de uma jovem mulher por uma socialite e dois capangas – os três últimos encontrados em estado de choque em um prédio abandonado.
A vítima, Rebeca Petri, declarou a polícia que também não sabia o que havia acontecido, nem como as marcas de cerejas e um trevo de quatro folhas haviam aparecido nas paredes do prédio...
- Pare de me enrolar e diga de uma vez o segredo do bonitão ou cuspo em você – Rebeca, simpática como sempre, virava uma dose de caipirinha. – Uh! Noite do cão!
- Christian não fez algo “fútil” como dormir com um padre. – Continuo, falando mais comigo mesma do que com ela. – Ele fez um pacto com Loki quando era adolescente. Aceitou a maldição em troca de... Sorte.
- Sorte? – Rebeca limpava a boca com a manga da blusa.
- É... Sorte. Tipo... Ganhar na loteria.
- E ele ganhou na loteria?
- Ganhou. E tudo estava a mil maravilhas...
Rebeca pigarreou.
- Ora, não entendo, Lúcia – começou ela. – O cara se vendeu por sorte, ganhou dinheiro pra cacete e você está com pena dele? Será que alguém aí quer me amaldiçoar?!
Balanço a cabeça, com lágrimas nos olhos.
- Você não entende... Tudo o que o Christian queria era pagar o tratamento da irmã caçula dele, Marina...
Rebeca arregala os olhos, arrependida.
- Ela tinha síndrome de down. E os dois ficaram órfãos quando ele tinha treze anos, e ela seis. Eles moravam em um orfanato, e ela começou a ficar cada vez mais doente... Então, quando o Christian completou dezessete anos, ele fez o pacto... Só que um ano depois a Marina... Se foi.
Comecei a chorar, encolhida.
Senti o braço de Rebeca me confortando, em silêncio.
- E o Christian se sente tão culpado... E foi tão triste. Rebeca, eu vi, eu senti tudo... Não é a toa que ele me considerava uma vadiazinha sem coração. A verdade é que eu nunca me importei com ninguém além de mim mesma!
- Não fale isso, Vera Lúcia! – Diz Rebeca, me puxando pelo queixo para me encarar. – Você é maravilhosa, garota... E levou uma porrada de tiros por mim ontem mesmo! Como assim, nunca se importou?
Fungo, secando as lágrimas.
- Mas andei pensando em algumas coisas, sabe – digo. – Está na hora de fazer um pouco mais pelo mundo.
- O que quer dizer?
- Tem mais uma coisa que eu descobri sobre o Christian. – Recomeço. – Uma coisa um pouco mais animadora dessa vez. Depois de perder a irmã e de começar a aprender a controlar os poderes, ele tomou uma decisão super ousada...
- Promover orgias?
- Não, Rebeca!
- É brincadeira... Continua.
- Enfim – prossigo. – Ele decidiu se tornar um super-herói!
- Co-Como??? – Rebeca tossiu de leve.
- Um herói! – Repito, gritando no ouvido dela.
- Ai! Menos...
- Christian resolveu aprender a controlar os poderes e sugar a alma de pessoas ruins nas noites de Lua Cheia. – Começo, me empoleirando na poltrona e juntando as mãos, animada. – Assassinos, estupradores, traficantes... Acabar com todos eles, porque era o que a maldição dele exigia: uma alma em cada transformação.
- E? – Rebeca me pressiona.
- E eu achei essa ideia muito massa! – Exclamo, erguendo os braços para o alto, radiante. – Agora que eu também tenho esse peso na minha maldição, podemos unir forças e nos tornar super-heróis juntos, limpar a cidade, combatendo o crime...
- Você está viajando. – Me interrompe Rebeca. – Não pode sair por aí bancando a justiceira. Não tem o direito de decidir quais almas merecem levar a pior!
- Mas eu sinto, Rebeca! Eu sinto a maldade nelas... E tomá-las me dá prazer... Além disso, elas podem se regenerar se tentarem de verdade. Irene pode se recuperar na clínica em que está internada, se aprender a lição.
- E qual a lição?
- Não é óbvio? “Não seja uma vadia mafiosa e brega!” – Digo. – Sério. Acho que Christian e eu podemos tira algo de bom dessa maldição. Eu só preciso convencê-lo de que isso é possível.
- Também tenho uma novidade – confessa Rebeca. – Ontem a noite os policiais me levaram para a Delegacia para que eu desse meu depoimento...
- E...?
- Omar apareceu lá. – Ela mordeu o lábio inferior. – Ele me explicou direitinho o que aconteceu. Depois de me demitir, ele se arrependeu e entrou com um pedido de divórcio. Irene, que já não batia muito bem, parou de tomar os remédios e surtou geral, por isso o sequestro.
- O que mais? – Eu tinha a testa franzida.
- Ele me ofereceu meu emprego de volta, com direito a um aumento e promoção de cargo. Também pediu uma nova chance para nós.
A encaro, muito séria.
- Rebeca...
- Me deixe terminar! – Pede ela, tampando minha boca com a mão. – Eu disse que aceitava o emprego por amor à Editora Classic, e porque, convenhamos, o negócio iria falir sem mim!
- E quanto à nova chance? – Insisto, falando abafado por causa da mão dela.
- Mandei ele enfiar no rabo! – Gritou ela, erguendo os braços.
Nós duas gargalhamos, e eu a abracei.
- Estou tão orgulhosa de você!
- Eu sei – ela sorri. – Agora sou uma editora chefe bem resolvida... E terei grana para comprar aquela vodka importada que eu vi na internet!
Rimos outra vez.
Estava tudo perfeito!
Rebeca estava feliz.
Eu estava feliz.
Não íamos mais morrer de fome.
Christian e eu ficamos de tomar um café mais tarde, e ele me falou que estavam precisando de pessoas para trabalhar na Delegacia, e que podia me indicar para uma das vagas.
Fiquei feliz, porque o Delegado parecia ter gostado de mim, e sem eu ter que flertar com ele nem nada. Eu ia trabalhar com o Christian, e eu tinha certeza de que me vendo todos os dias ele acabaria caindo no meu jogo...
Imagine só, senhorita Vera Lúcia Sales, assistente do Delegado, usando seus óculos descolados que a deixavam com cara de esperta e...
Espera!
Prendo o ar.
- Rebeca! – Exclamo, arregalando os olhos ao máximo e segurando o braço dela, enquanto engulo em seco. – Quase me esqueci de um detalhe crucial... Precisamos pensar no que vou vestir na entrevista!

FIM DA 1ª TEMPORADA

5 comentários:

  1. Giovanna nem preciso dizer o quão magnífica vc é, né?
    Haverá outra temporada?

    Amei <3

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  2. Fim da Primeira Temporada? Vamos tem um 2°? Eba!!! Bjs!

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  3. Que máximo, ainda vai ter uma 2??
    Essa com certeza virou uma das minhas séries favoritas, se ñ A favorita.
    E q final, divertido a ideia da super heroína. :)

    planetavx.blogspot.com

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  4. Obrigada a todos por acompanharem mais essa história e por comentarem aqui... ;)
    E sim, teremos uma segunda temporada!
    Beijos :D

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