segunda-feira, 8 de abril de 2013

FÉLIX, O EXORCISTA - 6


6. Fatalville, a Cidade dos Demônios

- Um monte de adolescentes, gente da escola, estão se suicidando do nada – dizia Derek, com expressão vazia. – Lembra da Stela? Se enforcou com um cinto no quarto. A irmãzinha do Edilson, que tem seis anos, esfaqueou os próprios pais enquanto eles estavam dormindo. Uma professora se jogou do terceiro andar do prédio da prefeitura. E muitas outras coisas horríveis... A imprensa nem consegue mais cobrir tudo. As pessoas estão trancadas em casa, mas são nas casas que as coisas ruins acontecem. Uma porrada de gente fez as malas e se mandou. Mas parece que ninguém percebe que há algo muito errada em Fatalville. Uma coisa do mal, sabe? Que não vai simplesmente passar com o tempo. Que não tem uma explicação racional...
Ele parou de falar e escondeu o rosto com as mãos.
Aurélia e eu nos entreolhamos.
- Derek, isso é horrível... – Começou ela. – E você ficou aqui sozinho esse tempo todo?
- Jéssica esteve aqui depois do incêndio, quando todo mundo parou de ir pra escola. Mas os pais dela a levaram pra casa da vó... – Ele se voltou pra mim. - Ah, Félix... Eu a pedi em namoro.
Dou um meio sorriso.
- Aí sim, cara... Fico feliz por você.
- Não fique. Ela disse não. – Derek dá de ombros. – Uma vaca, ela.
Aurélia e eu rimos.
Derek era Derek, isso não mudava.
- Vamos, caras – diz Aurélia, se levantando. – Vamos lá pra casa. Ver o que o meu pai tem pra dizer. E ver... O que poderemos fazer.

***

Com exceção das plantas meio murchas no jardim e uma vidraça quebrada em uma das janelas da frente, o casarão dos Santoro estava exatamente igual à antes.
Entramos na sala chique logo atrás de Aurélia, Derek um pouco desconfortável, eu, um pouco desconfiado.
Assim que o pai dela apareceu ela foi até ele decidida e o abraçou.
Ele pareceu um pouco surpreso com a atitude dela, mas a abraçou de volta.
Pela primeira vez eu via o Sr. Santoro sabendo a verdade sobre ele: ele era um ex-demônio. E agora parecia idiotice nunca ter desconfiado... Elegante, sofisticado, meio soturno...
Só que eu sabia o quanto ele era diferente da minha mãe, pelo simples fato de ter aconselhado Lila a se tornar um anjo, acreditando que seria o melhor pra ela...
Parei, me lembrando de tudo o que tinha acontecido na véspera. Pensar na minha mãe foi como uma facada no peito, e eu cerrei os dentes.
Uma empregada com expressão abatida levou Derek até um dos quartos de hóspedes do térreo, enquanto o Sr. Santoro nos ofereceu café preto.
- Nada de café, pai – disse Aurélia, franzindo o testa. – Queremos saber o que está acontecendo em Fatalville. Porque os demônios estão atacando assim em uma única cidade? O que eles querem?
Ele deu um suspiro cansado.
- Filha... Você não deveria se preocupar. Deveria ir embora daqui, para um lugar seguro. Esqueça essa cidade. Eles cuidarão da situação, uma hora...
Aurélia deu uma risada seca.
- Eles? Pai... Se liga. Eu sou um deles. – Ela ergueu o cabelo com as mãos, ao mesmo tempo em que suas asas brancas a graciosas se desdobraram das costas para depois de alguns segundos de brilho voltarem a desaparecer. – Quero saber o que está acontecendo.
O tom dela foi autoritário.
O Sr. Santoro voltou a suspirar e depois me encarou, como se tivesse esquecido que eu estava ali plantado.
- E o se pai – começou ele, angustiado. – Não disse nada? Ele deve estar muito a mais a parte do que anda acontecendo do que eu...
Ergui uma sobrancelha.
- Meu pai já percorreu metade do caminho para a loucura. – Respondi. – Minha mãe morreu ontem. E ele quase morreu junto, praticamente.
O Sr. Santoro continuou encarando, depois desviou o olhar para o vazio.
- Ah, claro... – Disse ele, em voz baixa. – Eveline Maya, um demônio que deixou de ser demônio em um típico caso de paixão por um anjo e depois recuperou os poderes... Quem diria que ela acabaria assim.
O olhei.
- Como ficou sabendo da morte dela? – Pergunto, com um nó na garganta.
- Todos estão sabendo. – Respondeu o Sr. Santoro.
- Pai! – Ralhou Aurélia, perdendo a paciência. – Pare de fazer mistério explique essa história de uma vez!
Ele se levantou de súbito, olhando dela para mim e novamente para ela.
- Pois bem... Aurélia, desconfio que os demônios estão aqui por sua causa.
Silêncio.
- Minha causa? – Aurélia tinha uma expressão descrente.
- Um anjo puro e imaculado descendo até o Inferno para fazer um resgate e voltar sã e salvo para a Terra... Todos estão falando sobre isso. Os demônios ficaram irados. Sentiram como se fosse uma afronta, e todos esses ataques são apenas o começo.
Lila e eu nos entreolhamos na mesma hora.
- Começo... Do que? – Pergunto.
- Da rebelião. Os demônios estão brotando do ralo. Estão decididos a fazer da Terra um campo de batalha, estão fazendo de tudo para que os anjos venham enfrenta-los. O que não vai demorar muito...
- Estamos falando de uma guerra? – Aurélia estava pálida.
- Uma guerra sangrenta, com certeza – respondeu o Sr. Santoro. – Os anjos têm muito poder, mas os demônios estão ficando cada vez mais fortes, condenando tantas almas, preparando uma destruição em massa...
- Pai – interrompe Aurélia, dando um pulo. – Isso é quase um apocalipse... Quanto tempo temos?
O Sr. Santoro deu um último e longo suspiro.
- Quem sabe? Eles devem estar esperando algum tipo de sinal.

***

Mais tarde, deitado na cama alta e fofa em um dos quartos de hóspedes, aquela conversa não saia da minha cabeça.
Além de tudo ser muito louco, aquela guerra entre o céu e o inferno que estava prestes a estourar me deixava naquele eterno dilema: de que lado eu estava?
Estava com Aurélia, claro.
Mas meu corpo ainda parecia guardar vestígios da luta contra os demônios na água, todo aquele poder, a sensação de queimar o seu inimigo...
Ah, porra, eu havia nascido pra isso.
Destruir. Queimar. O poder e a força eram atraentes demais pra mim, sempre foram.
Escutei o barulho da porta do quarto se abrindo e fechando. Me sentei na cama e vi Aurélia parada na porta, com olhos inchados e rosto vermelho.
- O que...?
- Félix – começou ela, fungando. – Estou me sentindo mal...
A olho, preocupado.
- O que há com você? Aconteceu alguma coisa?
Ela se aproxima, cruzando os braços.
- Aconteceu, sim. – Diz ela. – Meus poderes estão estranhos. Tem horas que eu me sinto fraca... Como se eles quisessem desaparecer. E bem agora, quando tudo isso está acontecendo por aí...
Sentei mais na beirada da cama, seriamente preocupado. Ou aquilo seria TPM?
- Lila, relaxa... Você só está...
Ela me encarou com desprezo.
- Cale a boca, Félix. – Diz ela, repuxando os lábios. – Eu não preciso de conselhos. Eu só preciso de você.
Ela me empurrou contra o colchão e deslizou sobre mim como uma pantera antes de destroçar a vítima. Mas tudo o que ela fez foi me beijar, mordendo meus lábios e puxando, passando as unhas pelo meu pescoço.
Nossa...
A puxei, roçando a pele dela por baixo da blusa, realmente apreciando aquela explosão sentimental.
Rolei sobre ela e me afastei.
- Félix... – Fungou ela, fechando os olhos. – Eu preciso disso. Agora. Preciso me sentir segura. Vem...
- Querida – eu digo, roçando meus lábios nos dela. – Eu entendo. Não se preocupe. Eu estou aqui... Me dê só um minuto.
Com muito esforço me afastei dela e corri até o banheiro, escovando os dentes com uma mão e procurando por preservativos na mochila com a outra, em questão de segundos.
Sorri para o espelho, já me livrando da camiseta, e voltando para o quarto.
- Lila... Cacete!!!
Meu sorriso morreu.
O pavor me congelou, me calou: era como ter gelo da garganta até o estômago.
Aurélia estava na cama, mas não do jeito que eu a havia deixado. Ela estava totalmente retorcida, em uma posição digna de uma contorcionista.
Os joelhos dobrados pra cima, os braços enrolados para trás e o pescoço torcido de forma bizarra. Assustadora.
Meu cérebro disparou para as imagens de filmes de terror que eu havia assistido durante toda a minha vida, dos mais antigos até os mais modernos e trashes.
Eu, terrivelmente, sabia o que era aquilo.
Engoli em seco.
- Lila?
Ela nem se moveu.
Os olhos dela, entreabertos, estavam baços, totalmente brancos. Senti mais calafrios do que poderia contar.
Minha namorada, minha angelical namorada, estava possuída.
E eu sabia, eu sabia... Que aquele era o sinal.
Era o começo de tudo.
Se eu fosse capaz, teria começado a rezar.

CONTINUA

3 comentários:

  1. OMG! O que vai acontecer com a Lila?! O.O Continua?! bjs.

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  2. giovanna amo todos os seus contos principalmente o diario de uma bad girl eu lia e escutava a musica sober da pink kkkkkkk mas eu queria postar a serie numa pagina que chama mundo macabro no face e eu queria sua autorização pra postar e claro que eu vou dar os creditos pq eu não sou plagiadora então por favor responda.

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  3. Laura, eu conheci a página recentemente... Bem, se você quiser me ajudar a divulgar o blog, postando os links e sinopses nas redes sociais, eu agradeceria muito...
    Porém, quanto a publicar qualquer texto em outros locais, não estou de acordo. Eles são exclusivos do Contos & Caprichos ou outros sites em que eu mesma posto, como o Sobrenatural.Org e o Recanto das Letras.
    Mesmo assim, obrigada pela atenção, e seja sempre bem-vinda à minha página! ;)

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