terça-feira, 28 de maio de 2013

FÉLIX, O EXORCISTA - 8


8. Exorcismos

Nos fechamos novamente na Igreja.
Eu sabia que estar na “Casa de Deus” não ia nos proteger por muito tempo. A Igreja se tornava apenas um símbolo quando não havia fé.
- E agora? – Derek perguntou, com uma voz nervosa.
- Sei lá, cara... – Comecei, tentando pensar.
Um estrondo no teto da igreja nos fez pular de susto.
Mas era um anjo, que havia atravessado o vitral da igreja, e pousou diante de nós com as asas abertas.
Era um anjo muito mais novo do que o meu pai. Na verdade, deva ser pouca coisa mais velho do que eu, pelo menos aparentemente.
Derek ficou de boca aberta por alguns segundos, depois praticamente se jogou aos pés do anjo.
- Deus seja louvado! Aleluia! Seu Anjo, me perdoe por beber, por dormir com garotas antes de casar e nunca ir pra igreja! Prometo que não faço mais! Prometo!
O anjo olhou pra mim, estranhando um pouco aquilo.
- Tá... Cara. - Disse para Derek, depois voltou a me encarar. - Você é o Félix?
- Sou. - Respondo.
- Eu sou Isaque. - Diz ele. - O seu pai me pediu para te dar um recado. Todos nós já estamos a par da situação... Da garota. Aurélia.
Passei a mão pelo rosto.
- Vocês podem ajudar, não é?
- Nós, não - responde ele. - É com você. Quando um demônio possui alguém, os anjos não conseguem atingi-lo sem machucar essa pessoa, apenas mantê-los afastados, pois eles usam o corpo do humano como escudo para nos atacar. Mas você... Você não é totalmente um anjo...
Franzo a testa.
- Certo. - Digo. - Que recado você tem do meu pai?
Isaque pensa um pouco.
- Ele disse que você deve tentar se comunicar com ela, por mais que a entidade tente atrapalhar... Se foque em Aurélia, esqueça o demônio, por mais coisas absurdas que ele diga... Ah, ele também disse que confia em você.
Reviro os olhos.
- Que coisa mais gay... - Resmungo, dirigindo-me para a saída da igreja.
Derek pula no meu caminho.
- Espera! Cara... E aquelas coisas lá fora?
- Não estão mais aí - responde Isaque. - Conseguimos afastá-los por enquanto. Não temos muito tempo, mas vamos tentar trazer as pessoas que ainda estão livres pra cá. Você tem que ir agora, sem o carro, para não chamar muita atenção.
- Que ótimo, agora estamos no The Walking Dead - resmungo, mas já pronto pra correr.
- Cara... Quer que eu vá com você? - Pergunta Derek, embora estivesse apavorado.
- Não.  - Respondo. - Valeu, mas minha garota precisa de mim.
Demos uma batida rápida nas costas um do outro, despedida de macho.
Sai da igreja, descendo os degraus de pedra de três em três. Realmente, não havia ninguém a vista. Corri pelas ruas enlameadas, quase escorregando, chegando perto de derrapar nas curvas.
Acho que nunca corri tanto na minha vida.
As vezes eu escutava um grito ou outro vindo das casas, mas nem pensava em ir ajudar... Podia ser uma armadilha. E Aurélia era quem mais precisava de mim agora.
Quando olhei para a Mansão Santoro, tive que esfregar os olhos.
Meu corpo inteiro gelou.
As janelas e portas estavam todas escancaradas.
As cortinas vermelhas esvoaçavam para fora, balançando com o vento forte, e todas as luzes estavam apagadas.
Engoli em seco.
Aurélia... Eu precisava ir em frente por ela.
Me sentindo uma daquelas pessoas burras que morriam pela idiotice nos filmes de terror, entrei na casa.
A sala estava deserta, escura, e haviam algumas folhas pelo chão, que haviam sido arrastadas do jardim pelo vento.
Só havia um pouco de luz sobre a escada que levava para o andar de cima.
Assim que cheguei no meio da sala, a porta atrás de mim se fechou com um estrondo de fazer tremer os ossos.
Droga...
O que quer que fosse, aquelas coisas sabiam que eu estava ali.
E queriam brincar comigo.
- Eu vim buscar Aurélia - digo, em voz alta. - Não quero lutar contra ninguém. Nem interferir no que vocês estiverem fazendo. Eu só quero a garota.
- Você sempre quer essa garota - disse uma voz familiar, vinda do canto escuro. - Já parou pra pensar em como tudo seria mais simples se você tivesse deixado ela pra lá?
Nem paro para pensar.
Pego minha espada celestial e avanço contra Electra, aquela vadia de satã, sem pensar duas vezes.
Mas ela, ao invés de avançar, se encolheu e escondeu o rosto com os braços.
- Não, por favor! - A voz dela era apavorada.
Não desci a espada para partir o crânio dela ao meio, mas a puxei com a outra mão, derrubando-a no chão, aos meus pés.
Usei a luz da espada para poder vê-la.
E no começo, achei que estava vendo coisas.
- Mas que Diabos aconteceu com a sua cara? - Cuspi, sem disfarçar o nojo.
Electra estava horrivelmente horrorosa.
O cabelo loiro estava quase branco, cheio de falhas, e a pele do rosto estava mais do que enrugada: era flácida e manchada, como uma máscara de Halloween.
Totalmente broxante.
- Ainda bem que eu nunca fiquei com você. - Completo, enojado.
Ela me lançou um olhar de raiva.
- É tudo culpa sua! - Berra ela, ainda no chão. - Eu era poderosa. Ninguém podia me deter. E você podia ter ficado do meu lado...
- Pare de enrolar e diga de uma vez que porra aconteceu aqui. - Insisto.
- Eu possui sua garota, Félix! - Gritou ela, exibindo os dentes tortos. - Eu a dominei... Me disseram que eu poderia ter tudo o que eu quisesse se fizesse isso. Mas não. Eles perceberam que eu ia usar ela pra ter você. Então me arrancaram de lá, foderam com os meus poderes e ficaram com ela só pra eles...
Franzi minha testa.
- Foi você que possuiu a minha mina, sua filha da puta?
Ela coçou o rosto perebento com uma unha amarela e quebrada.
- Foi. Você não vê que eu fiz tudo por desejar você loucamente, Félix? Esqueça ela, eles nunca te deixarão levá-la embora. Você tem muito poder agora. É único. Me leve com você. Juro que logo me recuperarei e serei novamente uma Rainha, aquela que te deixava louco, ouriçado...
Ergo uma sobrancelha.
- Electra... Vai tomar no cu. Se eu não te dava mole antes, como eu poderia te dar alguma moral agora?
Ela estreitou os olhos caídos e enrugados.
- Vamos ver como sua amada putinha vai ficar depois que cem demônios esfolarem ela de dentro pra fora.
Foi. O cúmulo.
Ergui a espada e mandei ver.
Electra gritou, e escutei aquilo com prazer.
Quase sorri ao parti-la no meio, mandando-a para as profundezas do Inferno, onde ela ficaria por um bom tempo.

***
- Félix?
Esqueci da raiva.
Esqueci do demônio que havia acabado de exterminar.
Por um momento, eu me esqueci de tudo.
- Lila?
Ela estava no topo da escada, usando o roupão branco de sempre.
- Félix... Eu fiquei tão assustada. - Dizia ela, enquanto eu subia em sua direção, quase ficando de quatro na escada. - Eu... Estou com medo. Que bom que você chegou.
A puxei para os meus braços, e confesso que estava chorando.
- Lila... - Sussurrei, segurando o rosto dela entre minhas mãos.
- Eu te amo - choramingou ela, com as mãos no meu cabelo. - Eu te amo, Félix. Nunca mais me deixe sozinha...
- Nunca - prometi.
Ah, os demônios haviam ficado com medo.
Me haviam visto usar a minha espada para matar um deles, e haviam deixado a minha menina.
- Vamos embora... - Sussurrei, ainda sem coragem de soltá-la, guiando-a para a porta da saída. - Vamos para bem longe daqui. Você e eu. Quero me casar com você, Lila. Passaremos a vida inteira juntos...
- Você vai queimar.
- Não estou com estômago para piadas agora, Aurélia. - Admito, com franqueza.
- Você vai queimar no inferno, como deveria ter queimado da primeira vez, seu bastardo.
A olho, e percebo.
Percebo a minha ilusão.
Por sorte, consegui desviar da faca de cozinha que ela escondia no bolso do roupão, que só pegou de raspão, rasgando minha camiseta e fazendo um corte raso nas minhas costelas.
O susto me fez rolar a escada.
Olhei para cima mais decepcionado do que com medo.
O rosto dela... Já havia mudado.
As feições, a expressão.
O cabelo roxo flamejava ao redor do rosto dela, e os olhos estavam baços.
Ah, que ódio...
Bastou que eu olhasse para perceber que não era a minha Lila.
- Malditos... - Sussurrei.
- Nós vamos acabar com você, Félix - disse o couro de vozes roucas que saíram da boca de Aurélia. - Esqueça a Lila. Ela é nossa, agora. Como é saber que corrompemos o seu precioso anjo?

CONTINUA


4 comentários:

  1. Que dó do Félix, ele só se ferra >.>
    Sorte passou longe quando ele nasceu ein? LOL

    Tomara q a Aurélia fique bem logo, tadinha ><

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  2. Po sempre acaba na melhor parte hehehe

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  3. Deu um aperto no coração agora, coitado do Félix... a Lila vai voltar ao normal né?
    Continua, Giovanna.

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  4. Pois é...
    O Félix é "o cara", mas a vida dele não é fácil...
    Logo vou postar o próximo, prometo que dessa vez não vai demorar muito como demorei dessa última vez XD

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