sábado, 9 de março de 2013

FÉLIX, O EXORCISTA - 3

3. Luto

Acordei em um lugar agradavelmente familiar.
Não era o meu quarto, mas a cama com lençóis brancos e paredes azuis eram conhecidas.
Me esforcei um pouco para me lembrar, piscando algumas vezes por causa do sol que entrava pela janela, e logo percebi que estava no Hotel Delphiniums, nas Ilhas Gêmeas, na mesma suíte onde havíamos passado momentos ótimos antes de toda a porcaria de ter que ir para o Inferno e tal.
Não fazia ideia de como tinha ido parar ali, mas era bom estar em um lugar tão de boa, sem tantas preocupações.
E depois dos últimos tempos, era melhor do que o paraíso.
Me espreguicei.
Havia um carrinho com café da manhã completo ao lado da cama, e um bilhete de Aurélia avisando que ela havia ido caminhar na praia.
A verdade é que ela sabia que eu gostaria de alguns momentos a sós para me recompor.
Comi os pães, as frutas, as torradas, o cereal e os bolinhos quase sem mastigar, virando a jarra de suco de laranja para poder engolir tudo.
Há quanto tempo eu não comia? No Inferno não se sente a fome física, mas agora eu sentia uma fome de louco.
Quando não aguentava mais comer, coloquei a banheira para encher e joguei minhas roupas encardidas atrás da porta.
Quando me olhei no espelho, fiquei chocado.
Meu rosto estava mais fino do que o normal, meu cabelo, além de bagunçando, tinha um aspecto sujo, assim como as minhas unhas.
Eu estava muito magro, maltratado, com marcas de arranhões no rosto e nos braços, barba por fazer e aqueles olhos bicolores fundos.
Ou seja: irreconhecível.
Pensei em todas as garotas do colégio que morriam por mim, os caras que me invejavam e...
Não. De qualquer forma, aquele não era mais o meu mundo.
Eu podia esquecer essa ideia de terminar o colegial e ir pra faculdade, como um adolescente normal. Nem fazia sentido.
Deixei que as minhas asas se desdobrassem, e pela primeira vez pude olhá-las com atenção.
Apesar de me lembrarem asas de corvo, eram maneiras.
A coisa mais bonita em mim no momento.
Dei uma última olhada para o meu rosto sujo e machucado.
Eu não poderia julgar Aurélia se ela tivesse dado meia volta depois de topar comigo, não mesmo.

***

Eu havia acabado de me barbear quando ouvi a porta do quarto bater.
Passei mais um pouco de colônia antes de sair do banheiro, com a toalha amarrada na cintura.
- Hey – digo, enquanto Aurélia pendurava a bolsa em uma cadeira e tirava os óculos de sol.
- Uau... – Diz ela, sorrindo. – Alguém andou se produzindo.
- Tenho que recompensar você – eu digo, me aproximando e roçando o nariz no rosto dela. – Para que não se esqueça de como eu sou sexy. Do quanto eu seduzo você...
- Acredite – responde Aurélia, me abraçando. – Eu não esqueci.
A empurro contra a parede.
- Confesse – começo, sussurrando no ouvido dela. – Quando você foi me buscar, com certeza pensou no quanto eu sou bom. Sou o melhor cara que você teve. Sempre serei eu.
Ela me encara, com a respiração alterada.
Dava para ver nos olhos dela o que iria rolar em seguida.
- Você venceu. Será sempre você, Félix.

***

- Isso foi... Incrível... – Aurélia estava arfante, deitada ao meu lado na cama, enrolada em lençóis.
- U-hum... – Concordo, fechando os olhos, sentindo a adrenalina do meu corpo diminuindo aos poucos.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, para que nossas respirações voltassem ao normal.
- Você foi tão carinhoso – sussurra ela, com um meio sorriso, se deitando de lado, com a cabeça apoiada em uma mão.
Me viro, ficando de frente pra ela.
- Achei que nós dois estávamos precisando de uma dose extra de carinho. – Digo, dando um beijo na mão dela.
Ela me olhou.
- Félix... Eu não quero que te tirem de mim de novo.
- Sem drama, vai... – Peço.
Ela balança a cabeça.
- É sério. Fiquei puta com isso tudo. Com medo de falhar, não conseguir te encontrar... Sem saber se você estava ok. E o que aqueles monstros fizeram com você?
Franzo a testa.
- Lila... Isso não importa mais. Você não percebe o quanto você foi foda, não é? Me salvou. Eu achei que ia apodrecer naquele lugar, e você se arriscou pra me tirar de lá. E agora estamos aqui. Não importa o que eles tenham feito: estamos juntos de novo.
Ela dá um meio sorriso e afunda nos travesseiros de penas de ganso.
Depois fica séria de novo.
- Ah, Félix... Mas devemos muito a sua mãe.
- Minha mãe – bufo, ascendendo um cigarro. – Ela só assinou um papel. Aposto e ganho em como ela nem ficou muito preocupada.
Aurélia me encara.
- Você está muito enganado, Félix.
- Estou? – Pergunto, sem grande interesse.
Aurélia se senta na cama.
- Acho que você deveria vê-la e descobrir do que estou falando...
Bocejo.
- Ah, Lila... Não quero ir para Fatalville hoje. Aqui é tão bom... Longe de tudo. Podemos ficar juntos, relaxar...
A olho de forma maliciosa, mas ela continua séria.
- Não precisamos ir até Fatalville. Sua mãe está aqui.
Ergo uma sobrancelha.
- Minha mãe está na ilha?
- Nesse hotel.
Coço minha nuca.
- Porque? Você convidou ela?
Isso era estranho.
Aquele hotel não fazia o estilo da minha mãe, não mesmo.
- Não – responde Aurélia. – O seu pai trouxe ela pra cá. Achou que seria melhor pra ela.
- Meu pai?! – Aquilo era mais do que estranho.
Minha mãe e meu pai viajando juntos?
- Félix, eu estou falando sério. Não foi fácil pra sua mãe ceder aquela autorização. Exige muito poder... E tem algumas consequências.
A olho, tentando processar a informação, tendo apenas uma vaga ideia do que se tratava.
- Vamos vê-la, então – digo, dando-me por vencido.

***

Batemos na porta de um quarto no fim do corredor.
Eu engoli em seco, segurando a mão de Lila.
Foi meu pai quem abriu.
A expressão série e serena dele estava um pouco diferente, mas eu não sabia exatamente o que era.
- Que bom que você veio – diz ele, com um cumprimento básico, pondo a mão no meu ombro quando entramos.
- Pois é – eu digo, olhando em volta, analisando o hall da suíte decorada quase idêntica a nossa. – Estive no Inferno, sabe? Por isso não vim antes. Ah, desculpe... Você já sabia.
Ele me encara, e noto que haviam olheiras leves abaixo dos olhos dele. Suspeito.
- Félix, não seja um mala – Aurélia me censura. – O seu pai também ajudou para que eu conseguisse te buscar, cara. Todos estavam preocupados.
- Aham. – Digo, dando de ombros.
A verdade é que, no fim, a única pessoa que havia realmente se arriscado por mim havia sido Aurélia. Eu sabia muito bem disso.
Meu pai era um anjo muito mais forte que ela. Minha mãe era um demônio poderoso. Porque nenhum deles havia ido até lá, ao invés de deixar Aurélia correr perigo sozinha?
- Eveline quer te ver. – Diz ele, friamente.
- Onde ela está? – Pergunto, erguendo uma sobrancelha.
- No quarto. Não faça muito barulho. Ela está fraca.
Fraca?
Engulo em seco.
Tenho um mal pressentimento ao adentrar o ambiente pouco iluminado.
A janela entreaberta só deixava entrar uma fresta de sol e um barulho fraco das ondas que quebravam na praia.
Mas não havia cheiro de enxofre, só da maresia.
- Mãe? – Me aproximei da poltrona um pouco afastada da janela, onde ela estava sentada, com as pernas cobertas por um edredom.
E fiquei em choque.
Minha mãe parecia ter envelhecido uns vinte anos, no mínimo.
O cabelo avermelhado estava cheio de fios grisalhos.
A pele estava rachada, pálida, e os dedos sobre o colo estavam quase esqueléticos.
E eu não me lembrava de já ter visto alguma vez as unhas dela sem esmalte vermelho...
Os olhos dela estavam fechados, e por um segundo o pânico me paralisou, mas logo percebi que ela respirava de leve.
Me ajoelhei diante dela, trêmulo.
- Mãe? Mãe, sou eu...
Ela tossiu de leve, e então abriu os olhos.
No primeiro momento, pareceu não me reconhecer, mas então ela sorriu.
- Félix... – A voz dela estava fraca, baixa. Diferente do tom de advogada confiante e ríspida de sempre. – Meu querido, achei que você não ia chegar a tempo para que eu pudesse ver você de novo...
Segurei a mão dela entre as minhas.
- Do que está falando, mãe?
- Filho – ela começou, em tom triste, mas com um sorriso frágil. – Está na minha hora de partir.
- Partir pra onde? – Pergunto, erguendo uma sobrancelha.
- Félix, eu estou morrendo.
Fechei os olhos e encostei minha testa no joelho dela, ainda segurando a mão magra entre as minhas, tentando fugir daquilo.
- Está tudo bem, filho – sussurrou ela, acariciando meu cabelo com a outra mão. – Meus últimos dias foram ótimos, eu só queria poder me despedir de você. E dizer... Que me orgulho muito de ser sua mãe, embora eu tenha falhado muitas vezes.
Ergo a cabeça, com a expressão endurecida.
- Porque vai me deixar? – Pergunto. – Você está assim por causa da autorização, não é? Se sacrificou para que Aurélia pudesse me buscar...
Me senti culpado, um grande idiota.
Agora eu entendia. Um demônio não poderia simplesmente ceder um documento como aquele para um anjo sem pagar um preço...
- Foi meu presente pra você. – Sussurra ela, erguendo a sobrancelha de leve. – Quis fazer alguma coisa realmente boa e importante pelo meu filho...
- Mãe... – Gemi, sem querer acreditar.
Toda a admiração que eu tinha por ela, e que estava em baixa ultimamente, voltou à tona. Ela era uma guerreira. Uma mulher única. Independente dos erros que havia cometido.
- Você vai ficar bem, muito bem – sussurrou ela. – Sempre se virou sozinho. E agora tem uma garota forte do seu lado. E sempre terá o seu pai...
Ela estava delirando?
- Meu pai? Não, mãe... Você odeia ele.
Ela riu, engasgando levemente.
- Nada disso, querido... Eu amo o Augusto. Sempre o amei. Fiquei triste e brava quando ele foi embora, mas ele voltou. – Ela se inclinou pra frente com certa dificuldade. – Ele me trouxe pra cá e cuidou de mim. Me levou à praia. Nos divertimos muito. E eu pude dizer que o amava. E ele também me ama e até disse que eu continuo bonita, mesmo depois de enfraquecer...
Ela deu uma risadinha.
A olho com atenção.
- Você está linda, mãe.
Não era 100% mentira.
Pela primeira vez, ela não parecia uma mulher estressada, nem um demônio dissimulado. Ela estava tão serena...
- E você é o rapaz mais lindo que existe – me diz ela, me dando pancadinhas leves no rosto. – E está usando roupas brancas, veja só... Nunca te comprei roupas brancas, nem azuis.
Eu sorrio, embora meus olhos começassem a se encher de lágrimas involuntariamente.
- Aurélia me comprou essas roupas. Acho que foi uma espécie de piada.
Ela apenas assentiu, se inclinando para trás e encostando a cabeça na poltrona de novo, fechando os olhos.
Continuei onde estava, me recusando a soltar a mão dela.
Ela deu mais três ou quatro suspiros longos, e então ficou totalmente imóvel.
Fechei os olhos com força, sentindo uma lágrima quente rolar do olho esquerdo, e uma lágrima fria do olho direito, ao mesmo tempo.
Não precisei checar a pulsação dela para saber que ela já havia ido. E doía. Caramba, como doía...
Ouvi o barulho de alguma coisa se quebrando na sala, e meu pai entrou correndo no quarto.
- Eveline!
Ele também havia sentido.
Me levantei, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele passou como um raio por mim e a segurou nos braços.
Seu rosto estava cheio de vincos, como uma pessoa realmente arrasada, e ele começou a chorar, chorar pra valer, apertando o corpo dela contra o peito.
Minha primeira reação seria xingá-lo e ordenar que se afastasse da minha mãe, mas aquela cena me chocava.
As asas dele se abriram, as penas branquíssimas iluminaram o quarto, enquanto ela... Ela estava incandescente.
Como uma espécie de estrela de fogo, fênix, ou sei lá...
Eles eram tão opostos quanto possíveis.
Quase como... Gelo e lava.
Eu só conseguia olhar.
Meus pais...
Eu era a mistura daquilo? Porque não parecia ruim... Nada ruim.
Sai do quarto de cabeça baixa, com os pensamentos confusos.
Aurélia estava ajoelhada no chão, juntando cacos do que parecia um vaso de porcelana quebrado.
Ela se levantou quando me viu.
- Félix... Eu sinto muito. – Sussurrou. – Devia ter te trazido direto pra cá, mas eu não sabia que ela já estava tão debilitada... Não achei que ia acontecer tão cedo.
Não disse nada, apenas a abracei.
Comecei a chorar no ombro dela.
Talvez assim a dor diminuísse um pouco.

CONTINUA

2 comentários:

  1. Serio que ela morreu? OMG, muito legal da parte dela ter feito isso pelo Félix. Continua! bjs.

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  2. Pois, é... Acredito que isso foi uma coisa muito digna, e Eveline se redimiu por todas as falhas dela como mãe... :/

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