sexta-feira, 3 de maio de 2013

FÉLIX, O EXORCISTA - 7

7. Na Igreja 

Tic-tac, tic-tac. Tic-tac...
O relógio de pêndulo da sala parecia fazer uma espécie de jogo cruel com os meus nervos.
Derek estava sentado do outro lado do cômodo, olhando para os pés. Eu havia contado tudo pra ele, tudo junto e misturado, e acho que agora ele estava decidindo se ia pirar de vez ou se matar.
Não estava chovendo, mas relâmpagos cortavam o céu toda hora, e ao longe trovões rugiam de uma maneira sinistra, mas nenhum deles me assustava.
Porque eu sabia que o meu maior pesadelo estava no quarto ao lado.
Meu estômago estava ácido, e toda hora minha vista escurecia como se eu estivesse prestes a desmaiar.
Sabe, eu achei que a pior fase da minha vida tinha acabado.
Achei que depois de ter estado no inferno, literalmente, não podia piorar.
Descobri que pode.
Apoiei minha cabeça nas mãos.
Tive até vontade de chorar.
Como aqueles filhos da puta se atreviam a se meter com ela? Ela era tão doce, maneira, linda e preciosa. Tão única. Tão minha.
E agora, de alguma forma, eles a tinham...
Outro relâmpago, seguindo por um novo trovão estrondoso.
O Sr. Santoro saiu do quarto, e eu me levantei na mesma hora.
Ele estava pálido e trêmulo, como qualquer pai que acabou de ver a própria filha possuída.
Mais náusea.
- Então? – Indago, sofrendo.
Ele me olha como se não estivesse me vendo, depois começa a falar devagar.
- Não sei... Eles a tomaram. Dominaram meu anjinho... Eu não consegui falar com ela. – Ele fez uma pausa, com a testa cheia de vincos. – Então... É por isso.
- O que? – Pergunto, sem entender.
- É por isso que há tantos demônios em Fatalville. Esse é o sinal. Nunca se ouviu falar, em toda a história, sobre um anjo possuído por um demônio. Aurélia é o centro disso tudo...
Ficamos em silêncio.
Ele tampou o rosto com as mãos e começou a chorar.
Ah, eu não ia ficar parado.
- Temos que fazer alguma coisa. – Digo, me adiantando na direção do quarto. – Temos que ajuda-la! Agora!
Ele me segura pelo ombro.
- Não. – Diz. – Você vai apenas irritá-lo. E ele vai machucá-la...
- Não podemos ficar de braços cruzados, porra! – Grito.
Nos encaramos.
- Precisamos de um padre. – A voz de Derek quebrou o silêncio.
Eu tinha até me esquecido dele.
- Um padre? – Indago, e de repente parecia meio óbvio.
- O Padre Vicente da igreja perto de casa tem permissão pra fazer exorcismos. – Continuou ele. – Ele até tem um papel assinado pelo Vaticano e pá.
- Acha que ele ainda está na cidade? – Pergunto, nervoso com aquela ideia. Não gosto muito de padres, mas podia ser importante.
- Não custa tentar. – Diz Derek, coçando o cabelo loiro.

***

Liguei o carro do Sr. Santoro na garagem.
Derek desceu logo depois, com uma faca de cozinha na mão e uma corrente de alho enrolada no pescoço.
Revirei os olhos.
- Onde estão os vampiros? – Pergunto, assim que ele entrou no carro.
- Cara... Do jeito que as coisas estão... É sempre melhor prevenir do que remediar.
Dou de ombros, começando a dirigir embaixo da chuva, o que era um saco. A cada curva eu sentia que ia derrapar.
- Caralho... Você dirige mal pra caramba. – Diz Derek, colocando o cinto de segurança.
- Ah... Cala a boca. – Resmungo, trincando os dentes.
Pior que ele estava certo.
Sorte que as ruas estavam vazias.
Estava escuro e a porra da chuva atrapalhava muito a minha visão.
Quando viramos uma curva, Derek gritou.
- Cuidado, cara!
Freei bruscamente, quase batendo a testa no painel do carro.
Havia um menino na rua, e eu quase o havia atropelado.
Sai do carro, me ensopando com a chuva, e corri para ele. Devia ter uns oito anos, estava parado diante do carro, aparentemente morto de susto.
- Você tá legal? O que está fazendo na chuva? Onde estão os seus pais?
Coloquei a mão no ombro dele.
E me afastei no mesmo segundo.
Ele estava quente. Muito quente.
Quente demais para qualquer ser humano normal.
O menino levantou os olhos pra mim, e percebi que eles estavam baços. Exatamente como os de Aurélia.
Antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, o menino, com uma força muito além da capacidade de uma criança, pulou sobre mim e abriu a boca em um urro grotesco, medonho, exibindo uma língua longa e bifurcada.
-Onde ela essstá? – A voz que saiu da boca do garoto era rouca e sussurrada, como de uma cobra seria, talvez.
- Não é da sua conta! – Digo, tentando empurrá-lo. Parecia até que a criança era eu.
- Você a perdeu... Ela é nossssa... Esssssa cidade é nosssa... Tudo ssssserá nosssso...
Consegui derrubá-lo no chão.
A raiva me tomava, mas não deixei os meus poderes infernais agirem dessa vez.
Eu sabia qual poderia ser a minha maior força contra aquele demônio protegido por um corpo humano.
Senti as plumas das minhas asas ficarem pesadas ao se encharcarem com a chuva.
E, antes que eu pudesse pensar no que estava acontecendo, senti o peso do metal em minhas mãos.
Minha espada divina.
Era super foda, feita de algum tipo de metal escuro, muito provavelmente desconhecido na Terra.
Um relâmpago cortou o céu.
Nos breves segundos em que ergui a espada, pude ver o reflexo do pânico nos olhos baços da criança-demônio...
- Nãooooooo!
Derek apareceu no meu caminho, rolando na lama, ralando os joelhos e enrolando os braços do menino com a corrente de alho.
- Que droga você está fazendo? – Pergunto.
- Você ia machucar o moleque, Félix... Ai! – Diz ele, lutando para manter o menino imóvel.
- Isso não é mais uma criança! – Grito.
- Eu sei, cara. – Diz Derek, tampando a boca do pirralho, que tentava mordê-lo. – Mas pode voltar a ser... Fique quieto!
Reviro os olhos, mas sou obrigado a concordar.
Seguro as pernas do menino e Derek segura os braços, e juntos o colocamos no porta-malas do carro.
Molhados até os ossos, prosseguimos viagem.
No meio do caminho, Derek pigarreou.
- Hey, Félix... Pode ser viagem minha... Mas tenho a impressão de que estamos sendo observados, cara.
-Não, não é viagem sua. É pra valer, cara.
Eu já havia percebido a movimentação de vultos dentro das casas, e breves brilhos de olhos vermelhos nas sombras das janelas.
Eles não ousavam se aproximar de mim depois de verem a minha espada ameaçadora, mas não seria assim para sempre.
Eles estavam se reunindo.
Estacionamos em frente à igreja, que tinha as enormes portas fechadas.
Nos entreolhamos e avançamos correndo embaixo da chuva, subindo as escadas da entrada.
Para a nossa sorte, as portas estavam destrancadas.
Entramos.
Para falar a verdade, eu nunca havia estado em uma igreja antes.
O grande salão cheio de bancos enfileirados e imagens de santos estava iluminado apenas por velas, muitas velas.
Derek fez um atrapalhado sinal da cruz, eu apenas olhei para o horizonte, encarando o grande quadro de Jesus Cristo sem me abalar.
- Não tem ninguém aqui. – Digo, coçando a nuca.
- Vamos olhar lá dentro. E lá que o padre fica.
Fomos até um cômodo ao lado do altar, onde ficava o confessionário.
Mas estava vazio.
- Temos que olhar os registros! – Dizia Derek, exasperado. – Deve haver algum telefone! O padre não pode ter abandonado a cidade agora... Talvez tenhamos que trazer Aurélia pra cá... O que acha?
Eu não achava nada.
Estava olhando para a pequena recepção do confessionário, onde havia um banco, um aquário e um ventilador de teto.
Provavelmente era ali que os fiéis esperavam para se confessarem.
- Cara...? – Derek me cutucou, e olhou o que eu olhava. – Ai... Cacete!
Ali estava o padre.
Pendurado pelo pescoço por uma corda amarrada em uma das hélices do ventilador.
Seu corpo pendia girando devagar, e havia uma cadeira tombada aos seus pés.
- Já era. O padre se matou. – Digo, sem emoção.
- Como assim?! – Berra Derek, ainda em choque, enquanto nos dirigíamos para a saída da igreja. – Ele é o padre! Não sabe que suicídio é pecado?!
Não respondo, já pensando em como iríamos fazer agora. A quem poderíamos recorrer para salvar Aurélia?
Abri a porta, mas me detive.
Derek parou de falar.
Não estávamos sozinhos.
Embaixo da chuva, parados, totalmente encharcados e com os braços caídos ao lado do corpo, estavam os cidadãos de Fatalville.
No mínimo umas cinquenta pessoas diante da igreja.
Todos olhavam para nós com olhos baços.
Todos sorriram mecanicamente, malignamente.
- Cara... Acho que me borrei agora. – Sussurrou Derek.


CONTINUA

6 comentários:

  1. The Best, The Queen....
    Motherfycker! Its Crazy!

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  2. Oh my God... Ainda não sei o que dizer sobre o capitulo, só sei que se antes eu já era curiosa agora ficou pior, continua, por favor!!

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  3. Meu deus! Esse capitulo foi simplesmente incrível *-*
    Eu acho q só comentei duas ou três vezes no seu blog(questão de timidez sabe? u.u LOL), mas eu não podia deixar de dizer q vc se superou nesse sério, foi perfeito!
    Parabéns! ><

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  4. Ah, gente...
    Obrigada! *----*
    Cada visita, cada comentário de vocês, me faz feliz, de verdade :D kkkkkkkkkkkkk
    Me dão ânimo para prosseguir O///

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  5. continua, pleeeeeease, a quanto tempo que eu não lia szsz
    preciso de continuação ;3

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