domingo, 24 de março de 2013

FÉLIX, O EXORCISTA - 5

5. Demônios na Água

Foi difícil convencer um dos marinheiros do bar do porto a nos levar para Fatalville com aquele tempo horrível. Aurélia teve que oferecer uma quantia quase absurda de dinheiro, o que me deixaria incomodado, se eu não soubesse que pra ela aquilo não era nada.
A verdade é que eu ficaria bastante satisfeito em colocar em uso minhas asas e “voar” até Fatalville, mas eu ainda não estava 100%, e Aurélia também não estava muito legal, então o melhor era não arriscar.
O barco luxuoso de pequeno porte da Srta. Santoro era um barco de passeio, e não era lá o mais ideal para sair em mar aberto em uma tempestade, mas que escolha tínhamos?
- Quando foi mesmo que seu pai te deu esse barco? – Pergunto, tentando distrair a mim mesmo, enquanto nos segurávamos nas poltronas da cabine por causa das sacudidas.
- No meu aniversário do ano passado. Mas eu nunca dei muita importância, sabe... – Respondeu ela. – Meu favorito sempre foi o pônei que ele me comprou quando fiz onze anos
Sorri, sacudindo a cabeça.
- Sua garota mimada! – Gritei, por causa do barulho das ondas fora da cabine, que pareciam querer nos engolir.
- Eu? – Grita ela de volta. - Você podia fazer o que queria, Félix. Nunca teve limites...
- Mas e daí? Eu sempre fui classe baixa, ninguém me dava presentes.
Aurélia ri.
- Como não? E todos aqueles videogames? E os ingressos para o show do AC/DC?
Também sorrio, um pouco afetado pela lembrança.
- Você e minha mãe realmente bateram um papo, né?
Ela deu de ombros.
- Gostar de você era uma das poucas coisas que tínhamos em comum.
O barco deu um solavanco mais forte, quase nos derrubando. Os quadros de pinturas abstratas pendurados nas paredes da cabine despencaram.
- Wow... – Digo, tentando me reerguer. – Porque paramos?
- Eu não faço ideia... – Os olhos dela estavam um pouco arregalados.
Cambaleei até a porta que levava até a cabine de comando. Mas, para a minha surpresa e desespero não havia ninguém no leme.
Onde estava aquele filho da puta?
- Aurélia... – Começo, voltando para a nossa cabine, mas ela não estava mais lá, e a porta para o convés estava arreganhada.
Corro pra fora, tropeçando na mobília, e quase escorregando no convés encharcado, com ondas bastante altas ameaçando virar o barco.
- Aurélia! – Chamo, mas não havia sinal dela.
Contorno a cabine, chegando até a popa, e a vejo, precariamente debruçada na beira do barco.
- Porra, Aurélia! – Grito, deslizando na direção dela pelo convés molhado. – Não é hora de brincar de Titanic!
Ela se volta pra mim, e tenho a impressão de que há algo de errado com a expressão dela. Tão errado, que chego a sentir meu estômago ficar ainda mais ácido.
Mas não pude ter certeza, porque uma onda grande me atingiu e me derrubou no convés, me fazendo bater a cabeça em alguma coisa.
Quando consegui me levantar, zonzo, e olhei pra baixo, para a água, foi que pude ver o que estava acontecendo.
Não era a tempestade que estava sacudindo o barco daquele jeito.
Eram eles.
Pude ver os olhos vermelhos brilhando embaixo da água. Haviam nos encontrado, e estavam dispostos a nos puxar para o fundo e arrancar nossas tripas com as garras.
Demônios na água. Cinco ou seis.
Não tive tempo de ter medo.
Não.
Chega de me sentir a vítima. Chega de me sentir fraco.
Não vou ser mais refém desse bando de filhos da puta.
Sem pensar duas vezes, prendi o fôlego e me atirei na água gelada.
Se fossem me matar, sentiriam um pouco do meu ódio. Um ódio que eu estava guardando por muito tempo. O ódio que eu normalmente alimentava com minhas maldades de menino-demônio, antes, e que, agora, estava faminto.
Assim que mergulhei, dois deles vieram na minha direção, um começou a me puxar com a mão branca e enrugada para o fundo da água, enquanto o outro começou a arranhar o meu rosto.
Eu não podia ver nada por causa da escuridão, mas podia ouvir a voz dele na minha cabeça.
O que você prefere? Se afogar ou queimar?
Se eu pudesse, teria sorrido.
Nesse momento, eu prefiro matar.
Minhas asas não chegaram a se abrir.
Naquele momento, o outro lado dominava.
Explodi.
Mesmo sem ver, minhas mãos encontraram o pescoço do demônio que me arranhava, e eu apertei com força.
Com a força de toda a minha raiva.
Senti minhas mãos ferverem contra a água fria. Pude ver os olhos do demônio se esbugalharem ao máximo antes que ele estourasse em uma nuvem de pó vermelha, que com toda a certeza deveria ter cheiro de enxofre.
Eu nunca havia usado meus poderes antes.
E foi uma das coisas mais maneiras que eu já fiz na minha vida.
Me fez lembrar da sensação após ter feito sexo pela primeira vez.
Me fez lembrar de quem eu era coisas do passado.
De quando eu ansiava tanto pelos benditos dezesseis anos, ansiava tanto por todo aquele poder, por ter capacidade para fazer aquilo.
Matar outra vez, só com a força do meu poder...
Ultimamente, andei seguindo as regras. Fui um cara bom.
E me lembrar do quanto podia ser delicioso ser ruim, não ter nenhum peso na consciência, era perigoso. Excitantemente perigoso.
Puxei o outro demônio para cima, pelos cabelos (que pareciam algas, o que era mais do que bizarro), e dei o mesmo tratamento a ele.
Espere, nós só estávamos curiosos... Tentou negociar ele. Queríamos ver a aberração absurda da qual todos estão falando... Calma aí, cara.
A aberração aqui vai acabar com você.
Mas não foi suficiente.
Eu queria mais. Destroçar meus inimigos. Acabar com quem estivesse no meu caminho...
Voltei à superfície para tomar fôlego, sem encontrar nenhum sinal dos outros demônios. Temi que estivessem no barco com Aurélia.
Pulei para o convés sem muita dificuldade, já que a adrenalina no meu corpo estava a mil.
Mas tudo o que eu encontrei foi um furacão de cabelos roxos correndo ao meu encontro e me abraçando apertado.
- Que susto você me deu, Félix!
A abracei de volta.
- Você está bem? Onde os outros deles estão?
- Fiz com que fossem embora – diz ela, com o nariz no meu ombro.
Assenti, um pouco decepcionado, passando a mão pelo cabelo dela.
Dessa vez, eles tinha escapado.
Mas as coisas negras que haviam despertado dentro de mim ainda permaneceriam por um bom tempo.

***

Graças aos conhecimentos de Aurélia sobre navegação e a melhora do tempo, conseguimos chegar a Fatalville sem mais transtornos.
Porque os transtornos estavam pra começar.
Quando pisamos no centro da cidade, eu não conseguia acreditar nos meus próprios olhos. Não dava.
A cidade onde eu nasci e cresci, onde passei praticamente minha vida toda... Parecia abandonada. Destruída.
Passamos por pelo menos três prédios queimados (inclusive minha escola), casas e lojas fechadas, nenhum carro ou pessoa nas ruas...
Onde estavam as crianças nas ruas, os bêbados nos bares, os carros? Estava estranho até mesmo para uma cidade pequena.
Aurélia e eu andávamos pela rua sem dizer nada.
- Vamos pra minha casa – sugere ela.
- Não. – Respondo. – Primeiro vamos passar no Derek.
Ela concordou, e viramos a esquina, nos dirigindo para o velho trailer no terreno baldio.
Aquela coisa com cheiro de queijo e pizza velha já havia sido minha casa por um bom tempo... E a porta estava trancada.
Isso era inédito, até então.
Derek nunca trancava a porta. Várias vezes, quando chegávamos chapados de nossas curtições, capotávamos nos colchões e dormíamos com a porta arreganhada, mesmo.
Bati na porta.
Ouvimos o barulho de alguma coisa caindo no chão, e passos de alguém tropeçando, mas nenhuma resposta.
- Derek? Sou eu, cara... O Félix.
Alguns segundos se passaram, e Aurélia e eu nos entreolhamos, até que finalmente escutamos a chave girar na porta e Derek a escancarou.
Não tive tempo de dizer nada.
Ele me puxou pela gola da camisa, apontando uma faca de cozinha para o meu pescoço.
- Se você é mesmo o Félix, diz aí: Quando nos conhecemos, e como??? – Berrou ele.
- O que? Tá doidão? – Indago, sem entender nada.
- Derek, somos nós... – Diz Aurélia, com a testa franzida.
Ele continuava segurando a faca.
- Cale a boca! Eu quero ouvir dele, se é que ele é realmente quem diz ser... Quando nos conhecemos? Como foi?!
Ergo uma sobrancelha.
- Foi na quarta série. A professora de geografia nos mandou juntos para a coordenação porque não havíamos feito nenhuma lição de casa dela, e resolvemos entrar no banheiro das meninas para espiar. Você dividiu um chiclete comigo e me deixou ficar com a tatuagem, e cabulamos todas as aulas daquele dia. Agora solta essa faca, meu!
Ele arregalou os olhos, então finalmente largou a faca e sorriu.
- Félix, cara! É você mesmo...
- Não diga... – Provoco.
Percebi que ele estava meio abatido. Como nos dias de ressaca brava. Olheiras, barba por fazer...
- Vamos entrar – sugere Derek. – Não é uma boa ficarmos tão expostos, tá ligado?
- Não... – Aurélia responde por mim, enquanto entramos no trailer bagunçado. – Isso aqui virou The Walking Dead, agora?
- Eu diria que está pior – diz ele, trancando a porta. – Zumbis só devoram, não entram na pessoa. Querem uma breja? A comida acabou...
- Derek – digo, o encarando. – Queremos saber o que está pegando... O que houve com a cidade, com todo mundo?
Ele suspira.
- Tá legal. – Diz ele. – Sentem aí. Não são novidades legais, as minhas, isso eu garanto.
Ele começou a contar.
E quanto mais ele falava, menos eu queria escutar.

CONTINUA

2 comentários:

  1. Giovanaaaaa, MotherFuck!!ISSO ESTÁ MUITTOO BOM!!
    Abraços

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  2. Giovanna, por que você termina o capitulo na melhor parte? :'( Magoa, eu quero ler hahaha, continua, por favor!

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