sexta-feira, 7 de junho de 2013

FÉLIX, O EXORCISTA - 10


10. Por Bem Ou Por Mal

Fiquei parado ali, apertando o corpo dela no meu peito, por mais alguns segundos.
Ela era tudo o que eu tinha.
E agora havia partido.
Talvez eu tivesse ficado ali por uma eternidade, se não fosse pelos vultos entre as árvores.
Eram eles.
Os demônios que a haviam possuído.
Feito tudo aquilo com ela. Com a gente.
Agora se escondiam.
Agora estavam desprotegidos e fracos.
Por mais incrível que pareça, não explodi de raiva.
Não.
Eu podia fazer pior, muito pior.
Deixei Aurélia na beira do lago, e me dirigi para onde eles estavam.
Completamente frio. Completamente indiferente e vazio.
Senti as asas negras das minhas costas se desdobrarem.
- Mostrem-se. - Eu disse, em alto e bom som.
Lentamente, eles foram aparecendo.
Não tinham forma humana, mas sim de monstros. Não muito grandes, apenas feios o suficiente para inspirarem histórias e filmes de terror.
O céu ficou mais escuro.
- Ela está morta. - Eu disse, apenas. - Era esse o objetivo de vocês? Era isso que queriam?
Você sabe o que queríamos. O que queremos sempre.
As vozes não eram ditas, apenas ecoavam na minha cabeça.
E conseguimos.
- Não, não conseguiram - eu disse. - Ela se foi, mas haverão outros anjos. Haverão outras lutas. Vocês foram estúpidos por escolheram travar uma guerra que não podem vencer. Não dessa vez.
Mas não é esse o nosso papel? Sermos rebeldes como nosso Pai foi? E como você poderia saber quem está ganhando?
- Porque eu conheço os dois lados. - Respondo.
Sem hesitar, saquei minha espada.
E rompi o demônio mais próximo ao meio.
O grito dele ecoou quando ele se transformou em uma nuvem negra, e foi o sinal que eles esperavam para investirem contra mim.
Eu só era capaz de ver os borrões negros zunindo no ar, vultos desprendendo cheiro de enxofre e provocando cortes no meu rosto e braços toda vez que passavam por mim, como se fossem lâminas.
O gelo em mim explodiu.
Senti meu corpo faiscar, como se eu fosse um relâmpago.
Comecei a distribuir golpes de espada quase cegos.
Toda vez que um deles me cortava eu sentia a dor e ignorava.
Para continuar lutando.
E me parabenizava mentalmente quando conseguia acertá-los, escutava os berros dos malditos e os via desvanecer diante dos meus olhos.
Eu não me preocupava em me salvar ou não me ferir.
Eu apenas os matava.
Matava e liberava minha raiva gelada, justiceira.
Por um momento, a imagem do meu pai me veio a cabeça.
Louco. Insano. Havia perdido tudo o que amava e não conseguiria superar.
- Eu entendo você, pai. - Sussurrei para mim mesmo. - Eu entendo você, finalmente.
Não sei por quanto tempo lutei, só sei que, quando percebi, havia acabado.
Eu ainda estava de pé, mas só havia a fumaça preta, o rastro dos demônios. Eu havia exterminado todos eles.
Eu estava sangrando muito, e vi centenas das penas de corvo das minhas asas no chão.
Mas ainda estava vivo.
Por que?
- Hey! - Gritei, o mais forte que consegui. - Venham me pegar! Isso é tudo o que vocês conseguem fazer? Venham! Tentem me deter. Lutem, seus merdas!
Mas não houve resposta.
Cai de joelhos, soltando a espada.
Eu não queria continuar.
Não queria ter que me voltar e ver Aurélia no chão, nem me lembrar de tudo o que havia acontecido.
Também não estava preocupado com Fatalville, com o mundo ou com o que ia acontecer no futuro.
Fodam-se todos.
Eu preferia sangrar, agora.
Preferia que alguém me exterminasse.
- Tem certeza... - Disse uma voz atrás de mim. - De que é isso mesmo o que você quer?
Aquela voz...
Era mansa. Era comum.
Era familiar.
Eu já a havia escutado dentro da minha cabeça.
Ah, com toda certeza já...
Me virei, me levantando devagar.
Ele usava roupas pretas e gravata vermelha. O cabelo também era escuro, curto, mas os olhos não eram vermelhos.
Eram incrivelmente azuis.
- Félix - ele estendeu os braços como se estivesse diante de um velho amigo.
Não me mexi.
- Você sabe o que eu quero. - Digo, sem delongas. - Me dê. Cobre o seu preço e nos deixe ir. Continue mandando seus filhos possuírem pessoas...
Ele abre um meio sorriso.
Não era ameaçador.
- Acha que fui eu quem ordenou isso? Não, não... - Ele balançou a cabeça, ficando sério. - Meus filhos são rebeldes. Eu não queria humanos possuídos. Não me servem de nada. Os corpos são mutilados mas as almas são salvas. Sou da opinião de que devemos manter nossa classe. Todo demônio deve parecer atraente. É assim, só assim, que se condena realmente uma alma.
Permaneço em silêncio.
- Mas você os parou, Félix - continuou ele. - Fez bem. Gostaria que fosse totalmente um filho meu. Seria um demônio digno. Como sua mãe foi, apesar de, no fim das contas, ter cedido...
- Eu cederia também. - Confesso.
- Ah, sim - concorda ele. - A garota. Foi ela quem te puxou para o outro lado... Típico.
Suspiro.
- Você não pode fazer nada quanto a isso, não é? - Pergunto.
Ele volta a sorrir.
- Meu caro... Eu sempre posso fazer alguma coisa. Sempre fiz, durante toda a história da humanidade. Só depende da disposição da outra parte a negociar...
Um alerta se ascendeu em mim.
- Continue, Lúcifer.

***

- Lila?
Ela se espreguiçou na cama.
Parecia que havia me ouvido, mas estava com preguiça de responder.
Foi então que ela percebeu.
Abriu os olhos, sobressaltada, olhando em volta, e demorando um pouco para reconhecer o próprio quarto.
Sorri, sentado na cama ao lado dela.
- Não pode ter sido um sonho! - Foram as primeiras palavras dela.
- Não foi um sonho. - Digo eu, apreciando aquela visão que era de encher os olhos.
Ela se sentou na cama, ainda um pouco desnorteada.
- O que você fez? - Perguntou, séria.
- Quer mesmo saber? - Pergunto eu, a encarando maliciosamente, imaginando se ela já teria percebido meus olhos vermelhos.
DOIS olhos vermelhos.
- Oh, Félix... - Diz ela, balançando a cabeça e se levantando.
A vi atravessar o quarto, até o espelho da cômoda.
Percebi o choque de Aurélia quando viu o próprio reflexo.
- Ah, meu Deus... - Sussurrou ela, tampando a boca.
- Você está sexy. - Digo, sem conseguir parar de olhá-la.
E estava mesmo.
Um sapato passou voando, bem perto da minha cabeça.
Opa...
- Félix Brian Maya! - Gritou ela. - Vou matar você!
Mas eu não conseguia parar de sorrir.
Aquilo era demais.
Aurélia estava puta comigo.
Mas sei que vai me perdoar...
Sei que vai.

***

Seis Meses Depois

***

- Você tem muita sorte - dizia Derek, limpando a maionese do lanche do canto da boca. - Cara... Você é zica, Félix...
Dei um sorriso de canto.
Nunca pensei que iria dizer isso, mas era legal estar na escola de novo.
Era inacreditável a rapidez com que Fatalville havia "se recuperado da crise".
As pessoas haviam voltado para suas casas.
As famílias se reestabeleceram e era como se nada de estranho houvesse acontecido na nossa pequena cidade.
Dou um sorriso completo.
- O que eu posso dizer? - Indago, dando um último gole na minha latinha de Coca-Cola. - Eu nasci para ser o que sou.
- E ter o que tem - completa Derek, soltando um assobio fino.
Acompanho o olhar dele.
Do outro lado do refeitório, ela desfilava chamando atenção quase sem querer.
Jogando os cabelos roxos para o lado e balançando um corpo gostosíssimo, passou fazendo um time de futebol inteiro parar para olhar e comentar.
Amaço a lata de refrigerante com a mão, atirando-a no lixo, ainda com os olhos fixos nela.
- Vou nessa. - Digo.
A segui até o corredor, onde ela sempre parava para arrumar o cabelo no espelho interno da porta do armário.
- Hey, líder de torcida - começo, me encostando no armário ao lado dela. - Novidades?
Aurélia me dá um meio sorriso, me encarando com aqueles olhos vermelhos que caiam perfeitamente bem nela.
- O que me conta, bad boy?
- Nada demais - respondo. - Só vou dar uma festinha sexta a noite, e se você puder ir e levar suas amigas gatas...
Ela ri.
- Outra festa?
Dou de ombros.
- Não tenho culpa de ser o cara mais popular da área, que namora a garota mais gostosa da escola e o único que mora sozinho numa casa recém reformada que agora tem piscina com hidromassagem. - Digo, como se não fosse nada demais.
- Uau. - Diz ela, cruzando os braços e aproximando o rosto do meu. - Também não tem culpa de todo o caos presente nessa escola, dos adolescentes brigando, das intrigas, da falta de moral e do incentivo às drogas e ao porre...
- Não fui eu que fiz a capitã das líderes de torcida quebrar o pé e um dente da frente para poder ocupar o lugar dela. - Me defendo.
- Ela mereceu. - Cantarolou Aurélia, fechando o armário.
- De qualquer forma - digo. - Só estou fazendo o meu trabalho. Tio Lúcifer me paga bem para isso. - Balanço as chaves do meu Cadillac novo no nariz dela.
Ela sorri, enquanto começamos a andar pelo corredor, abraçados, espalhando inveja, luxúria e outras coisinhas ao nosso redor.
Quando saímos, percebi que o dia estava ótimo.
Fatalville parecia ótima.
Já ouvi dizer que aquela era a cidade dos demônios.
Bem, aquela era a minha cidade, e nós éramos os demônios.
Então... Ótimo, mesmo.
- Félix... Isso é o que você sempre quis, não é? - Pergunta ela, em tom de desafio, percebendo minha expressão satisfeita. - A vida que você sempre quis levar.
A olho dos pés a cabeça.
- Hmm... É um pouquinho melhor. - Sussurro, roçando os lábios na orelha dela. - Vamos pra minha casa. Tem vodka. E merecemos uma tarde de folga.
- Eu tenho escolha, mafioso? - Diz ela, passando as unhas na minha nuca.
- Todo mundo tem escolhas. - Respondo. - Mas nem todo mundo sabe escolher.
Ela revira os olhos, zombando da minha filosofia, e eu a beijo.
Sentimos a onda já familiar de calor não humano entre nós.
Ah, cara... Aurélia tem razão.
Aquela era a vida foda que eu sempre quis levar.

FIM

2 comentários:

  1. Ela agora é um demônio?! Oh. Mas já chegou no fim?! Adorei tanto. Esse final foi um dos melhores Giovanna.

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