sexta-feira, 9 de maio de 2014

O ROMANCE QUÍMICO - PARTE 6

6. Finja que Morreu

Sentiu as primeiras ânsias.
Contraiu mais a barriga, pressionando o estômago com o braço esquerdo, o mais forte que conseguia.
Os dedos da mão direita cutucavam a garganta, irritando-a.
Helena se curvou sobre o vaso sanitário, os olhos lacrimejando.
Estava ajoelhada sobre as embalagens  dos doces que havia devorado.
Ela havia se descontrolado, e agora tinha que pagar por aquilo. Ou seria uma porca gorda e horrorosa pra sempre.
O jato de vômito finalmente veio e deu a impressão de que seu estômago estava sendo lançado para fora.
Helena caiu no tapete do banheiro, exausta, com a barriga doendo e as vias respiratórias reclamando do rastro de ardência que o vômito deixara.
Ofegou.
Ela havia feito a coisa certa. Sem dor, nunca chegaria lá. Quando seu sagrado jejum falhava, a única saída era vomitar tudo, caloria por caloria.
Um dia, ela seria magra e linda.
Um dia, chegaria a tão sonhada perfeição.

***

Com o balançar do carro e o som do trânsito, Helena despertou.
Mais uma vez acordava, após ter sido dopada, com aquela sensação terrível de ter levado uma surra, com todo o corpo doendo e a cabeça explodindo, além da momentânea confusão mental.
Mas dessa vez ela não se moveu. Ficou em silêncio enquanto aclarava as ideias. E ficou com medo que o homem que dirigia o carro ouvisse seus batimentos cardíacos quando se deu conta do que estava acontecendo.
Ela estava deitada no banco de trás, com os pulsos amarrados, mas seu corpo estava coberto por uma manta.
O sequestrador/assassino/maluco dirigia sem pressa por uma estrada movimentada.
Helena se arrepiou com os sons das buzinas e motores dos veículos ao seu redor.
Fazia muito tempo que havia estado isolada naquela casa de praia, temendo ser atacada e morta a qualquer momento.
E agora ela estava cercada de pessoas. Talvez alguém pudesse ajudá-la. Talvez se ela...
Tornando a fechar os olhos e o mais discretamente que podia, começou a tentar soltar os pulsos por baixo da manta.
A corda não estava muito apertada, mas mesmo assim qualquer tentativa parecia inútil, ainda mais que ela não queria se mexer muito para que ele não notasse que estava acordada.
Parou de tentar no exato momento em que ele deu uma rápida olhada para trás para verificar se ela ainda dormia. Não vendo nenhum sinal de consciência, ligou o rádio do carro.
Helena reconheceu a música do My Chemical Romance que tocava, e aquilo deixou a situação ainda mais parecida com um pesadelo.
Colocou o cérebro para funcionar.
Com muito esforço conseguiu mover um dos pés, ainda dormente. Dando graças a Deus por estar descalça, tentou discretamente levantar a trava interna da porta do carro com os dedos, até ouvir o “clique” que significava que havia conseguido.
Ficou imóvel por alguns segundos, rezando para que o homem não tivesse escutado.
Quando ele permaneceu dirigindo tranquilamente, Helena se preparou para dar o próximo passo.
Seu coração estava quase saindo pela boca.
Usando um pé, puxou a tranca. Com o outro, empurrou a porta devagar...
Mais rápido do que ela poderia prever, a porta se escancarou numa curva inesperada, e o vento entrou zunindo no carro. Assustado, o homem olhou pra trás e deu uma freada brusca.
Helena não perdeu tempo.
Saltou do carro, quase tropeçando na manta, forçando seus membros dormentes a trabalharem, e correu.
Antes mesmo que pudesse ver alguém ou alguma coisa, pudesse gritar ou mesmo dar mais de cinco passos, um carro veio da direção oposta e se chocou contra ela, derrubando-a.
Helena apagou.

***
- Ela sofre de Esquizofrenia Paranóide. Descobrimos quando ela tinha cinco anos. Sempre foi muito difícil, mas os tratamentos a ajudaram. – Houve uma pausa. – Mas ela nunca ficou tão agressiva quanto agora. Tive que amarrar os pulsos dela enquanto viajávamos. E agora ela, minha irmãzinha, fica me acusando de ser um sequestrador!
- Entendo, imagino como deve ser difícil...
Helena acordou com aquela voz arrepiantemente familiar.
Estava deitada em um leito de hospital. Olhou para o lado e viu o homem sentado, e uma enfermeira em pé diante dele, com uma mão em seu ombro.
Ela tentou se sentar, mas uma dor aguda no seu tornozelo esquerdo a fez gemer.
Os dois pareceram perceber o movimento dela, pois rapidamente foram até lá.
O homem se inclinou sobre ela, dando-lhe um terno beijo na testa.
- Marcinha, quase me matou de susto. Como você está?
Helena o olhou por alguns segundos, com olhos arregalados. Depois se voltou para a enfermeira loira dos lábios finos que a encarava.
- Me ajude. – Sua voz saiu em um fio de voz. – Não acredite nele. Ele é louco. Ele me sequestrou... – Ela falava com a mulher olhando para o homem, esperado que ele fizesse algo para calá-la a qualquer instante, mas ele apenas a olhava com um ar de genuína preocupação. Helena explodiu. – Me tira de perto dele! Ele é um assassino, ele mata mulheres e depois fica tirndo fotos delas...
A enfermeira tentou fazê-la se encostar na cama.
- Acalme-se, moça...
- Não! Você não entende! – Helena olhava de um para o outro, perplexa. – Precisa acreditar em mim! Tudo o que ele inventou, que eu tenho problemas mentais, é mentira! Ele me sequestrou e vai me matar! Você precisa chamar a polícia!
Os gritos de Helena atrairam dois enfermeiros para o quarto. Eles pararam perto da porta, esperando qualquer sinal de descontrole para ajudar a companheira de trabalho que tentava tranquilizar a paciente.
- Relaxe – pediu a enfermeira. – Vai ficar tudo bem. O doutor já está vindo, e você vai poder conversar com ele.
- Levem esse homem para longe de mim! – Helena berrou.
O homem – com expressão de puro sofrimento – deu um passo para trás.
- Marcinha...
- Ele é seu irmão, Márcia. – Sussurrou a enfermeira. – Tente se lembrar.
Helena sacudiu a cabeça.
- Não, é mentira! Ele não... – Uma ideia lhe apareceu. – Prove! Se é mesmo meu irmão, onde estão nossos documentos?
O homem pareceu surpreso por alguns segundos.
A enfermeira se voltou para ele, e Helena imaginou se a expressão dela era de dúvida.
- Viu? Ele não tem meus documentos! Meu nome não é Márcia, e ele não é meu irmão porra nenhuma!
Para a surpresa de Helena, o estranho tirou dois RGs da carteira e entregou nas mãos dela.
- Olhe.
Helena arregalou os olhos quando viu uma foto 3x4 dela mesma há dois anos atrás, sorrindo para a câmera, acima de um nome que não era o seu.
Quase tão chocante era o outro documento, mais antigo, com uma versão mais jovem do assassino estampada na foto e o nome Vitor Paladini escrito nele.
De todos os nomes que Helena poderia ter imaginado para o charmoso e demente sequestrador, Vitor não estaria entre eles.
- Esses documentos são falsos! – Gritou Helena, preparando-se para saltar do leito e sair pulando em um pé só, quando um homem gordo e grisalho entrou no quarto.
- O que está havendo por aqui? – O médico leu algo na prancheta que trazia e depois levantou a cabeça. – Muito bem. Márcia Paladini. Me deixem a sós com a paciente.
Os enfermeiros se retiraram prontamente, mas o homem hesitou.
O médico o olhou por cima dos óculos.
- Aguarde na recepção, por favor.
Helena acompanhou o sujeito com o olhar enquanto ele se retirava.
Seu coração martelava e suas mãos tremiam. Ela tinha que provar que não era nenhuma louca. Talvez nunca mais tivesse uma oportunidade como aquela de se livrar do sequestrador.
O médico deu um pigarro.
- Então, Márcia, deu um belo susto no seu irmão, não foi?
Helena respirou fundo.
- Senhor, eu sei que ele te disse que sofro de problemas mentais. Mas isso não é verdade. Eu não conhecia aquele homem. Ele me sequestrou há... Sei lá, dois meses. E ele é um assassino perigoso. Sei que parece loucura mas precisa acreditar em mim. Meu nome é Helena Magalhães, e se me deixar dar um único telefonema vai ver que estou falando a verdade.
O médico apenas a encarava, sério.
Helena se inclinou para frente.
- Por favor, não deixe que ele me leve outra vez. Não estou louca, falo sério. É muito fácil falsificar documentos e dizer que sou maluca, mas se eu puder ligar pra minha mãe... Ela vai chegar aqui com a polícia, seja lá que cidade seja essa...
O homem colocou a caneta e a prancheta sobre o criado mudo e continuou em silêncio.
- Você quer abrir minnha cabeça e ver se está tudo bem com o meu cérebro? Eu já tive consultas com psicólogos antes. Posso ter sido uma anoréxica maldita, mas esquizofrênica? Nunca.
O silêncio do médico, que a estudava com os olhos, só a deixava mais e mais nervosa.
- Um telefone, por favor. É tudo o que eu peço.
O médico se inclinou na direção de Helena, colocando o estetoscópio nos ouvidos e encostando a ponta no peito dela, escutando os batimentos acelerados.
- Não diga mais nada. – Ele falou baixo, mas mesmo assim olhando em volta. – Não diga seu nome verdadeiro a mais ninguém. Tente não falar nem demonstrar nada, e quando eu te der algum sinal, tenha um ataque. Grite, tente fugir, faça um escândalo. Então vão te levar para o andar de baixo, e só assim vou poder te ajudar.
Helena arregalou os olhos.
- Tudo bem. – Disse ela.
Ele se afastou, anotou algo na prancheta e chamou a enfermeira loira de novo.
- Ela fica em observação até amanhã. - Deu uma última olhada na garota e saiu.

***

Helena estava terminando a sopa rala que a enfermeira havia insistido para que ela comesse quando recebeu o sinal que esperava.
Pela janela ela via que já estava ficando escuro, e ela provavelmente havia passado horas naquela maca.
O mesmo médico que havia prometido ajudá-la parou na porta do quarto por um breve instante e fez um sinal de positivo com a mão.
Helena assentiu discretamente, mas esperou que ele se afastasse para por em prática o seu próprio plano.
- Moça, preciso usar o banheiro.
A enfermeira a ajudou a se levantar e a conduziu até o banheiro do quarto, tomando cuidado para que o tornozelo enfaixado não tocasse no chão. Para o desespero de Helena, ela foi entrando e fechando a porta atrás de si.
- Não... – Helena franziu a testa. – Moça, não consigo fazer xixi com outra pessoa olhando.
- Tudo bem. – A enfermeira se virou. – Eu fico de costas.
Helena revirou os olhos.
- Não dá. Preciso que você saia.
A enfermeira olhou para Helena e para o banheiro sem janelas, hesitante. Até que assentiu.
- Tudo bem. Mas deixe a porta destrancada. E me chame quando acabar.
- Pode deixar.
Helena não perdeu tempo.
Assim que a porta se fechou, pegou o sabonete que estava na pia e o enrolou na ponta do papel higiênico que estava no rolo. Atirou o sabonete enrolado no rolo no vaso e puxou o cordão da potente descarga.
Com prazer, viu o papel ir se dessenrolando e entupindo cada vez mais o vaso, feliz por ter aprendido aquele truque com os amigos babacas de Diego.
Atirando o rolo todo no vaso como toque final, chamou a enfermeira.
- Moça, essa privada está entupida.
A enfermeira foi checar.
Deu descarga três vezes sem obter resultado.
Irritada, olhou para Helena.
- Se eu buscar uma comadre...?
- Nem pensar.
Com um longo suspiro, a enfermeira saiu do quarto e voltou logo em seguida com uma cadeira de rodas.
- Vamos.
Helena se apoiou nela e se deixou empurrar até o elevador, onde desceram para o andar térreo.
O médico-nada-convincente devia estar por ali.
Ela começou a ficar apreensiva.
- Ai, moça... Parece que a minha bexiga vai explodir!
A enfermeira apertou um pouco mais o passo.
Helena olhava em volta, procurando por uma saída, quando alguém parou diante dela.
Por um momento, achou que fosse o homem.
Mas era o médico.
- Karla, precisam de você na pediatria – disse ele, para a enfermeia.
A mulher apontou para Helena.
- Ela quer ir ao banheiro, e o vaso do quarto dela está entupido...
- Eu cuido disso.
Helena viu, preplexa, a enfermeira seguir reto pelo corredor, enquanto o médico assumia o controle da cadeira de rodas, dando meia volta no corredor.
- Eu achei que tínhamos combinado outra coisa. – Disse ele, secamente.
Helena fez uma careta.
- Achou mesmo que eu fosse fingir que sou louca? Ai sim ninguém ia acreditar em mim.
O médico deu um sorriso pálido, que Helena não viu.
- Mas eu disse que ia te ajudar a sair do hospital, não é? E vou cumprir a minha palavra.
 A conduziu para o elevador, onde desceram para o estacionamento no subsolo.
Quando as portas se abriram, Helena gritou.
O assassino estava lá.
- Ela é mais esperta do que pensamos. – Diz o médico, enquanto pegava o bolo de notas que o homem lhe oferecia.
O homem sorriu para Helena.
- Muito bem. Você já me deu muito trabalho. Hora de colocar um ponto final nisso.

***

Helena ficou em silêncio total enquanto o homem dirigia.
Agora ela apenas rezava, com lágrimas escorrendo pelo o rosto, para que sua morte fosse rápida e o menos dolorosa possível, mesmo sabendo que aquele sádico gostava mesmo é de ver sofrimento.
Quando o carro parou, os nervos de Helena já estavam a flor da pele.
Ela achou que iria desmaiar quando ele a puxou para fora do veículo e a obrigou a se apoiar nele para poder andar.
Estavam em uma rua escura e deserta.
Helena não sabia onde estava, mas uma garota com aspecto sujo veio até eles. Ela era magra, e tinha uma estatura parecida com a de Helena.
- Cadê o bagulho? – Perguntou para o homem.
Ele fez um sinal para que ela os acompanhasse.
Chegaram ao que parecia a entrada de uma fábrica, onde havia uma cabine com um porteiro ao lado do portão.
O coração de Helena sacudia dentro do peito enquanto o assassino colocava luvas cirúrgicas. 
O homem fez sinal para o porteiro, que abriu o portão para eles e entregou um molho de chaves ao assassino.
Continuaram avançando, até que os três chegaram diante de uma enorme câmara silenciosa.
O homem destravou a porta.
- Tire a roupa. – Disse, se dirigindo à garota suja.
Ela não pareceu surpresa, mas disse:
- Primeiro o bagulho.
- O “bagulho” está aqui. – Disse o homem, erguendo um saco de papel. – Tire a roupa.
A garota tirou o jeans encardido e a camiseta manchada, ficando apenas de calcinha.
Helena observava de olhos arregalados.
O homem lhe entregou o saco de papel e ordenou que ela entrasse na câmara, e a menina obedeceu sem contestar.
Ele então tirou um saco de lixo do bolso do casaco, colocou as roupas jogadas dentro dele e o jogou dentro da câmara também.
Travou a porta do compartimento novamente, e se virou para Helena.
- Tire a roupa.
Helena deixou as lágrimas caírem.
- Não! Eu não sou nenhuma drogada imunda que vai ficar nua pra você! – Gritou.
Ele riu.
- Que maldosa, Helena. Deveria agradecê-la. Ela não sabe, mas vai morrer no seu lugar.
Helena o olhou, sem entender.
- Agora tire a roupa se não quiser morrer também.
Trêmula, Helena tirou o moletom e a camiseta.
Usava o corpete que havia usado na noite da festa, quando foi sequestrada.
- O corpete – ordenou ele, impassível.
Virando-se, Helena tirou o corpete e o jogou no chão, cobrindo os seios com as mãos.
O assassino se aproximou dela e ela fechou os olhos, apavorada.
Sentiu o hálito quente dele em sua nuca, e se encolheu quando ele arrancou alguns fios de cabelo dela.
Ele se afastou, e jogou os fios sobre as roupas que ela havia tirado, no chão.
Helena ousou se virar, e ele sorriu pra ela.
- Já viu um incinerador de lixo funcionando antes? –Perguntou ele.
Antes que ela pudesse pensar em algo pra dizer, ele puxou uma alavanca.
Ela pôde sentir o calor súbito do incinerador fechado diante dela, e o grito agoniante da menina deixou-a em choque.
O homem apenas tirou o próprio casaco e o jogou para Helena, que se cobriu com ele, trêmula.
O assassino a arrastou para fora dali, dando para o porteiro um bolo de notas igual ao que havia dado ao médico.
Ele assobiava, enquanto dirigia, aparentemente feliz.
Helena só conseguia pensar no rosto sujo da garota, sendo consumido pelas chamas de um inferno de lixo.

CONTINUA

3 comentários:

  1. Gi, quanto tempo *u*
    Entro todos os dias pra ver se tem história nova e já estava ficando preocupada u.u Espero q esteja tudo bem com vc (>u<)/
    Quanto ao cap... Eu odeio quando as personagens principais são enganadas por coisinhas tão obvias, então já é de se esperar q eu tenha ADORADO esse cap xD
    E eu concordo com esse médico, a Helena é bem mais esperta do q eu podia imaginar, subestimei ela o.O
    Agora com esse final vou ficar ansiosa pra saber o q ele está planejando pra Helena xD
    Enfim, cap incrível como sempre, um abraço :3

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  2. Eu estava com saudades Giovanna!
    Adorei esse capitulo, mas pra mim, ele parece curto demais :c
    Estou gostando tanto de O Romance Químico que estou cada vez mais ansiosa para saber o que esse homem vai fazer com Helena.
    Adorei o capítulo. <3

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  3. Ahhh meninas! *-*
    Eu também estava morrendo de saudade de postar s2 s2 s2
    Que bom que gostaram, obrigada por não terem se esquecido do blog, mesmo com a minha ausência. :D
    Muita coisa legal vem por aí, fiquem de olho!

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