quinta-feira, 23 de maio de 2013

A GAROTA ZUMBI

A Garota Zumbi está de volta, e não se fala em outra coisa.
Ela caminha pela rua com as mãos nos bolsos do moletom, o coturno chutando pedrinhas, o piercing no septo brilhando.
Eles a haviam enterrado, mas não havia sido fundo o suficiente: ela havia saído do buraco.
O inverno era rigoroso com ela, seu corpo frágil e magro se curvava, trêmulo.
As cicatrizes no pulso estavam sempre a mostra, para quem quisesse ver, para quem duvidasse.
Às vezes, a Garota Zumbi caminhava até o parque. Se sentava no velho balanço debaixo da velha árvore e relembrava a velha história.
A velha história da sua vida jovem, uma vida que se prolongou demais, que continuava por engano.
Por que será que o Destino erra de vez em quando?
Ela viu seu pai morrer. Ela viu sua mãe beber. Viu uma família se desmanchar em luxos e prazeres vazios.
Ela conheceu de perto a miséria do dinheiro, a futilidade das pessoas, as mãos bobas de pervertidos em uma mesa de pôquer na sala.
A Garota Zumbi não encontrou uma saída.
Quando percebeu o que estava fazendo, seu suéter já estava manchado de sangue, e sua mãe gritava para que derrubassem a porta do banheiro.
Não ia dar tempo.
O vento na janela chamou-a pelo nome.
A Garota Zumbi correu, fechou os olhos, pulou - não necessariamente nessa ordem.
Gritou de dor quando seu tornozelo se quebrou, sem entender porque o resto dela ainda estava inteiro.
Não era alto o suficiente...
Era o banheiro do segundo andar.
No meio da gritaria, percebeu que seu coração ainda batia, mas sua alma já era. Estava morta, suicidada.
A cidade inteira ficou sabendo.
A Garota Zumbi deixou a humanidade pra trás.
Agora era uma morta-viva.
E aquela clínica de tratamento ridícula, com remédios que a deixavam idiota?
Sua vontade era mastigar artérias, devorar cérebros e massacrar a humanidade.
Ela havia buscado o fim por não aguentar mais aquela história.
Aquele livro de capa enganosa e páginas rabiscadas, o que tinha para ler ali? Nada.
Mas eles não a deixaram ir.
Não a deixavam em paz...
Ah, Deus... Pelo menos agora ela havia aprendido.
Você pode cortar os pulsos e pular do segundo andar, eles não vão te deixar em paz.
Pode gritar suas aspirações, eles não vão te deixar em paz.
Você pode cantar sua arte e sorrir, eles ainda não vão te deixar em paz.
Você pode mandá-los se ferrar e não se importar.
Eles não vão te deixar em paz, mas quem liga?
A Garota Zumbi despertou.
Se inclinou no balanço, começou a balançar cada vez mais alto.
E alcançou o céu.

5 comentários:

  1. Eu adoro o jeito como suas histórias acabam, em maioria, num duplo sentido muito bem colocado, sério! Haha, a quanto tempo, né? Faz muito tempo desde o meu último sinal de vida, ainda estava no DBG ^^
    Mas eu voltei, apenas para comentar-te, história linda o/
    Não pensa nunca que eu esqueci de tu, tá? (Acho que você não se importa muito comigo, mas bem.) Porque eu entrei umas 17 vezes no painel do blogger esses dias só pra ver se você já postou mais um conto u.u/
    Sério, entrei mesmo '-'
    Beeeijo de uma fã antiga, Pamela <3

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    1. Pamela, como eu não vou me importar com você?
      Nossa... Pra mim, cada pessoa que acessa esse blog, que deixa um comentário, que dá um "curtir" na página do Face... Pra mim todas são muito especiais e queridas, de verdade...
      Vocês, que eu nem conheço (a maioria mora longe, em outro estado), são o motivo de eu continuar escrevendo, sempre tentando melhorar me aperfeiçoar...
      Obrigada por cada visita e comentário, pelo apoio, pela força... Cada texto que publico aqui é para entreter vocês ;)
      Beijos XD

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  2. Adorei o texto Giovanna!! Mas eu preciso ser chata e perguntar se você já tem data para postar: FÉLIX, O EXORCISTA e A Sétima Encruzilhada. Sou muito apaixonada por elas.
    Bjs.

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    1. Carla, lamento por deixar vocês esperando, tive alguns probleminhas "técnicos" rs...
      Mas muito em breve estarei postando, pode deixar... XD

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    2. Tudo bem :D é que a curiosidade pela continuação está me matando. hahaha

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