segunda-feira, 26 de maio de 2014

O ROMANCE QUÍMICO - PARTE 8


8. Festa depois do Funeral

Helena acordou com o som da porta da sala batendo.
A porta do quarto estava fechada, e ela já sabia por dedução que o homem havia saído para fazer sabe-Deus-o-que.
Esfregou os olhos.
Havia sonhado com imagens perturbadoras a noite inteira.
Era diferente do sono inquieto, leve e agitado que  ela geralmente tinha naqueles dias em cativeiro com um assassino. Havia dormido como uma pedra, porém assombrada por rostos tristes e dor para todos os lados.
Havia recordado o seu triste velório, e o quanto estivera perto de todas as pessoas que mais a amavam e que choravam sua morte.
Mas o sonho mais triste havia sido o de uma mãe morrendo diante dos olhos assustados do filho, que segurava uma câmera fotográfica analógica enorme.
Helena colocou as mãos sobre o rosto, ainda deitada.
Meu Deus, porque ela estava tão perturbada com aquela história? Por que aquele sentimento de piedade pelo assassino?
Ela ficava remoendo as lembranças do dia em que ele quase a havia afogado na praia, do prazer no rosto dele ao vê-la assustada, ao fazê-la se sentir tão agoniada... E sentia raiva dele. Ódio daquele miserável que estava acabando com a sua vida.
Mas, ao mesmo tempo, aquela história da criança que viu a mãe ser assassinada e que desde então tentava reproduzir a foto perfeita de uma mulher morta, não saia da cabeça dela.
Helena queria acreditar que era tudo invenção dele, mas ela simplesmente não conseguia. Será que todo assassino louco e obcecado tinha um passado marcado por perda e dor? E, se tinha mesmo, seria motivo suficiente para sentir alguma pena dele, mesmo depois de todo o mal que ele havia causado?
Quanto mais ela pensava, a confusão em sua cabeça parecia piorar.
Foi até a janela do quarto e empurrou o vidro. Só conseguia abrir alguns centímetros, mas ela queria respirar um pouco de ar puro.
Observou as pessoas lá em baixo, caminhando na calçada, apressadas, do tamanho de formigas.
Se eu conseguisse passar por essa janela, talvez pulasse. Pensou ela. Meu corpo ia se arrebentar na calçada, e minha cabeça ia estourar como uma fruta podre...
Ficou ali por alguns minutos, onde o som distante de uma buzina ou outra chegava aos seus ouvidos.
Surpresa, se deu conta de que fazia um bom tempo que ela havia parado de pensar em uma maneira de escapar. Antes ela só pensava nisso.
Agora parecia não haver diferença, tentar ou não.
Ouviu a porta da sala abrir, e continuou ali, indiferente.
Depois escutou a tranca do quarto ser aberta, e se virou.
Susto foi o que teve ao dar de cara com outro homem.
Helena o reconheceu. Era um dos funcionários da recepão do hotel, um cara de cabelo escuro e com o nariz um pouco torto.
Ela nem sabia o que dizer, mas qualquer pedido de ajuda morreu em seus lábios quando o ele deu um sorriso detestável e fechou a porta atrás dele.
Ela se alarmou.
- Seu irmão te deixa muito sozinha, não é? - Perguntou ele, indo na direção dela. – Eu vim te fazer companhia.
Dizendo isso, ele a puxou pelo braço, e Helena fez de tudo para empurrá-lo, mas estava tão fraca que qualquer tentativa de luta era inútil.
O cara do nariz torto apertou o rosto dela com a mão.
- Você não parece retardada. Não lute, gostosa. Tentar resistir só piora.
Ela fincou as unhas nos braços dele, mas foi ignorada.
- Me solta, seu porco imundo! Socorro! – Gritou, sabendo que ninguém ia ouvir.
O cara do nariz torto a empurrou para a cama, fazendo-a bater as costas tão forte que ela perdeu o fôlego.
Ele segurava os braços dela com uma mão e abria o zíper da calça com a outra.
Helena sentiu lágrimas nos olhos.
Ela havia passado por muita coisa nos últimos tempos. Mas ela não ia ser violentada. Isso ela não ia deixar acontecer nunca, nem que a matassem por isso.
Era preferível morrer a passar por aquilo.
Reunindo toda a suas forças e se aproveitando da breve distração dele em abrir o cinto, Helena o chutou nas partes baixas.
Ele uivou de dor e a xingou, mas não a soltou.
- Bem que o seu irmão falou que você tem problemas mentais. Vai pagar muito caro por isso, sua vadia.
O rosto de Helena pareceu queimar com a força do tapa, fazendo-a gritar, e ela ia levar outro se não fosse a porta se abrindo atrás do cara naquele momento.
Era ele.
O homem, o sequestrador.
E ele estava furioso.
- O que está acontecendo aqui? – Sua voz foi alta e autoritária, a até Helena se arrepiou.
O cara do nariz torto apressou em abotoar as calças, gaguejando.
O homem avançou contra ele, segurando-o pela gola da camisa.
- Como se atreve a entrar aqui? Como se atreve a tocar na minha irmã?
O cara do nariz torto o empurrou, e o homem deixou.
- Sua irmã? Foi ela quem me chamou aqui... Ela que estava querendo uma aventura...
O homem sacou uma pistola do casaco.
- Mentira. – Disse.
O cara ficou pálido.
- Calma, senhor, eu...
O homem avançou e colocou a arma na boca do outro, com a expressão vazia habitual.
Helena viu o cara tremer, e sentiu um prazer estranho.
- Não gosto que mintam pra mim. Não gosto que entrem no meu apartamento quando eu não estou. E não gosto que encostem em um fio de cabelo que seja da minha irmã, entendido?
O cara do nariz torto fez sinal positivo com a mão e fechou os olhos, e uma lágrima escorreu pelo seu rosto, junto com o suor.
O homem se afastou com a arma depois de alguns segundos.
- Saia.
O cara se apressou em sair e bater a porta da sala atrás de si.
O homem olhou para Helena como se nada tivesse acontecido.
- Vá comer alguma coisa.

***

Depois de se forçar a tomar um iogurte e comer um pedaço de pão, Helena ficou examinando o assassino enquanto ele mexia em suas câmeras e lentes sobre a mesa da sala.
Ela agora, mais do que nunca, sentia mais curiosidade do que medo em relação a ele.
Devagar, se aproximou da mesa.
- Achei que você tivesse mandado aquele cara para me torturar. – Disse ela, de uma vez só.
Ele ergueu os olhos para ela.
- Ora, Helena. Torturar? Eu não faço isso com você. Pelo menos não fisicamente. – Respondeu ele, com um meio sorriso.
- E naquele dia, na praia? – Indagou ela, tentando adotar um tom tão frio quanto o dele. – Você encheu os meus pulmões de água salgada.
- Aquilo – diz ele, sério. – Foi só para mostrar que eu não sou seu amigo, e nem tenho pena de você, diferente do mundinho com o qual você estava acostumada, onde tudo e todos giravam ao seu redor e tinham pena da pobre anoréxica.
Helena franziu a testa, e ele continuou a mexer em uma das câmeras.
Ela estava pensando em desistir de dialogar com ele e voltar para o sofá, quando ele continuou:
- Além disso, eu sou totalmente contra a ser rude com uma mulher.
Helena não conseguiu conter uma gargalhada seca.
- Ah, não? Somente as mata, não é?
- Eu não as mato, simplesmente – diz ele. – Eu as torno obras de artes imortais. Muito mais do que suas vidinhas inúteis representam.
- Acho que elas não concordariam com isso.
- Elas não têm que concordar com nada. – Ele encarou Helena. - São apenas mulheres mais bonitas do que você e ainda mais vazias. Algumas da alta sociedade, outras tão pobres que não têm onde caírem mortas. Tão carentes e ao mesmo tempo ambiciosas, que quando um homem gentil, cavalheiro e misterioso aparecem, elas se tornam fáceis de seduzir.
- Você não é tão irresistível. – Retruca Helena.
O homem ri.
- Não sou? Tenho que discordar. Com o tempo, passei a conhecer bem as mulheres, embora cada uma seja diferente da outra. Por incrível que pareça, a grande maioria delas quer apenas respeito, liberdade e carinho.
- E viver. – Acrescenta ela.
O assassino apenas a olhou, intrigado.
Depois se levantou.
- Venha comigo.
Helena o acompanhou com o olhar.
Ele destrancou a porta do quarto onde ele dormia e tudo o que ela pôde ver foi um cômodo escuro. Hesitante, Helena o seguiu.
As janelas do quarto pareciam ter sido cobertas com tecidos pretos, e quando ele fechou a porta Helena notou a luz de emergência vermelha, única iluminação do ambiente.
O cheiro forte de produtos químicos tomava o ambiente.
- É assim que essas adoráveis mulheres renascem de novo. – Disse ele, apontando para as fotos recém-reveladas fixadas em um espelho enquanto secavam. – Com apenas alguns produtos e usando princípios químicos básicos, elas ressurgem nas minhas mãos.
Helena olhou para a silhueta dele.
- Essas fotos são o seu grande amor. – Declara ela, fria.
- Com toda certeza seriam, se eu fosse capaz de sentir algum amor.
Helena ficou em silêncio, se perdendo na escuridão ao seu redor. Tudo vermelho e preto, e as fotos das mulheres lindas sangrando...
Talvez o cheiro dos produtos a tivesse deixando tonta, mas ela teve vontade de ficar ali para sempre.
Sentiu o corpo dele se aproximar do seu, e ficou imóvel, arrepiada.
- Você sabe quem eu sou.
- Nem sei o seu nome verdadeiro.
- Mas sabe o que eu faço.
- Sei.
- E mesmo assim, iria pra cama comigo?
Silêncio.
Ela sentiu o hálito de café e hortelã dele e não pode resistir.
Toda a tensão, o medo, o pânico paralisante dos últimos tempos havia se dissolvido em loucura, loucura total.
Ela queria se arriscar, sim.
Queria transar com o assassino bonitão, e depois lutaria para sobreviver aos golpes de facadas dele.
Ia lutar como nunca antes, ou ir parar na galeria de retratos sanguinários.
Um único par de olhos castanhos esbugalhados em meio aos olhos azuis.
Helena deslizou as mãos sobre o peito dele, até alcançar o seu rosto. A barba por fazer pinicou as mãos dela.
Quando o beijou, sentiu uma adrenalina que nunca havia imaginado ser capaz de produzir.
Que insanidade, Deus... Aquilo poderia ser o último passo para um assassinato brutal.
As mãos dele levantaram a camiseta dela, e de algum mudo eles acharam uma cama no meio da escuridão escarlate.
Acabou. Pensou Helena. Acabou tudo.
Mas ela não parou.

***

Quando acabaram, Helena estava ofegante.
- Minha nossa, você é tão melhor do que o Diego...
O homem riu.
- Não culpe o seu namorado, Helena. Ele não tem culpa se você só fazia sexo para se exibir para as suas amigas. Sexo só é satisfatório se feito por desejo.
Ele se mexeu ao lado dela, e Helena ficou tensa.
Ele não vai me surpreender. Vou ficar alerta.
- Quer um cigarro?
Helena recusou, e ele jogou o maço longe.
- Você não fuma? – Perguntou ela.
- Fumava. – Revidou ele.
O homem se levantou e começou a se vestir.
Helena se sentou na cama, se cobrindo com um lençol.
- E agora? Nós transamos. Você vai me matar, não é?
Ele se virou para ela, com ar divertido.
- Helena... Bom, como eu posso dizer isso? Você não faz meu tipo. E agora você sabe demais, sabe de tudo. Não é bonita o suficiente, nem tem os olhos certos. Não daria fotografias úteis. – Ele fez uma pausa. – Pensando bem... O que eu posso fazer com você?
Ela esperou pela resposta dele à própria pergunta.
Estava tão atenta a cada movimento dele, que percebeu quando ele abriu um largo sorriso na luz vermelha.
Ela já não sabia dizer se sorrisos eram um sinal bom ou ruim.
- Eu tenho uma proposta pra você... – Começa ele.

CONTINUA

4 comentários:

  1. Assim q eu vi a imagem no começo do cap eu sabia q alguma coisa ia acontecer entre eles xD
    Gostei muito desse cap e ele meio q evidenciou uma coisa q ja tava batucando na minha cabeça de uns caps pra cá /o/
    Tipo, eu obviamente não sou uma especialista e tudo q eu sei sobre isso eu li na wikipédia mesmo, mas... Definitivamente a Helena ta com síndrome de Estocolmo xD Tipo, tem q ser >u<

    Mas eu preciso perguntar: Gi, foi intencional fazer a série com a protagonista desenvolvendo essa síndrome? Ou vc só queria o romance entre eles sem se preocupar com a síndrome?(Aliás deixa eu abrir um parênteses aqui dizendo q desde o começo eu tava meio q querendo q isso acontecesse >.> ... Acho q tenho uma queda por "romances impossíveis" x.x -q)

    Ah, quase ia esquecendo... Eu sei q é uma coisa bem bobinha e acho q irrelevante pra história, mas eu gosto de saber desses detalhes... Qual a diferença de idade entre eles? Tipo, a Helena fala q ele é um homem então eu imagino um cara entre 27 e 30 anos, ja a Helena é só uma adolescente, então meio q fica essa curiosidade de diferença de idade entre eles pra mim xD
    Aliás, obrigada por me responder no último cap õ/
    Um abraço :3

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  2. Percebi que a Vivi se interessa em saber a diferença de idade entre eles. Eu quero saber o nome dele *O* (ousado da minha parte? hahaha) Até o capítulo passado eu não me interessei muito pelo nome dele, mas agora eu estou curiosa.
    O romance está começando?? :3
    Juro. Estou cada dia mais curiosa para saber o que vai acontecer com os dois. :) Continua, por favor??

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  3. giovanna você tem muito talento.parabems irmã qurida.

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  4. Obrigada, garotas! *---*
    Vivi, sim, a Síndrome de Estocolmo desenvolvida pela Helena foi puramente intencional, eu já tinha planejado desde o início da história. Eu não estou certa quanto a idade do homem.
    Acreditem ou não, ele também é um mistério para mim. Acredito que ele ainda não esteja na casa dos 30, mas com certeza tem mais de 25. XD

    Quanto ao nome, Carla, eu não sei se ele vai revelar o nome verdadeiro até o final da série. Tudo o que Helena sabe é o nome falso dele, Vitor Paladini, que foi mencionado no capítulo
    6, quando ele mostra dois RGs (obviamente falsificados) no hospital.

    Mari, obrigada pela visita, sister! ;)

    Adoro ler os comentários de vocês, espero que a série as entretenha cada vez mais :D

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