segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

FÉLIX, O EXORCISTA - 1


1. O Inferno, apenas o Inferno

Pense em um lugar praticamente feito de pedras, quase todo escuro, quente e abafado o tempo todo, e sons de gritos de gelar a alma, gemidos e xingamentos para todos os lados.
Imagine um chão quente sob os seus pés, vultos se aproximando e se afastando toda hora, faíscas vermelhas entre as grandes pedras e um barulho incessante de ferro se chocando contra ferro.
O cheiro de enxofre te acompanha sempre, chegando a dar dor de cabeça e se prender no teu nariz.
E, se você olhar para o horizonte, em qualquer direção, vê uma luz vermelha incandescente, como um vulcão em erupção, e sabe que lá é onde há mais gritos de agonia.
Esse é o Inferno.
Esse era o lugar onde eu estava.
E por mais que eu tente explicar, acho que minhas palavras não servem para descrever como é.
O Inferno.
Inferno, Inferno...
Toda vez que repito essa palavra, mais sem sentido ela parece. É muito diferente e exatamente igual ao que você imagina que é.
Fico pensando sobre todas as pessoas que falam sobre o Inferno, que leem sobre ele na Bíblia ou em qualquer outro lugar. Será que elas sabem realmente do que se trata?
Têm ideia do que é estar encolhido em um canto sujo, ferido, sangrando, e de repente começar a sentir pedaços de carne putrefata chover sobre você?
E então você tem ânsias de vômito por causa do fedor, e percebe tarde demais que é tudo uma ilusão diabólica causada por um par de olhos malignos que te observam no escuro.
A rotina é mais ou menos essa.
E os primeiros dias foram os piores.
Eu me sentia um novato esquisito nos primeiros dias de aula de uma escola sem lei.
Para começar, minha aparência não ajudava: por mais que eu ocultasse minhas novas asas de corvo, todos percebiam pela minha áurea que havia algo de errado em mim.
Todo tipo de demônio e entidade paranormal amaldiçoada sentia alguma coisa de angelical na minha presença, por mais que eu tentasse esconder.
E isso os ameaçava, então, consequentemente, os deixavam furiosos.
Eu tinha sorte quando eles se contentavam em atirar pedras em mim ou queimar meus dedos com brasas.
Porque isso era suave perto de quando algum demônio mais experiente topava comigo, e resolvia se divertir por algumas horas me torturando.
Entravam na minha cabeça e me faziam ter visões das mais horrorosas. Me faziam pensar que eu estava louco. Sussurravam para que eu me matasse.
E quando eu não aguentava mais e dormia por alguns momentos, exausto, eles se aproveitavam para vasculhar a minha mente e descobrir coisas sobre mim, para que a tortura fosse ainda mais cruel.
Me faziam pensar que estava em casa de novo, com a minha mãe, ou atrás da quadra da escola, fumando um beque com Derek.
E então tudo dava lugar ao Inferno, sempre o Inferno de novo.
E nessas horas eu pensava no quanto fui filho da puta por todo esse tempo, desejando pertencer a essa raça de miseráveis que viviam para atormentar as pessoas.
O que eles sabem sobre mim, sobre a minha vida, para acharem que têm o direito de me importunar?
A verdade é que todo demônio leva uma vida de merda.
É isso mesmo.
Por mais divertida que a vida deles possa parecer, são um bando de frustrados vagabundos que não fazem porra nenhuma além de encher o saco.
Onde está o brilho maligno e glamoroso agora, nesse antro fedendo a enxofre?
E eu desejando isso enquanto estava de boa lá em cima, agitando noite e dia com o meu melhor amigo, tendo seções de sexo mais do que incríveis com a minha namorada e sendo bancado pelos meus pais.
Que porra, Félix.
Que porra.
Me achava melhor do que todo mundo porque um dia conheceria o Inferno. Parabéns pra mim! Sou um otário!
Eu estava sentado entre duas pedras, meio escondido, brincando com uma pedrinha pequena e quente, jogando-a de uma mão para a outra.
Droga de lugar quente.
Forno podre.
Esses suor pegajoso escorrendo pelo rosto, se misturando com o sangue seco das feridas das minhas costas e braços...
Não sabia quanto tempo estava lá, mas já deveria ter se passado pelo menos seis meses. Ou mais.
Quanto dura a eternidade?
Chutei a pedra pra longe, entediado e raivoso, faminto por destruir tudo.
Vi a pedrinha rolar alguns metros e parar diante de dois pés.
Meus olhos acompanharam o desenho da silhueta magra que eu conhecia tão bem até chegar a um rosto delicado e assustado, emoldurado por cabelos incrivelmente roxos.
- Félix! – A voz dela foi uma espécie de guincho, mesmo assim me lembrou dos dias em que eu a abraçava por trás diante do espelho do banheiro e enrolava o seu cabelo nas mãos, para depois mordiscar a orelha dela para provoca-la.
Foi um golpe duro.
Minhas mãos começaram a tremer.
Eles haviam conseguido arrancar de mim a coisa que eu mais havia tentado esconder por todo esse tempo: as lembranças que eu tinha dela.
Minha namorada. Minha mulher. Provavelmente a única pessoa que eu havia realmente chegado a amar, e por quem eu seria capaz de lutar.
Nunca achei que chegaria a dizer algo assim: mas ela me completava, de certa forma. Era como eu e diferente de mim ao mesmo tempo.
Era excitante. Era algo profundo. Ela era minha.
E agora aqueles malditos haviam descoberto minha fraqueza, e estavam criando aquela ilusão debochada: como se a minha mina realmente estivesse naquele lugar miserável, me vendo naquele estado humilhante.
- O que eles fizeram com você?! – Ela deu um passo na minha direção, e eu recuei instintivamente.
- Não vou cair nesse jogo, não vou! – Exclamei, rangendo os dentes. – Não vou permitir que continuem jogando comigo dessa maneira, seus filhos da puta!
A coisa deu mais um passo, franzindo a testa.
- Félix, está tudo bem... Sou eu. Lila...
Fecho os olhos e tampo os ouvidos.
Não é ela, não é ela, não é ela, não é ela, não é ela... Não pode ser ela!
- Vão se foder e me deixem em paz! – Berro.
A raiva me consumia por dentro.
Porque eles estavam brincando com uma coisa que era extremamente particular.
Digo, já era difícil pra cacete pra mim essa coisa de aceitar tudo o que eu sentia por aquela garota, mas permitir que zombem de mim desse jeito...
- Querido, eu estou aqui.
As mãos dela tocaram o meu cabelo devagar, e puxaram com cuidado para que eu levantasse a cabeça.
Nossa... Como os olhos dela estavam azuis.
E como ela parecia linda e sexy agora que eu não podia mais tê-la...
- Não pode ser você. – Digo, com a voz um pouco rouca.
Ela optou por não responder.
Apenas deu um beijo leve nos meus lábios ressecados, e imagens de nós dois juntos, muitas e muitas vezes juntos e loucos, passaram zunindo pela minha cabeça.
- Aurélia...
- Vamos para a casa, garoto.
Era ela.
Tinha vindo me salvar do Inferno, literalmente.

CONTINUA

3 comentários:

  1. OMG! Giovanna... Estou sem palavras. O primeiro capitulo esta maravilhoso! OMG, de novo. Vou até ler esse capitulo de novo porque ele esta perfeito, continua, por favor! bjs!

    ResponderExcluir
  2. O segundo capítulo já está pronto, G?Já todos os cotocos dos dedos de ansiedade...

    Abraços "D

    ResponderExcluir