domingo, 9 de junho de 2013

O ROMANCE QUÍMICO - PARTE 1

1. Adolescentes

Querido Diário,
Meus últimos dias foram um porre, os piores da minha existência, ouso dizer.
Primeiro, a notícia mais bombástica de todas: My Chemical Romance, a melhor banda de TODAS, razão do meu viver, os deuses da música que eu amo amo amo amo... Acabou.
A-CA-BOU.
Como vocês podem fazer isso comigo, boys?!
O que será de mim agora?
Quero morrer!
Só porque Mercedes e eu estávamos fazendo planos para ir no próximo show, e, agora, nem sabemos se haverá turnê de despedida....
Sem MCR fiquei sem chão, de verdade... Na época mais negra da minha vida, foram as vozes deles que me mantiveram respirando.
“So long, and good night...”
Enfim, chorei todas as minhas lágrimas.
Segundo desastre (como se eu já não estivesse Arrasada com “A” maiúsculo): Letícia está me tirando do sério, e falta pouco para que eu dê uma surra nela.
De verdade.
Ela me odeia só porque sou mais bonita, inteligente, estilosa e tenho quilômetros de cabelos maravilhosos, risos.
Não tenho culpa de ser autêntica e linda, enquanto ela é apenas a fracassada invejosa do jornal dos estudantes.
Só que ultimamente ela anda escrevendo coisas sobre mim na coluna semanal dos alunos, e não estou gostando nem um pouco.
Ela não cita nomes, mas eu sei que é sobre mim...
Preciso de Mercedes para bolar um plano e derrubar Letícia de vez, espere só até que eu tenha algum tempo.
Vamos fazer com ela o mesmo que fizemos com a Evelyn Nojenta no primeiro ano. Hoje ela é uma excluída social e ninguém fala com ela.
Ai, ai... Tenho pena dessas garotas.
São invejosas, apenas, enquanto eu e minha gang somos descolados e adoráveis, risos.
Agora tenho que me vestir, ou vou me atrasar e tenho prova de Física logo na primeira aula.
Ah, depois da aula vou sair com Diego. Seis meses de namoro, acredita? Vamos passear no parque e tal.
Nada muito especial.
Na verdade nosso namoro é muito legal. Mas não é exatamente como eu sonhei que seria meu primeiro namorado.
Ele é lindo, fofo comigo e me dá presentes, e me fez sentir segura o suficiente para termos nossa primeira vez, que foi PERFEITA, mas... É só isso.
Ele não me dá borboletas no estômago nem nada assim.
Mas o importante é que somos um casal lindo e nos damos super bem.
Mercedes nos chama de Barbie e Ken, risos.
Bom, agora vou me vestir lindamente para o meu namorado, e arrasar com a concorrência, antes que eu perca a hora. Rs.
Até mais.

Helena fechou o pequeno caderno lilás e o jogou na bolsa Atomic Cherry (a melhor marca londrina de TODAS).
Rodopiou na frente do espelho, arrancando o pulôver azul e observando a silhueta com satisfação.
Adeus, passado sombrio. Gorda nunca mais.
Se livrou da calça de pijama, ficando apenas de calcinha cor-de-rosa e top branco.
Vestiu a camisa branca do uniforme, a calça jeans e a jaqueta com o emblema da escola, completando com uma das suas bonitas echarpes (sua marca registrada).
Depois escovou o longo cabelo castanho com luzes, seu maior orgulho.
Completou o visual com a maquiagem habitual: sombra coral, rímel caprichado e uma camada generosa de gloss.
Sorriu diante do espelho.
Olhos cor de mel e boca rosa. É claro que Diego se apaixonou à primeira vista...
Sorriu mais ainda.
Pegou a bolsa e olhou em volta.
Era estranho, mas por um minuto ela sentiu como se nunca houvesse realmente parado e olhado em volta.
Seu quarto.
Paredes lilases (sua cor favorita), cama com lençóis brancos de cetim, dezenas de almofadas, guarda-roupa grande, espelho na parede, escrivaninha em frente à janela.
Ah, relógio de gatinho na parede, acima da cama.
E, segundo ele, ela estava quase atrasada.
Eu deveria parar de agir estranho, pensou Helena. É só o meu quarto. O que há comigo hoje?
Desceu as escadas de dois em dois degraus, atravessando a sala e destrancando a porta.
Sua mãe ainda estava dormindo, Deus salve a América!
Fechou a porta.
Diego a esperava no portão, como sempre.
Ele era 1,80m de pura gostosura, topete de cabelo escuro, tênis caros, calça jeans do uniforme e a Varsity Jacket descolada, parecia um jogador de futebol americano de filme teen.
- Dois minutos atrasada. – Disse ele, tirando uma das mãos do bolso da jaqueta esportiva e olhando o relógio de pulso, com falso aborrecimento.
Helena sorriu e rodopiou para ele.
- Me diga que não valeu a pena!
Diego também sorriu, puxando-a para um beijo rápido.
Os dois foram andando de mãos dadas até a escola.

***

O quarto do motel barato era uma mistura de lençóis amarrotados, cheiro forte de cigarro e sangue seco.
Muito sangue, pensou ele, franzindo o nariz com asco.
Ninguém gostava de sangue em exagero.
Olhou para o corpo frio e inerte deitado na cama ao seu lado.
Como você está bonita...
A jovem morta tinha os olhos azuis escancarados, boca semiaberta, com um rastro de sangue que morria no travesseiro.
Seu corpo nu e delgado agora estava mutilado e envolto em vermelho.
- Minha amada, você fica bem de vermelho. Devo lhe dar os parabéns. – Sussurrou ele, abrindo um meio sorriso.
Não pretendia que as coisas chegassem naquele ponto. Não naquela noite, pelo menos. Não em um motel, onde daria um trabalho enorme encobrir todos os rastros.
Droga.
Mas ele simplesmente não resistiu quando, após a troca de carícias, o ar impregnado pelo suor doce dela, a moça começou a fumar um cigarro, tão serena, tão sensual, e aquele maldito fura-rolhas, com o qual haviam aberto o champanhe, ao alcance...
Ah, ele precisou perfura-la. Só para ouvi-la gritar. Só pra ver aqueles olhos se arregalarem.
Ela era a imagem da perfeição.
Justamente porque estava morta.
Pegou o cigarro ainda acesso entre os dedos dela e o levou aos lábios.
Argh... Que amargo. Vício maldito. Ainda bem que ele já havia se livrado daquilo.
Levantou-se, vestiu-se.
Pegou sua câmera fotográfica e a focou sobre o cadáver, ajustando a luz.
Bem-vinda a minha coleção, minha deusa.
E deu livre curso ao seu hobby.

***

Quando Helena se despediu de Diego e entrou na sala de aula, o professor de Física já estava lá.
Era um senhor bem velho, calvo e falante, que estava tão ocupado em colocar as orientações para a prova na lousa, repetindo-as sem parar, que nem reparou quando a garota entrou de fininho.
Se sentou ao lado de Mercedes, trocando um olhar cúmplice com ela.
Depois da prova de resultado muito provavelmente desastroso (afinal, quem liga para a diferença entre atrito, indução ou contato? Algum nerd do The Big Bang Theory, talvez?) as duas amigas puderam colocar a conversa em dia na aula de Educação Física, enquanto o pessoal da sala que gostava de esportes jogava e suava (nojo).
- Esse cara não para de me mandar SMS – Diz Mercedes, clicando freneticamente em seu iphone 5 com as unhas longuíssimas. – Estou tão cansada dele!
Ela revirou os olhos escuros com cílios também longuíssimos, maquiados com sombra clara e brilhante.
- Já experimentou parar de respondê-lo? – Indaga Helena, em um tom irônico que sua amiga seria incapaz de detectar. – Já que você está tão cansada!
Mercedes sorri, com dentes brancos e longuíssimos, puxando um cacho macio do cabelo preto (esse não era longuíssimo, já que Helena a havia estrategicamente convencido a cortá-lo no ano passado, porque não era conveniente que sua amiga tivesse o cabelo tão ou mais comprido do que o dela).
- Ah não... Seria muita descortesia, coitadinho... – Diz Mercedes, a boa samaritana. – Não quero se cruel com ele. E ele é canadense... Temos que ser gentis com os estrangeiros, como diz minha mãe.
Helena sorri com complacência, concordando.
A mãe da Mercedes... Ela dizia que havia sido modelo quando jovem, mas todo mundo sabia que ela foi garota de programa...
Muito esperta, deu um jeito de engravidar do pai de Mercedes, um empresário estrangeiro qualquer, com quem nunca foi casada, e até hoje era sustentada pela pensão gorda.
Era por coisas assim que Mercedes tinha um iphone 5, uma mochila Prada e sapatos Louis Vuitton, enquanto Helena tinha um celular LG, uma bolsa Atomic Cherry (presente do pai, em vez de uma festa de 15 anos) e sapatos comprados no shopping local.
Sim, a vida é injusta, pensa Helena, um pouco amarga. Ela era mais bonita e esperta do que Mercedes, porque não tinha mais dinheiro também?
Mas logo se lembrou do seu maior trunfo, e sorriu pra sua melhor amiga.
- Hoje Diego e eu completamos seis meses. Vamos sair. – Diz, orgulhosa.
Isso ela tinha. Um namorado bonito e popular, com boas condições financeiras. O que podia valer mais?
Mercedes dá uma risadinha.
- Mas já? Que máximo... Mas antes temos que ir ao shopping. Você prometeu que ia me ajudar a escolher alguma coisa pra festa de sábado, lembra?
- Claro – diz Helena, sorrindo e se espreguiçando. – Vai ser foda.
- Muito foda. O que você vai vestir?
Helena pensa um pouco.
- Sei lá... Algo que deixe o Diego ouriçado, se é que você me entende.
Mercedes abre a boca, mas sorri.
- Helena... Sua safada! Garotos estão sempre ouriçados!
- Nem me fale...
- Sabe, vou te comprar alguma coisinha no shopping. Pode escolher o que quiser. Meu presente pra minha best.
- Ah, Mercedes... O que eu faria sem você?
As duas sorriem, entrelaçando os dedinhos, a prova de cumplicidade entre elas. Quando a sombra de Letícia resolveu tampar o sol matinal.
- Você está ótima, Helena – começou a garota, ajeitando os óculos no rosto. – Andou aumentado as doses de vômito?
Helena se contraiu, encarando a garota.
- Deixe de ser estúpida...
- Anorexia e Bulimia, os artigos estão no jornal da escola desse mês. Boa leitura! – Diz Letícia, se afastando e balançando o rabo alto de cabelo descolorido em casa.
- Vaca! – Grita Helena.

***

- Eu quero acabar com a raça da Letícia – dizia Helena, andando no shopping ao lado de Mercedes, depois da escola. – Como ela se atreve a se intrometer na minha vida desse jeito?
- Isso é recalque. Mas relaxa, vamos colocar ela no lugar. Assim como fizemos com a Evelyn Nojenta. – Garante Mercedes. – Ai, que vestido lindo... Tenho que provar esse!
As duas entraram na loja, onde Mercedes experimentou o vestido curto, colado e tomara-que-caia, estampado com a bandeira do Reino Unido, que seria considerado uma roupa de vadia, se não fosse tão caro.
Helena não gostava tanto dos modelos daquela loja, embora experimentasse uma peça ou outra por insistência de Mercedes.
Saíram de lá duas horas depois, Mercedes cheia de sacolas, Helena pensativa.
Até que viu um corpete cinza e lilás na vitrine de outra loja, e seus olhos se iluminaram.
Ficaria perfeito com a saia de veludo preta da sua mãe, os sapatos lilases de salto e um colar discreto da Mercedes.
Também era a maneira perfeita de exibir o busto avantajado de forma elegante.
- Mercedes, olhe... – Diz Helena, praticamente babando diante da vitrine. – Aquele corpete rendado... É tão dark e descolado ao mesmo tempo. Me lembra até os clipes do My Chem, não sei porque...
Mercedes acompanhou o olhar dela.
Ah, sim... Com certeza ficaria perfeito em Helena.
Droga.
Mercedes trocou o peso de um pé para o outro.
Porque Helena, além de mais alta, tinha que ter mais peitos do que ela? Com certeza era por causa dos peitos que Helena havia conseguido um gato como o Diego enquanto ela estava sozinha após o desastre com o Raul.
Que inferno... Helena chamaria atenção demais com o maldito corpete, ainda mais se usasse salto alto.
Depois de todo aquele esforço para encontrar o vestido ideal, sua querida amiga Helena a ofuscaria na festa de sábado, como sempre.
Ela devia admitir para si mesma que gostava muito mais de Helena quando ela era gorda.
Sorriu para sua amiga.
Ah, merda... havia oferecido um presente para Helena, não era? Ia ter que comprar pra ela o maldito corpete. Não havia como escapar...
Mercedes estava quase dando cria, quando um SMS salvou sua vida. Era sua mãe. Estava indo pro SPA mais cedo e queria saber se ela queria ir.
- Ah, não – Diz Mercedes, com uma expressão de infelicidade extrema. – Minha mãe quer que eu vá encontra-la agora mesmo... Ela faz questão que eu vá para o SPA com ela. Minha pele está muito ressecada.
Helena suspirou para o corpete, mas deu de ombros para a amiga.
- Tudo bem...
- Mas você deveria experimentar o corpete. – Diz Mercedes, sorrindo venenosa, se inclinando para beijar a bochecha da amiga. – Se eu fosse você, compraria agora mesmo!
Helena sorri de volta, vendo sua melhor amiga desfilar para fora do shopping com suas pernas longuíssimas.
Você sabe que eu não tenho grana, gênia...
Namorou um pouco mais a vitrine, antes de ir pra casa se arrumar para o grande encontro.
Um passeio romântico no parque e depois sexo na casa de Diego. Uma ótima forma de começar a semana.

***

Helena deu uma volta diante do espelho do quarto. Saia jeans clara, curta, camiseta pink com zíper na frente, exibindo o top preto, e seus amados tênis All Star de cano longo.
Jogou a bolsa no ombro e ligou os fones de ouvido.
Tentou dar o fora antes que sua mãe a visse, mas foi notada ao passar rastejando diante da porta da cozinha.
A voz da mãe a seguiu até a sala.
- Helena, você comeu?
- Almocei na escola.
- Helena...
- Verdade verdadeira. Pode perguntar pra Mercedes.
- Aonde você vai?
- Parque. Vou encontrar as garotas lá. Estou atrasada...
- Tome cuidado. E não volte tarde.
- Tchau, mãe.
Helena bateu a porta de casa e suspirou, quase aliviada.
Se sentia sufocada, irremediavelmente esmagada pelas preocupações da mãe.
Que porre, aquela história já era.
Já havia passado...
Só sua mãe e a Letícia Fofoqueira faziam questão de relembrar aquilo todo santo dia, saco...

***

Ele andava pelo parque com a câmera fotográfica nas mãos.
Aquela cidade era muito pequena para atrair sua atenção.
As mulheres eram... Ah, não tinham nenhuma beleza bucólica, como as pequenas cidades traziam antigamente.
Nada de mocinhas prendadas e coradas.
Só os mesmos rostos pálidos e corpos sedentários, escravos da internet. Assim como nos grandes centros urbanos.
Tudo a mesma coisa.
Só que em uma cidade maior era mais fácil embrulhar um corpo em lençóis, descer com ele pela escada de serviços do motel e despachá-lo no caminhão de lixo para o incinerador pagando bem ao motorista pelo sigilo, e ninguém sentir falta da moça.
Aquela cidadezinha... Não tinha nada pra ele.
Ninguém pra ele.
O sofisticado assassino ia dar o fora dali.
Mas, ao dar meia volta, trombou com uma garota que vinha andando apressada.
- Hey! - Exclamou Helena. - Qual é o seu problema?


CONTINUA

5 comentários:

  1. Ainda estou sem palavras, adorei! Continua. :3

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  2. so uma curiosidade,o nome da personagem principal e em homenagem a musica do my chemical?

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  3. Certamente! "Helena"...
    MCR está sendo minha grande inspiração para escrever essa série. ;)

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  4. Só eu que fui procurar pra ver se existe mesmo o site sinistro.org? kkkkkkkk
    maravilhosa a história, vou acompanhar! (;

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