quarta-feira, 1 de maio de 2013

A GAROTA DE CABELO VERDE

   A Garota de Cabelo Verde subiu no ônibus, pagou o valor da passagem, colou o rosto no vidro da janela.
Mascou o mundo em um chiclete, xingou a todos mentalmente.
Em volta, muitos a olhavam.
A tiazinha cheia de sacolas:
Mas que menina estúpida, tão boba e insensata...
A mulher de saltos altíssimos:
Olhe-para-a-cor-do-cabelo-dela-verde-pelamorde-Deus...
O homem careca camuflado em jornais:
Nunca nunca nunca vai arrumar um emprego descente com esse cabelo.
A Garota de Cabelo Verde ia lendo os pensamentos deles, e os dela iam se projetando no rosto, no olhar, nas mãos atrapalhadas segurando a mochila, nos fios cor-de-floresta...
Porque todo mundo estava na porcaria do ônibus. Haviam pagado o mesmo valor pelo horrível serviço de transporte público. Todos eram de classe média pra baixo. E ao invés de cuidarem da droga de suas vidas-lixo faziam questão de encará-la, sujá-la com os olhares reprovadores, e toda aquela babaquice-careta-de-sempre.
Que mundo é esse?
Ela era jovem, amava música e tinha belos cabelos verdes. Porque isso os incomodava tanto?
Ela ia à escola, se apaixonava e se ferrava, tinha momentos bons e ruins com os pais, tinha amigos, dias bacanas e dias que eram um saco, uma adolescente como qualquer outra.
Só que tinha cabelos verdes.
Todos os dias, em todos os lugares, era sempre a mesma merda.
Ela é tãaaaao estranha!
Nunca vai arrumar um namorado.
Ela é louca...
E aquele turbilhão de frases no ar continuava, e a Garota de Cabelo Verde tinha cada vez mais vontade de gritar, se partir ao meio, sumir pra sempre.
Deve ser punk. Deve ter uma gang... Deus que me livre.
Gente que faz isso só quer aparecer...
Eu quero PAZ!
É só isso que eles tinham a pensar? Só isso? Era o máximo que todas aquelas mentes limitadas conseguiam concluir?
Hey, você é perfeita. Um diamante raro e verde. Seja minha...
Ah, aquele olhar.
Aquele era diferente de todos os outros passageiros do ônibus. Das pessoas da rua. Aquele olhar dizia o que ela queria ouvir.
A Paz que ela tanto queria passou pela catraca do ônibus. Trazia um violão envolvido na capa, uma tatuagem no braço e cabelos escuros apontando para o alto.
A Garota de Cabelo Verde descolou o rosto do vidro da janela enquanto ele vinha na direção dela e se sentava ao seu lado.
Ele sorriu.
Sem dizer nada, ela o beijou.
Todos pararam de encarar.
Se calaram.
Ficaram envergonhados. Com inveja. Eram pessoas solitárias. Podiam criticar a Garota de Cabelo Verde e o Tatuado enquanto estivessem sozinhos, mas não os dois juntos.
O Tatuado ficou orgulhoso de si mesmo. Aquela garota incrível o estava beijando, assim, do nada! Ninguém ia acreditar quando ele contasse...
E ela?
Ah, a Garota de Cabelo Verde estava apaixonada.
Não pelo Tatuado, mas por ela mesma.
Dane-se o lixo social.
Danem-se os pensamentos injustos, os olhares nefastos, as acusações não verbais.
Ela era poderosa. Guerreira. Tinha atitude. E cabelos verdes.
A Garota de Cabelo Verde ia mudar o mundo.

4 comentários:

  1. Obrigada! *-*
    Em breve mais mini-contos desse tipo na categoria "Estilosos e Oprimidos" ;)

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  2. Adorei, o texto ficou perfeito, o novo visual do blog esta fantástico.

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