sexta-feira, 8 de março de 2013

FÉLIX, O EXORCISTA - 2


2. Escapada 

- Você é louca, Lila – eu dizia, apertando os braços dela com todas as minhas forças (que naquele momento não eram muitas) e tentando olhar no fundo dos olhos dela, tentando acreditar... – Como conseguiu chegar até aqui? Como vai conseguir sair?
Aurélia ainda me olhava preocupada.
- Félix, eu vim buscar você... Imaginei que já esperasse por isso. – Ela franziu a testa, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Claro que uma parte de mim esperava ser salvo. Claro que eu desejava poder vê-la de novo. Mas não achei que isso realmente fosse possível de acontecer, de jeito nenhum.
- Escute – começo, olhando em volta e empurrando-a para um canto mais escondido. – Você tem noção do quanto isso é loucura? Tem noção do que vão fazer com você se te pegarem? Um anjo sozinho no meio do Inferno?!
Eu sussurrava e estremecia só de imaginar.
Eu podia estar fodido pra sempre, mas a ideia de algum demônio imundo por as patas na minha garota me deixava louco.
- Félix, eu sei – ela tentava me passar segurança, percebendo o quanto eu estava apavorado, quase fora de mim. – Vai dar tudo certo.
Ela segurou as minhas mãos machucadas com cuidado.
- Você está um horror, garoto... O que fizeram com você? – Pergunta Aurélia, atordoada.
- Nem queira saber... – Digo, repuxando os lábios.
- Vem. Vamos embora.
Ela me puxou pela mão direita e eu a segui, um pouco relutante.
Com medo, na verdade.
Como ela pretendia fazer aquilo?
Andamos um pouco, evitando qualquer vulto e tentando chamar a menor atenção possível.
Mas, quando terminamos de contornar uma das grandes pedras quentes, aconteceu o que eu mais temia: um grupo de demônios fechou nosso caminho.
Porra!
Tentei puxar Aurélia e recuar, mas eles já haviam nos visto.
Minha única alternativa foi ficar na frente dela, tentando esconde-la ao máximo possível.
- Fuja na primeira oportunidade. – Sussurrei com o canto da boca, enquanto eles vinham sem hesitar na nossa direção.
- Não será necessário – respondeu ela.
- Vejam só quem está aqui! – O demônio que vinha a frente exclamou.
Ele era corpulento, com braços cobertos por tatuagens, e fumava um charuto.
Quase não o reconheci.
- Apolo? – Ergui uma sobrancelha.
Por essa eu não esperava.
Apolo estava diferente. Menos humano. Mais vermelho e mais feio. Como qualquer demônio antigo que é destruído e obrigado a voltar às origens.
O demônio com cabelo espetado e o ruivo magricela também estavam com ele.
Aquele trio, com a ajuda de Electra, havia sequestrado Aurélia em uma época que agora parecia ter ficado muito pra trás.
Eles foram atraídos, como eu, pela solidão dela, e desejavam corrompe-la. É claro que tive que me arranjar e salvá-la.
Pra isso chamei o meu pai que, com outros anjos, deram um jeito neles, de uma maneira nada gentil.
E, é claro que eles deviam se lembrar muito bem disso, e estavam bastantes satisfeitos em me encontrarem por ali.
Filhos da puta...
- Félix, o filho da Eveline – cuspiu ele. – O rapaz que se acha muito esperto e é amigo dos anjos. Não terminamos de acertar nossas contas.
- Contas! – Cuspo de volta, mesmo estando um pouco apavorado por dentro. – Se meteram com a minha garota e levaram o que mereciam, otários.
Ele não se abalou, apenas balançou a cabeça.
- Pelo que vejo, os boatos são verdades, heim? Meio anjo, meio demônio... E fraco.
Não respondo.
Estava nervoso demais, tentando pensar em como nos livraríamos deles. Como eu faria para que Aurélia pudesse escapar.
- Hey – diz um dos demônios, apontando para ela com o queixo. – Vejam só... A garota. Não me lembrava desses olhos azuis...
Apolo ergueu uma sobrancelha, dando mais um passo na nossa direção.
- Cacete... Ela é um anjo agora! – Ele abriu um sorriso enorme e nojento, e eu tremi por dentro. – Um anjo, aqui! Que maravilha... Como você deixou isso acontecer, garoto?
- Cala a boca, e sai do meu caminho. – Eu disse, trincando os dentes. – Quer levar porrada?
- Não me faça rir, pirralho – respondeu ele, no mesmo tom. – Eu vou acabar com você e com a sua garota... Ou pensou que não existe justiça no Inferno?
Ele cerra um punho enorme, quase do tamanho da minha cabeça, chocando-o contra a outra mão e estalando os ossos dos dedos.
Putaquepariu.
Eu não me importava em levar porrada.
Não mesmo.
Já não restava tanto do meu orgulho para que eu me importasse em vencer uma briga.
Mas ele ia ter que me matar se quisesse chegar até Aurélia.
- Hey, grandão – diz ela, tranquila, saindo de trás de mim para encarar os demônios. – Não toque nele. É sério. Temos uma autorização.
A olho, não entendendo merda nenhuma.
Autorização? Mas que porra é essa?
Apolo apenas ri.
- Uma autorização oficial? E quem daria uma autorização para um anjo?
- Minha sogra. – Responde ela.
Aurélia apenas tira um papel que trazia enrolado no bolso e o abre diante dos demônios.
Olho para a carta amarelada nas mãos dela, mas estava tudo escrito em outra língua. Só pude identificar duas assinaturas no rodapé da folha, ao lado do que pareciam manchas de sangue já seco.
Apolo passou os olhos pelo papel, parecendo cada vez mais descrente e furioso.
- Eveline! Maldita seja!
Puxo Aurélia enquanto os demônios xingavam minha mãe em todas as línguas possíveis.
- Explique-se – exijo.
Ela enrola o papel outra vez.
- Sua mãe me arrumou uma autorização para vir até aqui buscar você. Foi selada com sangue, então ninguém pode nos impedir de ir embora.
- Não sabia que minha mãe podia fazer isso – confesso, ainda pasmo, e achando aquilo o máximo.
Aurélia apertou os lábios, já começando a me puxar pra longe dali.
- Qualquer demônio pode fazer isso, mas poucos se arriscam. Tentei obrigar Electra a me arrumar uma dessas, mas não encontrei a bitch... Então lembrei da sua mãe.
Eu ri.
Meu riso saiu até seco e meio rouco, porque fazia muito tempo que eu não ria.
Muito tempo sem ter esperança.
- Não vou deixa-los ir! – Berra Apolo, aparecendo na nossa frente outra vez, com os olhos vermelhos muito inflamados. – Não podem simplesmente dar o fora!
- O que vai fazer, cara? – Pergunta o ruivo magrelo. – Você viu, ela tem uma autorização...
- E desde quando uma porra de papel pode me impedir de fazer alguma coisa? – Ele se voltou para mim. – Eu não sigo regras!
Ferrou.
Ele me ergueu pela gola da camisa, apertando meu pescoço sem dó.
- Você já era, moleque. Faz tempo que quero acabar com você...
- Apolo, não faça isso... – Advertiu o outro demônio, que usava o cabelo espetado.
- Cale a boca – revida ele, mal humorado. – Quer saber o quanto é ruim para um demônio morrer?
Não respondi, porque mal conseguia respirar.
Da última vez que aquilo havia acontecido (Electra me erguera e tentara me enforcar) eu havia escapado graças à ajuda dos anjos.
Mas dessa vez era diferente.
Eu estava no Inferno, na toca do Diabo, e não havia milagre que pudesse me salvar, nem ninguém para ajudar.
Aurélia estava imóvel, apenas observando.
Porque ela não fugia? Droga!
Ele começou a apertar minha garganta cada vez mais, tanto que a minha língua quase saltou pra fora.
Tanto que minhas asas negras se desdobraram, mas eu estava fraco demais para conseguir me defender.
Foi então que aconteceu.
Fui jogado no chão, arfante, e quando ergui os olhos não havia sinal de Apolo.
O cara havia desaparecido, deixando uma fumaça de enxofre e algumas cinzas no ar.
Os outros dois demônios me encaravam com os olhos arregalados, como se nunca houvessem visto uma coisa tão assombrosa, mesmo estando no Inferno.
Percebi que eles recuaram em silêncio para as sombras.
Aurélia se ajoelhou ao meu lado, preocupada.
- Você está ok?
- Estou – digo, pigarreando e massageando o pescoço. – O que aconteceu?
- A autorização – diz ela, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Não é um simples pedaço de papel.
- Você é minha heroína. – Admito, enquanto ela me ajudava a me levantar, porque eu já não tinha forças.
- Não, Félix. – Diz ela. – É a sua mãe. É ela que está nos protegendo. Agora, vamos. Vamos embora.
Não respondi, apenas comecei a caminhar apoiado nela, sentindo todo o cansaço do mundo, mas toda a satisfação também.
Eu ia para casa.
- Lila, quanto tempo fiquei aqui?
Parecia ter se passado um ano, mas eu sabia que não deveriam ter sido mais do que seis ou sete meses.
- Duas semanas. – Responde ela, me fazendo engasgar.
- O que?! Duas semanas?!
Como assim? Aquilo haviam sido só duas semanas?
Como seria um ano? Como seria a eternidade naquele lugar?
Ela me olha com a testa franzida.
- Eu fiz de tudo para vir o mais rápido possível – garante ela. – Eu juro, Félix. Não descansei um único dia, nem pensei em mais nada...
Apoiei minha testa no ombro dela.
- Calada. – Pedi. – Você é demais. E só.
Não sei exatamente por quanto tempo caminhamos, só sei que ninguém mais nos atrapalhou ou tentou nos impedir.
Minha vista estava embaçada, e eu apenas deixava que ela me guiasse, cansado demais para pensar.
Só me lembro de sentir, finalmente, o ar fresco, puro, que eu não sentia há tempos.
Era a sensação de sair de uma fornalha.
De estar no paraíso.
E uma leveza, e meu nariz respirou sem sentir aquele cheiro de podridão, enxofre e desespero...
Não aguentei mais.
Cai no chão, exausto, mas aliviado e grato.

CONTINUA

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