quinta-feira, 2 de maio de 2013

O CARA SEM CORAÇÃO

    Antes, o Cara Sem Coração era apenas um Cara.
Antes, ele era romântico, doce, e tinha um coração adorável e irresistivelmente suculento escondido atrás de um visual sombrio.
Meio gótico, se vestia em negro, tinha um piercing na sobrancelha e passava horas escrevendo suas poesias obscuras e tragicamente românticas no cemitério da cidade.
Amava a vida, mas também amava os mistérios da morte.
O sobrenatural, o além... Era um fascínio, uma paixão.
Um dia o Cara Sem Coração conheceu uma garota que o marcaria para sempre.
Ela era da escola dele, um ano mais nova, tinha olhos azuis enormes e era simplesmente a criatura mais linda que ele já havia visto, desfilando ao lado de suas amigas delicadas, como um bando de borboletas.
E ele soube que precisava tê-la ao seu lado.
E ela nem sabia que ele existia...
O Cara Sem Coração fez planos.
Seus amigos góticos avisaram: ela não é pra você, cara.
Mas quem disse que ele os ouvia?
Mandava poemas maravilhosos e anônimos para ela, CD’s com suas músicas favoritas, dedicando-as à garota... E nada.
A garota ria, se aborrecia, ignorava.
Até que ela descobriu quem era o autor das cartas.
AimeuDeus com tantos caras na escola porque justamente o gótico-estranho-muito-estranho tinha que gostar de mim? Que horror... Como eu poderia olhar pra alguém assim?
Passado o asco, a garota quis brincar.
Apostou com as amigas.
Procurou o Cara Sem Coração, marcou um cinema.
O Cara se sentiu nas nuvens. Aquilo estava mesmo acontecendo? Seu amor platônico finalmente se tornaria algo concreto?
Como o sorriso dela era bonito...
Naquela noite ele colocou seu suéter favorito, ajeitou o cabelo, se arrumou o melhor que pôde para encontrá-la.
Esperou meia hora... Garotas sempre se atrasam!
Esperou uma hora... Deve ser o trânsito.
Esperou duas horas... Ela deve ter tido algum imprevisto. Porque não responde as mensagens?
Esperou três horas... E foi para casa.
No dia seguinte o Cara Sem Coração foi à escola esperando que sua doce musa estivesse bem, e bastante preocupado. Com certeza algo grave havia acontecido para que ela não aparecesse.
Para o seu alívio, ela parecia bem, rindo com as outras borboletas.
Ele se aproximou.
O sorriso dela sumiu. As amigas se afastaram cochichando e dando risadinhas. Os olhos azuis eram grandes, mas não gentis.
Ele perguntou, sem jeito, se estava tudo bem... Já que ela não havia ido ao cinema como haviam combinado.
Então ela começou a cuspir nele. Cuspir todo o veneno que guardava. Porque ela não havia ido? Porque era simplesmente impossível que uma deusinha como ela desse bola a um cara tão estranho, medonho, esquisito, fracassado, ridículo, idiota, babão, chiclete e pobretão.
Como ela sairia com alguém que escreve aqueles poemas cheios de palavras estranhas, grotescas, sem noção?
Ela era melhor.
Merecia coisa melhor.
No final do discurso, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela arrancou o coração dele com as unhas.
Arrancou e o mastigou com satisfação.
Aquele órgão doce, quente, pulsando.
Ela mastigava com gosto.
E depois de devorá-lo por completo, deu as costas ao garoto.
O Cara se tornou o Cara Sem Coração nesse momento.
Ficou cinza.
Fora ingênuo, caíra no jogo da vadia.
Era um maldito romântico.
Depois da aula, foi até a beira de um lago, sozinho, e se sentou lá, e viu o sol se pôr, e não chorou.
E fumou um cigarro, e apagou a alma.
Estava quebrado, revoltado, sem poder acreditar em como uma paixão adolescente podia ser tão catastrófica.
Se sentia indesejado, rejeitado, em pedaços.
Com um buraco enorme no peito, que demoraria para cicatrizar.
Pensou em vingança, pensou em, livre do feitiço do amor, colocar aquela vadiazinha de olho azul no lugar.
Mas não.
Não ia fazer isso.
Isso o tornaria igual a ela.
Infantil. Fútil.
E ele podia fazer melhor.
Conhecia a vida, e agora conhecia as dores do amor. A decepção com o mundo, as pessoas.
Manteve sua aparência sombria.
Continuou a escrever poemas.
Não sabia se um dia as coisas voltariam a ser como antes, se algum dia algo bateria dentro do seu peito outra vez.
Mas, por enquanto, ele se conformava.
Por enquanto, seria apenas um Cara Sem Coração.

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