domingo, 6 de julho de 2014

O ROMANCE QUÍMICO - PARTE 9

9. Aceite o Desafio e Vá Embora

O peito de Helena subia e descia enquanto ela tentava se tranquilizar.
Tentava, em vão, fazer suas mãos pararem de tremer.
Apertou o cabo da faca, segurando-a com firmeza, se perguntando se haveria alguma chance daquilo dar certo.
O apartamento vazio e pouco iluminado, aquele silêncio de pura tensão, só pioravam o estado dela.
Ela havia aceitado o desafio, porque teve medo do que poderia lhe acontecer se recusasse.
Meu Deus do céu, aquele homem era louco. Insano. Completamente maluco. E terrivelmente esperto. Ironicamente convincente.
Helena já não sabia se o odiava, ou, no fundo, o admirava.
Escutou passos no corredor e recuou instintivamente, segurando a faca atrás das costas.
Se agachou, encostada ao balcão da sala.
Ouviu a voz baixa do homem do outro lado da porta, e teve vontade vomitar.
- Conversei com ela e realmente lamentamos muito o ocorrido. – Dizia ele. – Pode entrar. Ela está esperando. Quer se desculpar pessoalmente.
Helena jurou ter escutado um sorriso na voz dele.
Ouviu a porta do apartamento ser destrancada e aberta.
Fechou os olhos.
Era tarde demais para desistir.
- Gata? – Chamou o cara de nariz torto, atravessando a sala. – Eu estou aqui. Seu irmão disse que tem uma coisa que você quer... Me dar.
Helena prendeu a respiração.
Com cuidado, escondeu a faca na lateral do shorts.
Quando ele chamou de novo, ela se ergueu devagar, surgindo atrás do balcão.
- Aí está você. – O cara do nariz torto sorriu, caindo no sofá e fazendo sinal para que ela se aproximasse.
Suas pernas quase não obedeceram, mas ela caminhou até o sofá e se sentou o mais distante possível dele.
Ele não demorou a se aproximar.
- Está tão quieta... – Passou a mão no rosto dela e, em seguida, em uma das suas pernas. – Mas tenho certeza de que logo vou conseguir fazer você emitir vários sons...
Helena tentava reprimir o asco e controlar a respiração.
Quando ele começou a puxá-la pela cintura e a beijar o seu pescoço com hálito de cerveja barata, ela não aguentou mais e o empurrou.
- O que foi, boneca? – Ele sorriu. – Você gosta de tentar dificultar as coisas, não é? Por mim tudo bem. Também gosto mais assim.
Dizendo isso, ele puxou as pernas dela e se deitou sobre ela no sofá, segurando seus pulsos acima da cabeça.
Helena gelou.
Assim ela não conseguiria alcançar a faca.
Precisava fazer soltá-la.
Precisava enganá-lo...
- Espera. Por que não vamos para o quarto? – Ela sorriu, confiante. – É mais confortável. E posso mostrar tudo o que eu sei fazer...
O cara do nariz torto sorriu.
- Safadinha. Eu já sabia desde o início que você só se faz de inocente.
Helena conseguiu dar um riso convincente, e quando ele a soltou, o guiou para o quarto.
Fez com que ele se deitasse na cama, e se sentou sobre ele, hesitante.
Era o momento.
Ele estava completamente relaxado e vulnerável.
- Mostre os peitos – exigiu ele.
Helena deu um sorriso macabro.
- Não. Vou te mostrar outra coisa.
O sorriso dele foi substituído por surpresa quando ela puxou a faca de cozinha escondida no shorts, mas ele não teve tempo de reagir.
Em segundos, a lâmina havia sido enterrada em seu estômago.
O homem gritou, e Helena se afastou dele, o pavor a dominando de novo.
Ele urrava, com o sangue escorrendo para a cama, tentando tirar a faca enterrada em seu ventre.
Ela quis correr dali, nauseada, mas sabia que tinha que terminar o que havia começado.
Usando toda a sua força, pegou o abajur que ficava sobre a mesa de cabeceira e desferiu um golpe na cabeça dele.
Uma, duas, três vezes, até o abajur se partir em cacos.
Ele estava inconsciente agora, com sangue da cabeça espirrando na parede, tingindo tudo de vermelho.
Reprimindo a ânsia e o terror, Helena tirou a faca da barriga dele (o que fez um barulho agoniante).
Estava quase vomitando, mas ele ainda respirava.
Ela tinha que acabar com aquilo logo.
Ergueu a faca e voltou a esfaqueá-lo, em vários pontos da barriga e tórax.
O sangue sujava a sua roupa e lágrimas borravam sua visão, mas ela não parou.
Não parou até ter certeza de ter atingido o coração, e de que o cara do nariz torto já não passava de um cadáver.
Helena largou a faca, ofegante, e se encolheu, sentada no canto do quarto, cobrindo o rosto com as mãos escarlates.
Não demorou muito para o homem entrar no apartamento, comendo uma maçã.
Ele deu uma boa olhada no corpo sobre a cama.
- Caprichou – comentou ele, soltando um assobio. – Estou impressionado. Embora você tenha feito sujeira demais.
Helena o encarou, ainda em choque.
- Parabéns, Helena. Você não é tão fraca e inútil quanto eu pensava. Acho que progrediu muito nesses últimos meses. Onde está a garota estúpida, fraca e indefesa agora?
- Vai me deixar ir? – Ela perguntou.
Ele assentiu.
- Claro. Foi o nosso acordo, não foi? Pode voltar pra casa. – Ele fez uma pausa. – Ou talvez ir pra qualquer outro lugar. Te darei algum dinheiro. Pode recomeçar uma vida bem longe daqui. Longe daquela sua cidadezinha podre, onde acham que você está ainda mais podre, debaixo da terra.
Helena suspirou, abraçando os joelhos.
- Você está mentindo, não está? Nunca vai me deixar ir.
- Eu não costumo mentir. Você está livre. Seu cativeiro acabou.
Ela se levantou, encarando-o.
- É mesmo? Não tem medo que eu te denuncie?
O homem riu alto, para a surpresa dela.
- Me denunciar? Nunca. – Ele sorriu. – Você deveria saber melhor do que ninguém que não será capaz disso. Você me admira, Helena. Sei que admira. E se tornou tão “ruim” quanto eu. Olhe para aquela cama. Isso não foi apenas legítima defesa, não?
- Você me disse que eu só ficaria livre se o matasse! – Acusou ela.
- E desde quando precisa transformar alguém em farrapos sangrentos pra matar? Mas, tudo bem. Me denuncie se for capaz. Chame a polícia. Dê entrevistas para os jornais. Não importa. Aqueles porcos já estão atrás de mim há muito tempo. Eles nunca irão me pegar vivo.
Ela não respondeu.
- Sabe – continuou ele. – Quando li o seu diário, quando eu conheci cada detalhe da sua vida estúpida, eu quis fazer algo diferente. Nunca planejei matá-la, querida. Pelo contrário. Eu quis fazer uma experiência. Descobrir até onde você seria capaz de ser uma adolescente idiota, ou se havia alguma chance de evolução. E aí está. Parece que tive sucesso. Agora você pode enxergar o mundo e a miséria interna dos seres humanos como nunca foi capaz antes. Minha missão está cumprida, e foi divertido, apesar de trabalhoso. Mas agora quero paz. Quero continuar com a minha vida. E você decide o que irá fazer com a sua.
Helena continuou em silêncio.
- Vá se lavar. – Diz ele, saindo do quarto. – Te dou uma carona até a rodoviária.
***

Helena desceu do carro, hesitante.
Trazia consigo apenas a sua bolsa, que o homem lhe havia devolvido, junto com seus documentos verdadeiros e o celular sem bateria.
Ele a olhou por trás dos óculos de sol.
- Tome – disse, lhe estendendo um envelope com dinheiro. – É o suficiente para voltar pra sua casa e comprar sapatos caros que a Mercedes não tem. Ou ir para o outro lado do país e se hospedar em um hotel barato por algumas semanas.
Helena o encarou, mas ele apenas deu um dos seus sorrisos vazios.
- Ah, e isso também é seu. – Disse, lhe entregando o diário, que trazia no bolso do casaco. – Tome cuidado com ele, e não o deixe cair em mãos eradas de novo.
Ela não conseguia se mexer.
Uma emoção estranha formou um bolo em sua garganta.
- Vitor – ela o chamou pelo nome falso que o havia visto usar uma vez. – Vou te ver outra vez?
Ele riu.
- Não, Helena. Pode voltar pro seu mundo de contos de fadas anoréxicas outra vez. Não a perturbarei novamente.
Ela se inclinou e deu um rápido beijo nele.
O homem apenas riu dela, e entrou no carro, dando partida logo em seguida.
Ela olhou para as pessoas em volta.
A sensação de liberdade era longe de ser boa.
Estava mais próxima de estranha ou irreconhecível.
Forçou seus pés a caminharem na direção da rodoviária.
Ela ia pra casa.


CONTINUA

4 comentários:

  1. SÉRIO? ELA VAI PRA CASA?
    Por que eu não consigo acreditar nisso? O.o
    Sei lá, é "bom de mais" para ser verdade e eu tenho certeza que eles ainda irão se ver, estou certa?
    Amei o novo designer do blog, está tão fofo :3

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  2. Obrigada, Carla!
    Normalmente eu tento fugir um pouco do "fru-fru" mas é legal variar e eu também gostei... XD

    E quanto a Helena se reencontrar com o assassino, há uma possibilidade beeem grande, apesar dele garantir que não.
    Não creio que ele vá realmente deixá-la em paz, por mais que a tenha deixado partir (falei até demais) XD

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Oi, Vivi!
    A garota do template é um desenho da Marceline, mesmo XD
    Peguei daqui: http://wifflegif.com/gifs/280651-hgora-de-aventura-hora-de-aventura-gif
    (Deixei os créditos na barra lateral direita do blog)

    Fico muito feliz que você tenha gostado do capítulo, continue acompanhando a série ^^

    E quanto "A Sétima Encruzilhada" está parada, mas não abandonei, não. Ainda vou continuar. :D

    Abraços!

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