terça-feira, 30 de julho de 2013

O ROMANCE QUÍMICO - PARTE 3

3. Lições de Afogamento


Helena acordou.
Havia um luz forte no rosto dela, e tudo era muito branco.
Escutou vozes ao seu redor.
O que havia acontecido?
Médicos? Por que havia médicos ao redor dela?
A luz fazia seus olhos arderem, expulsando lágrimas.
Uma mão quente segurou a dela, e ela percebeu que estava tremendo incontrolavelmente, os dentes até batiam.
- Mãe...? – Sua voz quase não saiu.
A mãe apenas chorava, passando a mão no rosto dela, a expressão cheia de afeto e alívio.
- Mãe... O que aconteceu? – Sussurrou Helena, bem fraquinho.
A mãe soluçou algumas vezes antes de responder.
- Filha... Você desmaiou de novo. Te encontrei caída no quarto. O doutor disse que você está muito fraca. Não está se alimentando direito. Há quantos dias não come, Helena?
- Mãe...
- Porque está fazendo isso com você? Eu te escutei vomitar escondida na semana passada.
- Mãe, eu...
- Filha, você está muito doente. Precisa se tratar.
- Não, eu só...
- Filha, você tem anorexia.
Helena fechou os olhos de novo, e as lágrimas começaram a chegar em maiores quantidades. A fraqueza recomeçou a dominá-la, e ela sentiu que logo voltaria a perder a consciência.
Não é justo... Não é justo...

***

Helena acordou.
Dessa vez, de verdade.
Sua cabeça latejava. E estava muito escuro.
Oh, céus... Não era só a cabeça.
Helena sentiu seu corpo todo pesado quando tentou se mover. Seus pulmões doíam quando ela respirava.
Seus braços e pernas estavam dormentes.
E por que estava tão escuro no quarto?
Ela sempre ligava a luminária antes de dormir.
Tentou se acomodar melhor.
Por que diabos aquele colchão estava tão duro?
Ah, ela precisava de um copo de água...
Quando tentou se sentar na cama, desorientada, percebeu que não estava na sua cama e sim em um colchão no chão.
Parou.
Onde diabos estava? Na casa da Mercedes?
Tente se lembrar, Helena...
Credo, ela não se lembrava de nada...
Espera aí. Ela estava na festa.
Com Mercedes, Diego e o pessoal.
Certo.
E ela queria ir embora.
Sim.
E ninguém queria saber. E ali não tinha ônibus nem táxi. E ela estava sozinha... E...
O que aconteceu?
Aff, será que ela havia bebido, no final das contas?
Havia ficado louca? Cheirado alguma coisa?
Mas onde ela estava agora?
- Mercedes? – Chamou, meio baixo, começando a ficar assustada. – Diego...?
Helena ouviu passos.
E uma porta se abriu um pouco a frente.
A luz do outro cômodo a cegou, deixando-a ver apenas uma silhueta masculina contra a porta.
- Diego?
- Bom dia, Helena.
A voz não era a de Diego.
Ela tentou reconhecer a figura escura, mas não conseguia.
Teria que fazer uma pergunta idiota:
- Quem é você?
- Você não me conhece. – Respondeu o homem. – Mas eu conheço você, Helena.
Helena sentiu um arrepio.
- Pare com essa brincadeira estúpida. Onde eu estou?
- Isso – disse ele, e Helena podia jurar que havia um sorriso em sua voz. – Eu não posso falar.
Ele voltou a fechar a porta, deixando-a sozinha no escuro novamente.
Helena se colocou de pé, dolorida e cambaleante.
Pelo jeito, ela ainda estava na chácara, em um dos quartos.
Se alongou o melhor que pode para conseguir andar outra vez.
Tateou até encontrar as sandálias, que estavam ali perto, e ajeitou o corpete.
Passou a mão pelo cabelo antes de tatear até encontrar a porta e a fechadura.
Mas estava trancada.

***

Ele estava limpando a lente da sua câmera fotográfica La Sardina na varanda da casa.
Gostava de sentir o aroma do mar logo de manhã.
Era bom estar em casa, depois de dirigir por mais de cinco horas com uma menina dopada no banco traseiro.
Ah, antes ele não corria esse tipo de riscos.
Não, não.
No começo, ele era extremamente cuidadoso.
E agora... Agora ele havia levado uma moça para a sua própria casa.
Que evolução.
Quantos riscos...
Deu um dos seus insuperáveis meio sorrisos.
Helena o fascinava.
Não, na verdade o jeito como Helena estava nas garras dele que era fascinante.
Não era a garota, era a situação: o diário. Ele havia lido o diário, e a obsessão foi imediata. Ele a queria na sua coleção. Precisava dela.
Que poder simples palavras, em um simples caderno, poderiam ter...
Helena.
Ela não era tão bonita, não tinha olhos claros nem nenhum atributo que ele geralmente buscava em suas musas.
Mas ele agora conhecia cada fraqueza dela, cada ponto vulnerável. Todas as mentiras que ela andou contando, vivendo. Toda a frustração de sua valiosa vidinha nada perfeita.
E isso, isso o atraía.
Nunca havia conhecido tão intimamente nenhuma de suas preciosas beldades...
Agora ele podia ouvi-la gritar e bater com força na porta.
Havia percebido que estava presa, em um lugar estranho.
Ele suspirou, colocando a máquina de lado, com cuidado.
Era melhor soltá-la do cativeiro antes que ficasse histérica demais.
Deixá-la respirar um pouco...
Foi até a porta do quarto e a abriu.
Helena engoliu em seco.
Os dois se encararam por um breve momento.
Hesitante, ela passou por ele, com a claridade do sol ferindo seus olhos, olhando em volta, para a sala desconhecida.
- Onde eu estou? – Perguntou ela, tentando colocar firmeza na voz.
Ele não se moveu.
Nem disse nada.
Os olhos de Helena começaram a se adaptar a luz do dia, e ela agora podia ver melhor o rosto do homem.
Alto, cabelo castanho, mais claro que o dela, e um cavanhaque tão galã de novela... Estranho, mas o reconhecimento foi instantâneo: o cara do parque.
Helena sentiu um arrepio nas costelas.
- Quem é você?
Ele continuou calado.
Ela olhou em volta.
Aquilo era... Ela estava ouvindo mesmo o barulho do mar?
A porta que dava para a varanda estava aberta.
Sentindo o incomodante olhar dele cravado na nuca, deu dois passos lentos na direção da porta: sim, era o mar.
Ondas estourando em uma praia.
Helena respirou fundo.
Ela se lembrava mais ou menos do que ocorrera na véspera, agora.
As mãos a agarrando por trás, o pano abafando sua boca, provavelmente alguma droga que a fez apagar...
Eu fui sequestrada. Esse cara provavelmente vai me estuprar e matar. Preciso fugir. Agora!
Seu coração começou a martelar mais depressa, batendo nos ouvidos.
Essa pode ser minha única chance...
Helena foi.
Sem se atrever a olhar pra trás, desatou a correr.
Pulou os degraus da varanda e saiu em disparada, o mais rápido que suas pernas aguentavam, em qualquer direção na praia deserta.
- Socorro!!! – Gritava, em plenos pulmões. – SOCORRO!!!

***

Ele já sabia que ela faria aquilo, e adorou.
O leão esperou a gazela começar a fugir, deu alguns segundos de vantagem a ela, e desatou a correr atrás dela.
Deixou um riso de diversão escapar quando começou a correr atrás dela pela praia.
Ele estava caçando, não com charme e elegância dessa vez, mas sim como um verdadeiro animal selvagem.
Não demorou nem dois minutos para alcança-la.
Puxou Helena pelo braço, em um tranco violento.
Ela gritou, apavorada.
A praia. Deserta. Sandália. Salto afundando na areia. Soluço. Garganta seca. Corpo doendo. Só havia praia e mato. Nenhuma casa. Ninguém para ajudar. Socorro!
- Não, por favor – Ela percebeu que não conseguiria se soltar. – Por favor, moço... Eu não tenho nada. Me deixe ir.
- Ir pra onde? – Pergunta ele, com toda a serenidade do mundo. – Já olhou a sua volta?
- Por favor, não me machuque – os olhos dela começaram a se encher de lágrimas. – Eu não tenho dinheiro. Minha mãe também não.
Ele ergueu uma sobrancelha, mas por dentro se divertia mais do que nunca com aquela situação.
E quem é que queria dinheiro?
- Não tem dinheiro, é?
- Não – Helena soluçava. – Você deve estar me confundindo com a Mercedes, ela sim é rica. Se me deixar ir embora te mostro a casa dela, mas me solta pelo amor de Deus...
Ele segurou os braços dela nas costas, para poder lhe falar ao pé do ouvido:
- Não tem como confundir você com a Mercedes. Ela não precisa vomitar para ficar magra... Risos.
Helena prendeu a respiração.
O que ele estava insinuando? Conhecia a Mercedes? Sabia de alguma coisa sobre ela? Ah... A estava espionando, desde aquele dia no parque!
- Você é algum tipo de maníaco? – Sussurrou, entredentes, querendo ganhar tempo.
- De maneira alguma. Sou apenas um artista. Com um jeito peculiar de ver as coisas.
- O que está fazendo? Pra onde vamos? – Nova nota de pânico na voz de Helena.
Ele a estava arrastando com ele na direção do mar.
- Sabe, Helena – começa ele, tranquilo, observando o horizonte enquanto eles começavam a avançar pela água, com ondas batendo nos tornozelos. – Normalmente sou um cavalheiro, não maltrato mulheres. Fui criado assim. Mas acho que isso não vai funcionar com você.
Helena permaneceu calada, tentando entender o que ele queria dizer, e preocupada, pois agora as ondas já chegavam na sua barriga.
Eles pararam.
Com cuidado, ele a ergueu pelo queixo, olhando no fundo dos olhos dela.
- Você uma pirralha mimada, Helena. E preciso deixar bem claro que não sou seu amigo, nem sou bonzinho, e nem tenho pena de você. Nenhuma das suas chantagens emocionais vai funcionar comigo. Ah, e pra tornar isso interessante, preciso que você me odeie.
Quando Helena ia se atrever a questionar, ele a agarrou com força pelos cabelos e pelo pescoço, forçando-a a se dobrar e mergulhando a cabeça dela na água.
A água salgada invadiu Helena pelo nariz e boca, indo direto para os seus pulmões, deixando um rastro de dor e uma ardência insuportável.
Ela deu um grito de dor silencioso e desesperado, tentando se sacudir, tentando se soltar, mas a força dele era incomparavelmente superior a dela.
Quando ela achou que não aguentaria mais, ele a puxou para cima.
Helena tossia, cuspindo água, o nariz ardendo e os olhos queimando com o sal.
- Como se sente, Helena? – Ele a observou.
Antes que ela pudesse responder, ele repetiu o gesto.
Assobiou uma música enquanto a via se debater embaixo da água, o cabelo castanho dourado flutuando, que bonito.
A puxou novamente.
Mais tossidas. Ânsias de vômito.
- Para... – Implorou ela, entre um engasgo e outro. – Para, por favor...
Ele sorriu, sentindo o calor do sol no rosto.
- Não! – Respondeu, enérgico.
O assassino repetiu a tortura mais cinco vezes antes de arrastá-la de volta para a casa.

***

      Tremendo, olhos vermelhos e garganta tampada.
Helena estava sentada em um canto, no chão, embrulhada em uma toalha.
A toalha que ele lhe dera.
Seus olhos vasculhavam a sala, tentando pensar em uma solução, achar uma saída, antes que ele a machucasse mais, fizesse algo... Algo horrível.
Mas tudo o que ela conseguia ver, de onde estava, eram livros em estantes, poltronas e nenhum objeto que servisse como uma arma, nada que ela pudesse usar para se defender.
Ele estava sentado em uma mesa diante dela, mexendo com câmeras fotográficas e outras coisas, parecendo muito concentrado e tranquilo.
Helena ficou observando-o por alguns minutos.
Deus, ele parecia tão calmo, tão normal.
Era inegavelmente bonitão, nunca que se poderia imaginar como ele poderia ser bruto, cruel...
Ele levantou os olhos para ela, como se ouvisse seus pensamentos.
- Eu já ia me esquecendo... – Diz ele, se levantando. – Tenho algo que lhe pertence.
Helena se encolhe, e seu coração dispara de repente, temendo que ele lhe fizesse algum mal.
Mas ele apenas pega algo em uma das estantes e ergue pra ela.
- Seu diário. – Diz ele, com um meio sorriso. – Eu gostaria que você continuasse a escrever nele, se não se importa.
Sem saber o que dizer, Helena pega o caderno lilás, desaparecido há alguns dias.
Ela o havia procurado feito louca.
A ideia de alguém lendo sobre todos os seus pensamentos e sentimentos mais íntimos a apavorava.
E agora...
Agora ela percebia que o diário havia caído nas mãos da pior pessoa possível.


CONTINUA

10 comentários:

  1. Perfeito como sempre Giovanna, valeu a pena esperar. :3
    Continua!!!

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  2. Obrigada, Carla!
    E peço desculpa a todos pela demora!
    ^^

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  3. Obrigada, logo teremos mais acontecimentos emocionantes... ^^

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  4. Oi Gi ^u^ (posso chamar de Gi né? ><)
    Momento off do cap: Vc tem tumblr? :3 Se sim, pode me passar? >< Eu adoraria te seguir lá. Vc até podia postar quando os caps fossem lançados por la *u*

    PS: Desculpa ta perguntando isso por aqui, mas eu não sabia outro lugar pra ir perguntar ç.ç

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  5. Oi, Vivi!
    Não, eu não tenho Tumblr...
    Normalmente posto o link dos capítulos na página do Contos e Caprichos no Facebook, e às vezes no meu Twitter (@GiovannaRubbo) ;)

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  6. Ok, obrigada ^^ (já curto a página no face *u* pena q não tenho mais twitter xD)

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  7. OMG, nossa fiquei ocupada por uns meses sem tempo pra nada, agora volto e esta tudo mudado cada vez vc se supera as series estão otimasss cada vez melhor
    Tava morrendo de saudades agora não desgrudo mais

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Súh! Que bom te ver aqui no blog outra vez!
    Fico feliz por ver seus comentários aqui de novo, seja sempre bem-vinda. :D
    Abraços.

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