domingo, 2 de junho de 2013

FÉLIX, O EXORCISTA - 9


09. Demônios Internos

- Vão embora! - Vociferei, me levantando.
Senti uma dor aguda quando me apoiei no pé esquerdo.
Tinha torcido a porra do tornozelo ao rolar a escada.
- Agora nós sabemos de tudo - disse o maldito coral de vozes. - Você apenas queria usá-la. Tinha todo o sexo que queria. E depois a jogaria fora... Mas ela dominou você. Te fez escravo dela, seu bastardo fraco. E por isso você perdeu a oportunidade de se tornar um de nós...
Eu via o corpo de Aurélia descer as escadas na minha direção, ainda segurando a faca manchada pelo meu sangue.
- Olhe pra mim, Félix - agora era a voz de Aurélia, em tom alegre. - Você ainda me quer? Ainda sou eu quem te faz suar?
- Calem a boca! - Berrei, recuando. - Não vão me fazer machucá-la, seus miseráveis...
- Beije-me - cantarolou a coisa que imitava Aurélia, rodopiando. - Me possua... Ou deixe-me possuir você.
Eu apenas me afastava, cauteloso.
A mais ou menos dois metros de distância de mim, a coisa parou.
Achei que iria atirar a faca na minha direção, mas, em vez disso, fez um corte fundo no próprio braço, sem hesitar, derramando sangue no carpete.
- Estamos rasgando o seu querido amor... - Disseram as vozes.
- Não! - Gritei, mas eles já estavam cortando a perna direita dela, manchando o roupão branco de vermelho.
Avancei contra eles, derrubando-os no chão para tentar tirar a faca das mãos dela.
Só que eles eram surpreendentemente fortes, e eu tinha medo de machucar Aurélia.
- Seu bastardo - cuspiram as vozes, enquanto eu tentava lutar.
- Deixem ela em paz! - gritei.
Só que eu não conseguia ser forte e rápido o suficiente sem os meus poderes infernais. Sem machucar Lila.
Eles acabaram enfiando a maldita faca no meu braço.
Urrei de dor, rolando no chão.
Era insuportável.
Arfante, puxei a faca, rasgando minha carne novamente e sentindo minha vista escurecer, de tanto que doia.
As coisas me olhavam sorrindo.
Usando o sorriso de Aurélia para sorrir, e os olhos dela para me olharem.
- Seu sangue - sussurraram. - É a nossa força.
Enojado, vi quando eles começaram a lamber o sangue que havia pingado do meu braço no carpete.
Recuei, me arrastando, tentando tampar o ferimento do braço com a mão para não ter uma hemorragia.
Me encostei na parede, ofegante, sem saber o que fazer.
A coisa, aparentemente terminando de lamber o sangue do carpete levantou a cabeça na minha direção.
Aquilo não era Aurélia.
Os olhos daquilo estavam pretos agora. Completamente pretos.
E aquilo começou a vir na minha direção, não andando como gente, mas se rastejando de quatro como um lagarto.
- Eu não quero morrer nas mãos disso aí - disse, para mim mesmo, com repulsa daquela coisa que estava cada vez mais perto.
Eu tateava a parede para tentar me levantar, quando achei um objeto pendurado.
Era um machado de cortar lenha.
O agarrei, trêmulo, na mesma hora que a coisa agarrou meu pé.
- Você está completamente sozinho, Félix - disse o coro de vozes.
A coisa arreganhou dentes não-humanos, e eu podia jurar que havia um líquido preto não identificável escorrendo entre eles.
- Foda-se! - Gritei, usando o cabo do machado para me defender e acertando a coisa bem no meio da fuça, fazendo-a rolar com um grito.
Me apoiei no machado para conseguir me levantar.
Eu estava de pé e a coisa estava estitrada no chão.
Era a minha chance.
Ergui o machado acima da cabeça, pronto para retalhá-la...
- Félix, não!
Aurélia estava chorando.
Me afastei, trêmulo, passando as mãos pelo rosto.
Lágrimas de desespero encheram os meus olhos.
- Meu amor... Eu não quero machucar você.
O que eu estava fazendo?
O que eu quase havia feito com a minha garota?
Ela levantou os olhos pra mim.
E começou a rir novamente.
Aquele inferno começaria de novo, agora.
Era esse o truque? Me enlouquecer até que eu mesmo ferisse Aurélia para não morrer?
Me torturar mil vezes...
Isso não ia funcionar.
Eu preferia morrer do que machucá-la.
Larguei o machado.
- Aurélia, sei que você está aí em algum lugar... Sei que pode me ouvir.
A coisa se levantava lentamente, com os olhos negros fixos em mim.
- Lila... Eu estou aqui. Sei que você é uma garota forte. Lute. Eu vou te ajudar. Você tem poderes para acabar com eles, sei que tem.
A coisa começou a caminhar para mim, estranhamente desajeitada, como se os ossos estivessem mudando de lugar... Foi quando percebi que eram eles se movimentando dentro dela.
Oh, céus...
- Aurélia! - Gritei, nervoso, trêmulo, apavorado. - Aurélia, me escuta... Você e eu podemos vencê-los. Sei que você pode controlar isso se eu ajudar...
Mas a coisa continuava avançando, e não havia nenhum sinal de Aurélia ali.
- Sua namorada - disseram eles. - Não mora mais aqui!
A coisa estava cada vez mais perto...
- Deus! - Gritei, fechando os olhos. - Deus, eu sei que eu nunca fui um cara bom. Eu sei que nunca rezei antes... Mas agora eu preciso de ajuda...
Eu já não conseguia conter as lágrimas ou os soluços.
- Deus, o Senhor sabe que Lila é uma garota boa. Ela é um anjo Seu. Ajude-a. Por favor. Não deixe que continuem fazendo isso com ela...
- Cale a boca, seu monte de merda! - Berrou a coisa.
- Deus, ajude-a... - Eu continuava de olhos fechados. -  Por favor. Ajude-a, ajude-a, ajude-a...
Senti as mãos muito quentes da coisa na minha pele.
- Me deixe pelo menos falar com ela! - Berrei, abrindo os olhos.
A coisa estava parada diante de mim.
Apenas parada, com uma mão no meu peito, como se fosse arrancar o meu coração.
Por alguns segundos, a única coisa audível era a minha respiração ofegante.
- Lila? - Sussurrei.
A porta da sala se abriu com um estrondo.
A coisa saiu correndo.
Morto de susto, fui atrás dela, mancando por causa do tornozelo machucado e ainda tentando estancar o sangue do braço.
- Aurélia! - Eu gritava, tentando alcançá-la em vão, seguindo os cabelos roxos por entre as árvores da propriedade.
A chuva havia parado, mas o vento era frio e cortante.
Eu não me atrevia a perdê-la de vista, mesmo que meu corpo doesse terrivelmente a cada passo.
Foi então que Aurélia (ou a coisa) parou.
Estava na margem do lago lodoso da propriedade dos Santoro.
Bem na beirada.
Também parei.
Ah, cara...
Parecia que fazia muito tempo, mas não fazia nem um ano...
A noite da festa de Aurélia.
Ela, depressiva, e eu, faminto pelo sofrimento que a alma dela emanava.
Ela havia pensado em suicídio na beira daquele lago.
Ali conversamos pela primeira vez, e eu a assustei.
E gostei dela.
- Aurélia... - Chamei, me aproximando devagar.
A madeira do piér escorregadio sob os meus pés rangeu.
Ela se virou.
- Félix...
Antes que eu pudesse sequer analisar se era ela ou a coisa quem falava, a vi se jogar no lago em um gesto largo.
Sem pensar duas vezes, pulei atrás dela.
A água escura do lago estava gelada, como era de se esperar.
Pelo menos a pontada de dor do frio amortecendo meu corpo todo me fez esquecer um pouco da dor do braço.
O lago não era muito profundo, mas meu corpo não me obedecia direito, o que me impedia de nadar.
Voltei para a superfície para tomar fôlego, e vi Aurélia perto da margem.
- Félix! Não temos muito tempo...
Nadei até ela, alcançando a parte mais rasa, mas parei a uma distância segura.
A olhei com desconfiança.
Chega de deixar essa coisa me enganar...
- Félix, dessa vez sou eu. De verdade.
Olhei em volta.
Estava tudo silencioso.
Para todos os lados havia névoa, e a água do lago agora parecia prateada.
Ou a perda de sangue estava me fazendo alucinar, ou...
- Aurélia... - Sussurrei, com os dentes batendo.
Ela também tremia, com o cabelo roxo e o roupão de seda ensopados. Haviam lágrimas nos olhos dela.
Olhos castanhos.
- Eu sei que você gosta mais deles assim - sussurrou ela.
Não aguentei.
Fui até Lila e a abracei.
Senti seu corpo frio e trêmulo me apertar com força.
Depois a olhei, deixando-a ver toda a minha tristeza pela minha expressão, e lasquei um beijo nela.
Nós dois chorávamos enquanto nos beijávamos.
Até ela me empurrar, devagar.
- Félix, precisamos ser rápidos...
- Eu achei que ia perder você - confessei. - Achei que não iriam deixar você voltar pra mim, Lila...
Ela me encarou, magoada.
- Mas eu não voltei, Félix. Não pra sempre. Apenas por alguns minutos. Ele deixou que eu viesse porque você pediu pra Ele para falar comigo.
- O que quer dizer? - Eu entendia, mas não queria aceitar.
- Os demônios dominaram o meu corpo - uma lágrima escorreu pela bochecha dela. - Eu perdi todo o controle. Eles eram muitos. E começaram a me dizer coisas horríveis. Eu não conseguia mais pensar... Eles disseram que iam matar você...
Ela tremia mais ainda.
- Sou eu quem vai matá-los... - Sussurrei, sofrendo apenas com o sofrimento dela.
- E então me levaram embora. Ele, Félix - ela fez um sinal em direção ao céu. - Ele falou comigo. Disse que eu não precisava ter medo. Que eu era um anjo e minha alma era eterna... Ele me disse várias coisas. E eu senti que estava no lugar certo.
Ela abriu um sorriso.
- Lila... - Suspirei.
- Mas sei que você sofreu muito - continuou ela, passando a mão pelo meu rosto. - Não quero que continue sofrendo... Por isso eu estou aqui.
- Fique comigo! - Implorei, abraçando-a e voltando a chorar.
- Não posso. - Disse ela. - Félix, entende o que você tem que fazer? Para acabar com tudo isso? Para fazer com que os demônios voltem para o inferno, e que a humanidade possa se curar deles?
- Não! - Gritei.
Aurélia apertou as minhas mãos entre as dela.
- Termine isso agora, antes que nosso tempo acabe. - Ela suplicava. - Eu vou ficar bem. Sei que você também vai.
- Por que você não pode voltar para o seu corpo? - Perguntei.
- Porque esse corpo já foi corrompido. Não pode mais abrigar um anjo...
- Aurélia... - Eu chorava sem esconder. - Não posso fazer isso, porra. Eu amo você. Eu amo... E isso me mataria.
- Félix, faça! - A voz dela era exigente. - Antes que nosso tempo acabe. Antes que eles voltem... E eu também te amo, cara.
A olhei.
Ela estava decidida.
Eu também sabia que já não tinha saída...
A beijei, resignado.
- Eu te amo. - Eu disse, sério, encarando-a.
- Eu sei. E você é e sempre será meu herói. - Ela deu uma piscadela.
Aurélia fechou os olhos.
Também fechei os meus.
Coloquei minhas mãos ao redor do pescoço dela, firmes.
Se eu ia matar o amor da minha vida, que fosse com minhas próprias mãos.
Usei a força dos meus poderes, os poderes celestiais, para que ela não sentisse nenhuma dor.
Eu tentava transmitir todo o meu amor através desse gesto.
O mesmo amor que estava me dilacerando por dentro.
Depois que Aurélia deu o último suspiro, ousei abrir os olhos.
Não conseguia chorar agora.
Ela flutuava em meus braços na água gelada.
E só havia paz no rosto dela...
Olhei para o lago, que agora voltava a ter águas escuras e lodosas.
Acho que, sem querer, nossa história havia começado ali.
E agora havia terminado.

CONTINUA

2 comentários:

  1. Ela não vai voltar mais? :'( aaa. Continua, agora fiquei mais curiosa que antes hahahaha.

    ResponderExcluir
  2. Perfect!!!Mais uma vez Perfect!
    :D

    ResponderExcluir