domingo, 5 de maio de 2013

A MENINA TERRÍVEL

A Menina Terrível sempre deu trabalho.
Em casa ou na escola.
Quando pequena, era geniosa e teimosa.
Agora, em seus 16 anos, ninguém a segurava.
Sua mãe subia pelas paredes quase todo santo dia. A Menina Terrível voltada tarde pra casa, cabulava aula e andava com más companhias, gente mais velha, uma legião de drogadinhos e vagabundos, segundo os vizinhos.
A Menina Terrível usava coturno, shorts curtos, e havia feito uma tatuagem de âncora no braço, sem a permissão da mãe.
Amarrava uma bandana na cabeça, parecia uma marginal, nenhum dos seus professores aprovavam.
Apesar das falhas, entendia muito de química, física e matemática. Era uma calculadora humana. Ninguém sabia como, nessas matérias ela sempre era a melhor da classe.
A Menina Terrível não tinha namorado, não queria ter dono, curtia com os amigos.
Às vezes bebia, mas nunca ficava bêbada. Mesmo tão jovem já sabia beber como um marinheiro velho, e por isso tinha a tatuagem de âncora.
Quando saia um filme novo no cinema, ela e sua turma da pesada sempre davam um jeito de entrar sem pagar, zoavam durante a sessão, às vezes eram expulsos.
A Menina Terrível não passava um dia sem rir, nunca se estressava por nada.
Um dia, a Menina Terrível recebeu uma visita especial.
Chegou em casa de madrugada, depois de uma balada, e sua mãe estava com lágrimas nos olhos.
Hey, filha... Adivinha? Seu pai está aqui. Ele voltou. Ele quer te conhecer.
E aquele sorriso loiro e idiota dela.
A alegria da Menina Terrível morreu.
O mundo dela caiu.
Vislumbrou um sujeito alto na sala, se levantando e vindo na direção dela.
Só isso.
Com uma exclamação de espanto entalada na garganta, a Menina Terrível saiu correndo.
Correndo o mais depressa que podia.
Correndo embaixo da chuva.
Correndo, e deixando vozes chamando pelo seu nome lá para trás.
Correu até ficar totalmente encharcada, sem fôlego, exausta, derrotada, quase sem forças.
Parou.
Estava na estação de trem abandonada, tudo em silêncio, fazendo escuro, só ela e os ratos.
Apoiou as mãos nos joelhos.
Respirou depressa.
Pensou que ia vomitar.
Sentiu tontura.
Caiu de joelhos na lama.
Santo Deus, Santo Deus...
O que sua mãe havia dito?
Pai?
O pai dela? O desaparecido-que-nunca-se-importou-nem-nunca-a-visitou-em-dezesseis-anos-maldito-pai?
Ela repetia a palavra em voz baixa, mas não conseguia associá-la a nenhuma imagem ou significado.
P-A-I.
Eram apenas três letras.
O que era um pai?
A Menina Terrível apoiou as mãos na terra. Arrancou grama com os dedos enlameados.
Urrou.
Pai? Que direito ele tinha de ser seu pai?
Depois de todos esses anos...
Depois de tantas dificuldades que só a mãe enfrentou, sozinha, a mãe com a filha.
Começou a se arrastar, engatinhar pela lama.
Ela fora uma Menina Terrível o tempo todo.
Era uma fugitiva, uma pequena vândala, mas sempre fora leal. Sempre leal aos seus princípios. E isso significava nunca decepcionar ninguém.
Sendo uma gata noturna, um pesadelo, assim nunca ninguém criaria expectativas sobre ela.
A Menina Terrível chegou até o velho trilho do trem, e se deitou sobre o ferro e as pedras frias, na chuva, na escuridão.
Pai...
Quantas cartinhas não enviadas. Quantas festinhas de escola terminadas em lágrimas. Quantas cenas de filmes ela não quis ver. Quantas visitas que nunca aconteceram.
Não havia ninguém na estação abandonada.
Como sempre, ninguém havia se aventurado na chuva, atrás dela. Ninguém a procurava.
Ela fechou os olhos.
E ficou esperando.
E sentiu quando um trem do passado finalmente veio e passou por cima dos seus sentimentos.

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