terça-feira, 19 de março de 2013

FÉLIX, O EXORCISTA - 4

4. Telefonema


Naquela tarde choveu pra caramba.
O sol desapareceu, e pela primeira vez eu via o ambiente ensolarado das Ilhas Gêmeas com aquele aspecto cinzento e sombrio.
Eu me perguntava se o humor do meu pai tinha alguma coisa com aquilo, porque a expressão dele na cerimônia de cremação era mais atormentada do que qualquer vento ou tempestade tropical.
Mesmo eu, que já estivesse sofrendo um bocado, não pude deixar de notar.
Ele estava mais do que abalado, e não disse uma palavra sequer depois do que aconteceu.
Depois que ela...
Suspirei, sentado na varanda do quarto, onde alguns pingos da chuva que batiam na sacada respingavam no meu rosto.
Eu ainda não conseguia acreditar que ela havia ido... E por mim. Minha mãe havia se sacrificado por mim. Ela realmente me amava. Realmente se importava comigo, no final das contas. Isso fazia toda a diferença do mundo.
E ele, meu pai, parecia ter perdido a pessoa mais importante da vida dele.
Como podia ser assim, depois de tanto tempo separados?
Eu pensava nisso tudo quando Aurélia veio se sentar ao meu lado.
- Chá? – Ofereceu ela, erguendo a xícara.
- Não tem mais conhaque? – Pergunto, sem encará-la.
- Não. Você já acabou com tudo. – Responde ela.
Dou outro longo suspiro.
Aurélia se encosta em mim, apoiando a cabeça no meu ombro, e me encosto nela também, olhando o mar revolto lá embaixo.
Talvez... Faça sentido, penso.
Acho que eu continuaria me importando com Aurélia, mesmo se ficasse anos sem vê-la.
Passo o braço ao redor dos ombros dela.
- Ai... – Gemo, sentindo uma dor aguda nas costelas ao me mexer.
- Você tá ok? – Pergunta Aurélia.
- É, vou ficar legal – digo.
Minha temporada no inferno havia deixado algumas contusões doloridas, mas eu não queria dizer nada a ela. Já bastava ter sido salvo e arrastado pela minha namorada.
Tava na hora de voltar a ser macho.
Mas, como sempre, Aurélia adivinhou meu conflito interno sem que eu dissesse nada.
- Vem cá – diz ela, simplesmente, se inclinando para me dar um beijo.
Nem foi um beijo de verdade, foi mais um selinho.
Mas alguma coisa dentro de mim se alterou. Senti uma espécie de calor interior, e foi como tomar um remédio potente de efeito imediato: as dores que me incomodavam começaram a desaparecer.
Mas não durou muito tempo: Aurélia estremeceu e se afastou.
- O que foi? – Perguntei, me sentindo esfriar.
- Não sei direito... – Diz ela, se levantando. – Meus poderes... Devo estar cansada.
- Tire um cochilo – respondo, voltando a observar a paisagem.
Ela não respondeu.
Voltei a pensar sobre várias coisas, distraído.
E então notei que Aurélia estava andando pelo quarto, de um lado para o outro.
- Lila? – Entro no quarto, fechando a porta de vidro da varanda, já que a chuva estava ficando mais forte.
Ela pareceu não me ouvir.
Chego perto dela e a seguro pelos ombros, e só então ela me encara, como se despertasse de um transe.
- Você tá legal? – Pergunto.
- Estou – responde ela, com um suspiro.
- Parece ansiosa. – Insisto.
- Hmm... Preciso descansar. – Diz ela. – Fiquei acordada a noite inteira. Não consegui dormir...
- O que ficou fazendo a noite toda, heim? – Pergunto, tentando dar um meio sorriso.
- Fiquei olhando você dormir, Félix. – Responde ela, séria.
- Uau... – Digo. – Isso é assustador. Parece até que estou vivendo com uma psicopata.
Ela dá de ombros, bocejando.
- Acho que descer ao Inferno me deixou com excesso de adrenalina no corpo, cara. Vou tomar um banho quente e um calmante.
Eu ia insinuar algum tipo de sacanagem, mais por hábito do que por ânimo, quando escutei Iron Man, do Black Sabbath, tocando em algum lugar próximo.
- Hey... É o meu celular? – Pergunto.
- Deve ser, eu trouxe ele pra cá pra você. – Diz Aurélia, prendendo o cabelo em um coque. – Acho que está no criado mudo.
Corro até o celular.
Era Derek. Instantaneamente, abro um sorriso de orelha a orelha.
Parecia que faziam séculos que eu não conversava com o meu chapa.
- Fala, fedorento! – Atendo, me sentando na cama.
- Félix? Félix! – A voz dele estava abafada e a ligação tinha alguns ruídos. – Puta que pariu, graças a Deus eu consegui falar com você!
A voz dele parecia tensa, o que não era normal.
- O que está pegando? – Pergunto, franzindo a testa.
- Cara... Eu preciso de ajuda. Tá todo mundo surtando, e tem uns bagulhos loucos acontecendo...
- Porque tá sussurrando, cacete? Onde você tá?
- Em casa – respondeu ele. – Mas nenhum lugar é mais seguro. Eles podem nos escutar, eu sei...
- Derek – começo, erguendo uma sobrancelha. – O que você fumou dessa vez?
Ele dá um riso seco do outro lado da linha.
- Cara... Faz dias que eu não fumo, nem bebo. Não é uma boa hora pra ficar doidão. A coisa tá feia. Félix... – Ele respirava alto. – A coisa aqui tá horrível. Teve um incêndio na escola... Um monte de gente não conseguiu escapar. Alunos, professores...
- O que? – Aquilo era inacreditável. – Colocaram fogo na escola?
- Eles colocaram – sussurrou Derek. – Eles estão colocando fogo em tudo, e convencem as pessoas a fazerem coisas...
- Derek, quem são eles? – Pergunto, apertando o celular.
- Félix... O diabo. O diabo está em Fatalville. – Ele fez uma pausa, respirando forte. – Acredita em mim, né, cara? Naquele dia, que você sumiu... Tinham anjos, e os outros também. Achei que estava alucinando, mas... Ah, estou louco, porra?!
- Não... – Começo. – Não, cara... Derek, eu estou indo pra aí, ok?
- Toma cuidado... A cidade inteira está fodida... – Adverte ele, baixando a voz. – Félix, eu vou desligar, antes que um deles me escute e venha me perturbar. Acho que... Estou sendo observado... Até mais! E venha logo!
- Hey, cara, espere! – Digo, mas ele desliga na minha cara.
Olho para o celular, pensativo.
Derek estava apenas drogado, ou a coisa era séria?
Difícil saber.
Ligo a TV do quarto no canal local, impaciente, e logo vejo o que quero.
O boletim de notícias.
- Hoje foram enterradas as 13 vítimas da tragédia na escola municipal de Fatalville. - Começou o jornalista. - Familiares, alunos e funcionários da escola se reuniram no velório da cidade para homenagear os mortos por volta das três horas da tarde. A causa apontada para o incêndio seria um curto-circuito na caixa de eletricidade, mas a polícia continua com as investigações. Voltaremos com mais notícias...
Desligo a TV.
Era tudo o que eu precisava ouvir.
Abro a porta do banheiro como um furacão.
- Aurélia! Precisamos...
Não continuo.
Aurélia estava na banheira, totalmente submersa, com fios de cabelo roxo que haviam se soltado do coque flutuando na água, a torneira ligada, a água transbordando da banheira cheia no piso branco...
Mais do que depressa, mergulho os braços na água e a ergo.
- Aurélia!
Ela estava inconsciente.
Meu coração martela, e sinto que fiquei pálido.
- Aurélia! – Começo a sacudi-la, puxando-a para fora da banheira e a enrolando com uma toalha.
Ok. Não entre em pânico...
Impossível, já estou em pânico, porra!
Como se faz uma respiração boca a boca?!
Antes que eu pudesse pensar em algo, ela começa a tossir, cuspindo água, e abre os olhos.
Suspirei, um pouco aliviado, mas ainda bastante tenso.
- Aurélia... – Digo, abraçando-a. – Que diabos foi isso?
- Eu sei lá! – Diz ela, assim que para de tossir. – Eu estava no banho... Acho que fechei os olhos e apaguei.
- Cara, você não está bem... – Digo, nauseado por causa do susto.
- Estou, sim – diz ela. – Sou um anjo. Sempre ficarei bem.
Provavelmente ficaríamos sentados abraçados no chão molhado do banheiro por mais tempo, se eu não tivesse coisas urgentes para resolver.
- Lila, Derek ligou... Parece que tem coisas muito estranhas acontecendo em Fatalville... Coisas sinistras de verdade.
Ela ergue os olhos pra mim, parecendo um pouco desnorteada. O que havia com aquela garota?
- Vamos para Fataville?
- Não, querida – digo, passando a mão pelo rosto dela, seriamente preocupado. – Eu vou até lá ver como as coisas estão. Volto logo.
Ela balança a cabeça.
- Eu vou com você, Félix. – Diz, agarrando a gola da minha camisa com força. – Eu prometi que nunca mais te deixaria sozinho...
- Lila...
- Eu prometi pra sua mãe!
Suspirei, dando-me por vencido.
- Ok. Então vamos. Temos que ir agora.
Ela concorda, e nos levantamos.
Arrumo rapidamente uma mala com algumas coisas nossas e vou até o quarto no final do corredor enquanto Aurélia se vestia.
Bato na porta, mas ninguém responde.
Entro com cautela, acendendo a luz.
O quarto estava do mesmo jeito de antes: arrumado, pouco iluminado, vazio...
Sinto um calafrio acompanhado pela tristeza.
Minha mãe morreu aqui...
Dou alguns passos hesitantes para dentro do quarto.
- Augusto? Pai?
Nenhuma resposta.
Eu esperava que ele pudesse saber de alguma coisa sobre as mortes em Fatalville, mas não havia nenhum sinal dele por ali.
Deveria ter saído para dar uma volta, embora a chuva lá fora estivesse cada vez pior.
Ou talvez estivesse no saguão do hotel.
Vai saber...
Eu já estava dando meia volta quando escutei um ruído na varanda.
Me detive.
- Quem está aí? – Pergunto.
É estranho, mas por um minuto eu tive esperança de que ela respondesse. No fundo, eu queria que uma parte dela ainda estivesse aqui, ainda pudesse estar comigo...
- Mãe? – Indago, me sentindo bastante idiota.
Nada.
Me aproximei e descobri que a porta de vidro da varanda estava aberta, deixando vento e chuva entrar e sacudindo as cortinas brancas.
Não havia ninguém ali.
Aonde diabos meu pai estava?
Um relâmpago cortou o céu, e eu pude ver uma coisa branca no chão.
Uma pluma. De asa de anjo.
Instantaneamente, eu tive uma percepção que ouriçou os pelos na minha nuca.
Ele havia ido embora.
Os anjos estão nos abandonando...
E isso não era bom.
Porque agora eu começava a sentir que havia alguma coisa séria acontecendo, estava no ar.

CONTINUA

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