quarta-feira, 3 de julho de 2013

O ROMANCE QUÍMICO - PARTE 2

2. Eu não estou okay

O estranho olhou para Helena, e ela instintivamente se arrependeu pela grosseria.
Ele não era exatamente bonito, mas era tão alto, charmoso, cabelo castanho claro, tãaaaaao uau...
- Desculpe. - Disse ela, corando, e passando reto por ele.
Ah, sou uma teenager tonta... Porque fico vermelha toda vez que vejo um cara interessante? Tonta tonta tonta...
O homem apenas deu de ombros.
Garotas adolescentes eram um saco, irritantemente previsíveis... Nada era mais importante do que ser melhor do que as outras e atrair os melhores caras.
Apenas um ciclo vicioso de juventude materialista e falsamente sexy.
Deu um passo, frustrado e pensativo.
Pisou em algo.
Era um caderno de capa lilás.
O apanhou.
Folheou as páginas amareladas, sem muito interesse.
Não havia nenhum título, apenas textos e mais textos escritos em uma mesma caligrafia arredondada, todos começando com a mesma frase.
Oh... Mas o que temos aqui?

***
- Preciso ir pra casa. - Helena disse, olhando para o relógio do celular.
Diego murmurou algo incompreensível, abafado pelo travesseiro.
- Okay, vou sozinha! - Exclama Helena, revirando os olhos. - Fiquei ai, roncando...
Se levantou e se vestiu, ajeitando o cabelo em um rabo de cavalo.
Garotos...
Pegou a bolsa e o urso de pelúcia enorme que havia ganho de presente feliz-aniversário-de-seis-meses-de-namoro-pra-gente, mais a cesta de chocolates, e saiu chutando as velas já apagadas e pétalas de flores espalhadas pelo chão.
Que cenário de amor mais clichê e exageradamente romântico, pensou, enojada.
Seis meses, e Diego já a estava cansando com a falta de originalidade.
Mesmo assim, bateu uma foto do quarto cheio de balões em formato de coração, garrafas de champanhe já vazias e rosas vermelhas, só pra fazer uma invejinha básica pra Mercedes mais tarde, risos.
Saiu para a rua.
Algumas pessoas a olhavam curiosas, a menina cheia de presentes nos braços...
Fodam-se todos.
Ao chegar em casa, jogou os chocolates fora na lixeira da rua.
Não comia mais aquelas gordices, por favor, né...
Subiu direto para o quarto e guardou o urso de pelúcia no guarda-roupa, para não chamar a atenção da mãe.
Ligou o computador.
Novidades dos caras da My Chemical? Nada...
Facebook? Nada novo, ninguém interessante no chat.
Postou as fotos da "surpresa" que Diego havia preparado e marcou algumas pessoas, só para dar um grau.
Paguem pau pra mim e meu namorado perfeito, vamos.
Ninguém precisava saber que ela estava de saco cheio daquilo tudo...
Helena suspirou, se afastando do computador.
Desde quando sua vida havia virado uma rotina insuportável?
Você tem tudo para ser feliz, bobona. Mas parece que você não quer...
Conectou os fones, se jogando na cama, olhando para o teto do quarto.
Isso, rapazes, cantem pra mim, tudo o que eu estou sentindo...

I'm not okay
Well, I'm not okay
I'm not o-fucking-kay...

(Eu não estou okay
Bem, eu não estou okay
Eu não estou okay nem fodendo...)

Ah, Deus, precisava desabafar...
Onde estava a porcaria do diário?

***

- Helena? - Acordou com a mãe batendo na porta.
Havia cochilado a tarde toda.
Droga... Deveria estar adiantando o trabalho de história.
- Oi? - Se espreguiçou, ainda meio grogue, arrancando os fones de ouvido.
A mãe entrou, ascendendo a luz.
- Vou ao shopping. Quer vir e comprar alguma coisa pra você?
Os olhos "cor de mel" de alguém se arregalaram.
- Na verdade... Vi um corpete lindo numa loja, seria perfeito para a festa da Mercedes no fim de semana, mas é meio caro...
A mãe deu de ombros.
- Vamos ver. De repente podemos parcelar no cartão... Se arrume depressa.
Helena se pois de pé na mesma hora.
Ah... Obrigada, Deus!
Ah, que vida perfeita, a dela...
Incrível como tudo acabava dando certo, risos.

***
O motorista parou o carro em frente a casa de Helena e buzinou.
Duas vezes.
E nada.
Nenhuma resposta às mensagens de texto...
Mercedes, impecável no vestido de grife e nos saltos absurdamente altos, revirou os olhos brilhantes com glitter e cílios postiços, descendo do carro.
Bateu na porta, impaciente.
- Helena... Dá pra andar logo? Não quero me atrasar, poxa...
A porta se abriu, de súbito, revelando uma Helena estonteantemente vestida, penteada e maquiada, porém com uma expressão transtornada.
- Vamos logo! - Disse, visivelmente irritada.
- Helena, volte imediatamente! - Era a voz autoritária da mãe de Helena, aparecendo por trás do ombro dela. - Ainda não acabei!
- Mas eu sim! - Revidou Helena, girando e encarando a mãe com raiva. - Chega de querer controlar a minha vida! Me deixe em paz pelo menos uma vez!
A mulher franziu o cenho para sua prole rebelde.
- Quando fomos comprar seu corpete, você disse que a festa era da Mercedes... E agora vem com essa história de festa na casa de gente estranha? Sem nenhum adulto?
Helena gargalhou secamente, arrepiando os pelinhos da nuca de Mercedes e os pelinhos do rabo do gato que estava em cima do telhado.
- Gente estranha? São meus amigos! Eu tenho uma vida social, okay? Não vou perder a melhor festa do ano por causa das suas histerias!
A mãe bufou.
- Helena, eu exijo respeito... Volte aqui agora ou vou ligar para o seu pai!
Helena estreitou os olhos.
- Ligue para o FBI, se quiser, mas eu estou indo. Adeus! Vamos, Mercedes...
Bateu a porta.
A mãe abriu a porta.
- Helena! Pare de agir como criança, e crie juízo. Essas festas não são para moças como você...
Helena balançou a cabeça, devagar.
- Moças como eu, mãe? - Indagou, erguendo uma sobrancelha. - Sabia que eu nem sou mais virgem? Fique ligada... Acho que você não conhece a sua filha.
Mercedes viu a mãe de Helena arregalar os olhos e cambalear para trás. Depois o rosto dela começou a ficar vermelho.
- Helena... Entre agora mesmo. Vamos ter uma conversa muito séria...
- Não! - Gritou Helena. - Eu te odeio, mãe!

***
O homem, de dentro do carro estacionado no final da rua, viu tudo.
Viu quando as duas garotas entraram no carro e deixaram a mulher plantada na porta.
Silencioso como um felino caçando, deu partida no carro e começou a segui-las.
Olhou para o caderno de capa lilás no banco ao seu lado, lido e relido, estudado muitas vezes.
Devagar, abriu um sorriso de canto.
E quase atropelou o gato preto que atravessava a rua ao acelerar.

***
- Hoje eu quero encher a cara! – Exclamou Helena, erguendo os braços, sentada de qualquer jeito no banco da limusine.
Mercedes cruzou as pernas longas e impecavelmente depiladas, ajeitando o vestido curtíssimo.
- Nossa, amiga... Mas que barraco foi aquele?
- Minha mãe. – Bufa Helena, cruzando os braços. – Ela é louca. Tenta me controlar o tempo todo... Aposto que foi ela quem pegou o meu diário, por isso não o encontro mais...
- Mas você não deveria ter gritado aquelas coisas, né Helena? Os vizinhos devem ter escutado...
Helena revira os olhos.
- Que me importa, Mercedes?
- É feio...
- Aff... Você e seus tabus de virgem...
- Helena!
- Ok. Desculpe... Estou muito estressada hoje. Vou tentar me acalmar e curtir a festa. Resolvo essa parada depois.
- Tá... Já estamos chegando.

***

Assim que chegaram à festa, Helena e Mercedes foram o alvo de bastante atenção.
Não eram tão populares, mas estavam produzidas o suficiente para chamar a atenção da maioria dos caras que ainda estavam sóbrios e causar inveja na maioria das garotas solteirinhas que esperavam pegar meninos naquela noite.
- Droga – sussurra Mercedes. – O Raul tá aqui.
- Você sabia que ele ia estar, ele ajudou a organizar a festa, pelamor...
Mercedes-se-faz-de-surda fingiu que não ouviu.
- Agora é oficial: tenho que pegar uns caras gatos na frente dele...
- Perde a virgindade num dos quartos...
- Cala a boca, Helena.
Raul era um cara com quem Mercedes tinha começado a ficar na mesma época em que Helena havia começado a sair com Diego.
Como os dois eram amigos, saiam os quatro juntos, e era tudo um mar de rosas.
Só que não.
Raul logo enjoou de Mercedes e começou a sair com outras garotas, enquanto Diego e Helena começaram a namorar.
Por que a vida faz isso?
- Por que o Raul faz isso? – Sussurrou Mercedes. – Ele parece não estar nem aí, nunca mais me ligou... Mas nós seríamos o casal perfeito!
- Não se deixe afetar – aconselha Helena, aconselhadora. – Cumprimente ele normal, sorrindo. Seja superior. Mas se ele tentar ficar com você...
- O que? – Mercedes ri. – De jeito nenhum aquele bobão vai tocar em mim de novo...
- Certo. – Aprova Helena, aprovadora.
Mercedes ficou socializando e rindo alto com um grupo de meninas, enquanto Helena foi se enroscar em Diego, que já estava por lá.

***

- Diego, eu quero ir embora. – Helena cruzou os braços.
- Heim? Ainda não é nem meia-noite... – Ele já estava meio cambaleante.
Helena bufou.
- Não importa. Essa festa está um lixo. Tá todo mundo ficando bêbado, tem um pessoal cheirando nos quartos... E eu estou ficando tonta por causa dessa bebida e da música alta...
Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas ele nem percebeu.
- Relaxa, gata... – Diego tentou beijá-la.
- Não! Vamos chamar um táxi... Por favor. Eu tenho que conversar com a minha mãe... Fui uma megera com ela hoje...
Diego suspirou.
- Helena, nenhum táxi vai vir até aqui... Estamos no meio do nada... Espere mais algumas horas e o meu pai vem pegar a gente.
Ela balançou a cabeça, inconformada.
- Não, eu quero ir agora...
Diego revirou os olhos.
- Gata, eu não quero ir agora. Você não veio com a Mercedes? Cadê ela?
- Ah – Helena fez cara de nojo. – Já se trancou em um quarto com o Raul.
Bastou um copinho de vodka para que Mercedes se jogasse nos braços do cara e se deixasse trancar entre quatro paredes com ele...
Helena sabia muito bem o que ia acontecer: o garoto ia tentar se dar bem, e quando Mercedes-puritana-horror-a-sexo percebesse, ia gritar e sair do quarto indignada com tal audácia.
- Falando nisso... – Diego a puxou pra perto. – Você não quer subir?
Helena revirou os olhos.
- Tenha dó!
Saiu de perto do namorado, irritada.
Ai, aquela música... Estava embaralhando seus pensamentos.
Seu estômago já estava ácido.
Não deveria ter bebido, mesmo sendo apenas dois copinhos de vodka com alguma coisa doce... Era enjoativo.
Eca...
Embaralhava seus pensamentos, e ela não gostava disso.
Helena odiava não pensar com clareza.
Foi para a varanda, esbarrando em todo mundo, viu um cara vomitando e uma menina tentando tirar a roupa.
Que bando de babacas, Senhor...
Contornou a casa por fora, ouvindo sons indiscretos das janelas. Vamos nos fazer de inocentes e fingir que não sabemos o que esses casaizinhos estão fazendo aí, amém.
A varanda nos fundos da casa estava mal iluminada e deserta.
Helena suspirou, olhando para a lua e as nuvens.
Por que ela havia achado que aquela festa seria legal?
Droga...
Ela não gostava de festas. Não gostava de barulho alto, aquelas músicas eletrônicas de merda.
Nem podia se refugiar em My Chem, porque o celular estava sem bateria.
Sentiu os olhos marejados.
Ah, que viadagem... Só faltava essa.
Será que se ela ligasse pra mãe, ela viria busca-la?
Ia ficar de castigo por um ano, e ouvir um monte, mas ela queria tanto ir pra casa...
Mas o celular, o celular estava descarregado!, se lembrou com amargura.
E ali nem passava ônibus...
No meio do nada, como dissera Diego.
DO NADA.
Sentiu um calafrio.
Uma festa de estranhos, no meio do nada...
Sua respiração se acelerou um pouco.
Calma, Helena. É só uma festa boba.
Tente se distrair, e logo o pai do Diego vai estar aí pra te levar em casa.
Ou talvez Mercedes fique irritada e queira ir embora da festa depois que Raul começar a apalpá-la.
Calma...
Passos na varanda a sobressaltaram.
- Quem está aí?
Sem resposta.
Ah, Deus...
Era bobagem ficar tão assustada, mas Helena não pode evitar dar alguns passos pra trás.
Qualquer coisa, ela correria para o estacionamento (onde alguns casais se pegavam dentro dos carros) e gritaria.
- Quem...?
Com dificuldade, Caique, um garoto da escola, rechonchudo e eterno alvo de piadas, deu dois passos a frente, e Helena pode vê-lo.
Suspirou, aliviada.
- Putz, Caique, que susto...
Mas o garoto nem escutou.
Correu direto para a frente, se apoiou na mureta da varanda e começou a vomitar nos arbustos.
Helena franziu o nariz, enojada, mas antes que pudesse dar meia volta e entrar na casa de novo, alguém a agarrou por trás.
Uma mão forte segurando um pano com clorofórmio tampando seu nariz e boca a impediu de gritar.
Ela se debateu, desesperada, mas foi inútil: sua vista começou a escurecer, cada vez mais, até se tornar um profundo breu.
O cara que vomitava mal percebeu o que se sucedia.

***

O homem segurou a garota nos braços (como ela é leve!), e agilmente se afastou dali com ela, atravessando o estacionamento.
Colocou a moça desacordada no banco traseiro do carro, o mais confortável possível.
Oh, Helena...
Foi mais fácil do que ele havia imaginado.
Cuidadosamente, amarrou os pulsos finos dela com uma corda, percebendo inconscientemente o quanto o cabelo longo ficava bonito esparramado no banco de couro.
Fechou a porta do carro, olhando em volta, assobiando uma música qualquer.
Parece que ninguém havia percebido nada.
Perfeito, oh, perfeito...
Entrou no carro, ligando o som em um volume baixo.
Deixe a banda que ela tanto gosta tocar, para tranquiliza-la, doce flor.
Sorriu de canto, vendo-a dormir pelo retrovisor.
Ótimo trabalho.
Satisfeito, pegou a estrada.
O que viria a seguir, seria a melhor e mais sádica parte.

CONTINUA

Um comentário:

  1. Adorei o capitulo Giovanna! Estou adorando essa história :D
    Continua.

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