quinta-feira, 2 de maio de 2013

A BOA MOÇA

    A Boa Moça sempre foi muito bem educada.
Inteligente, tímida e comportada.
Nunca deu trabalho aos pais. Dava ótimos conselhos para as amigas. Tirava as melhores notas da escola.
Nunca teve namorado, não dava muita bola para isso.
Só que a Boa Moça guardava um segredo.
A Boa Moça, ultimamente, estava infeliz.
No meio dos seus livros, dos seus CD’s da Legião Urbana, por trás daquela máscara de gentileza, havia uma rebelde.
Havia alguém que queria, precisava de mais do que simples elogios e consciência limpa.
A Boa Moça ansiava por viver.
E ela admirava tanto aquelas pessoas cheias de atitude, que não ligavam muito para as regras, que não tinham medo de ousar.
E se olhava no espelho, desejando pintar os cabelos, fazer uma tatuagem, se transformar, se metamorfosear.
Mas ela não se atrevia.
Nem era tanto pelo o que os outros iam pensar.
Era por ela.
Desde sempre, ela fora a Boa Moça. Passava as meias e calcinhas a ferro. Fazia o mesmo corte, no mesmo salão, a cada três meses.
Comprava roupas nas mesmas lojas.
Se ela começasse a seguir outro caminho, colocasse um piercing, fizesse uma tattoo e se tornasse uma rockeira descolada, tudo isso mudaria?
O medo era sempre maior.
Talvez loucuras não fossem pra ela.
Talvez fosse uma coisa para admirar de longe.
Afinal, ela era a Boa Moça.
Quem garante que mudanças não a tornariam alguém ruim? E se tudo aquilo fosse mau mau mau, uma tentação, frescura adolescente, coisa passageira?
E essa história, essa batalha dentro da cabeça ajuizada da Boa Moça, se repetiu umas 500 vezes.
Até o dia em que a Boa Moça se cansou de vez.
Chega de ser sempre a mesma Boa Moça, mas isso não significava se tornar uma vilã.
Ergueu a cabeça.
Sem violência, sem rebeldia exagerada, apenas uma questão de parar de assentir calada e concordar com tudo.
Começar a se impor, a opinar.
A dizer o que pensava.
A mostrar para as pessoas que ela não era uma espectadora da vida.
Se permitir comentar sobre os livros que lia e amava, com toda a paixão que tinha direito.
Sem medo de se expor.
Ela começou devagar, e aos poucos foi gostando daquilo. Aos olhos de muita gente, ela se tornara mais interessante.
E ela percebeu que aquela era a verdadeira Boa Moça. Ela não havia mudado, apenas havia libertado o que estava guardado há muito tempo.
Ao invés de mudar sua aparência, tentar imitar alguém, ela estava, pela primeira vez, abrindo as asas e descobrindo quem ela realmente era.
A mudança se fez notar mais do que qualquer tinta no cabelo ou desenho na pele.
Ombros curvados nunca mais.
Sua voz agora era clara e alta.
O mundo não é um mar de rosas. Mas em vez de ficar se remoendo e se preparando para ele, é bem melhor quando deixamos que ele se prepare para a gente.
A Boa Moça continua com sua aparência “comum”, mas seu jeito de ser é exótico.
Porque ela finalmente está sendo quem sempre quis ser.

2 comentários:

  1. caramba giovanna, parece que eu estava lendo a minha vida vc descreveu td, mas o pior msm é a insegurança e o medo de mudar. eu acho q nunca vou conseguir deixar ser a boa moça insegura.

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  2. E aí que está, Tammy... Você não precisa mudar. Apenas precisa ser você mesma. XD
    Sei que você já deve ter escutado isso milhares de vezes, mas é verdade.
    Quando for o momento certo, você vai descobrir que essa insegurança é desnecessária e vai conseguir vencê-la. ;)
    Faz parte da vida o medo de não sermos aceitos, mas o desafio de vencer esse medo também faz.

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