domingo, 3 de agosto de 2014

O ROMANCE QUÍMICO - PARTE 10


10. Morta!

Querido Diário,

Eu nunca me senti tão infeliz em toda a minha vida.
Estou sentindo que vou explodir a qualquer minuto.
Queria me entupir de calmantes e apagar, mas meus pais estão me vigiando o tempo todo.
Parece que eles se reconciliaram e o meu pai agora voltou a morar aqui.
Você deveria ter visto a cara deles quando eu cheguei.
Meu pai abriu a porta e quase caiu pra trás.
Gritou, e minha mãe veio correndo.
Ela chorou tanto que eu não conseguia entender nem uma palavra do que dizia enquanto me apertava com tanta força que achei que ia quebrar as minhas costelas.
E então ela começou a telefonar para TODO MUNDO.
E foi um verdadeiro inferno.
Parentes não paravam de chegar.
E vizinhos.
E a imprensa.
Pessoas com quem eu quase nunca falei, que eu mal conheço, vieram me abraçar, emocionadas.
Eu senti nojo.
Nojo de tanta hipocrisia.
Quis vomitar com cada agradecimento a Deus que eles faziam.
Eu não quero pensar em nada, nem falar com ninguém.
O que eu poderia fazer? Voltar a viver minha vida?
Nunca vão me deixar fazer isso.
Vou ser “a garota que todos acharam que estava morta” para sempre, até eu morrer, de fato.
Falando em morrer, não parece uma má ideia.

Batidas na porta a fizeram parar de escrever.
- Mãe, eu já disse que não quero falar com ninguém! – Gritou ela, impaciente.
- Sou eu. – O pai dela entrou no quarto. – Os jornalistas finalmente foram embora. Agora você pode descer.
- Eu não quero.
Ela abraçou os joelhos, sentada na cama.
- A polícia está aí, Helena. – Ele fez uma pausa. – Não queremos pressionar você, filha. Mas eles precisam que você diga o que aconteceu. Sua mãe eu também gostaríamos de...
- Eles querem saber? – Ela se levantou da cama, decidida. – Muito bem. Vamos acabar logo com essa história.
Helena passou pelo pai e desceu as escadas.
Dois policiais estavam sentados no balcão da cozinha, tomando café. Sua mãe estava com eles.
Ela se sentou diante deles, do outro lado do balcão.
- Podem começar. – Declarou ela.
Um deles ligou um gravador e o colocou sobre a mesa.
- Muito bem, Helena. – Começou o outro. – Comece pelo início. Conte o que aconteceu na noite da festa na chácara, quando você desapareceu.
Helena suspirou.
- Eu fui àquela festa com a minha amiga Mercedes. Fiquei conversando com ela e com o resto dos meus amigos, mas acabei ficando entediada. Então saí para os fundos, para tomar um pouco de ar. Foi quando alguém me pegou de surpresa, tampou o meu nariz com um pano de cheiro forte, e eu desmaiei. Quando eu acordei, estava trancada em um quarto escuro. Um homem veio me trazer o café da manhã e me pediu para que eu ficasse quieta e me comportasse. Que nada de ruim ia acontecer comigo.
- Como era esse homem?
- Eu não consegui ver o rosto dele. Nenhuma vez. – Ela mentiu com tanta naturalidade, que surpreendeu até a si mesma. – Ele sempre estava de máscara. Uma máscara preta com buraco só para os olhos.
- Ele lhe causou algum dano físico ou moral? – Indagou o policial. – Te bateu, ameaçou ou agrediu de alguma forma?
- Não. – Respondeu ela. – Ele não encostou nem um dedo em mim.
- Prossiga.
- Foi só isso. – Ela deu de ombros. – Ele me levava comida, mas nunca conversamos muito. Fiquei dias e dias trancada no mesmo quarto. Tinha uma TV. Eu assistia e dormia muito.
- Você não tentou escapar?
- Tentei, claro. – Afirma ela. – Mas as tábuas na janela estavam muito bem pressas. E a porta ficava sempre trancada.
- Tem alguma noção de onde era a casa? Se era na cidade?
- Não faço ideia. Mas era bem silencioso lá. Nunca ouvi nem mesmo carros passando por perto. Foi assim esse tempo todo. Eu fiquei pressa, o homem me trazia comida. Nunca trocávamos mais do que uma ou outra palavra. Ele me dizia pra ser paciente, que logo eu estaria livre. Até que um dia ele vendou os meus olhos e me levou até um carro, com os pulsos amarrados, e me fez deitar no banco de trás. Ele dirigiu por mais ou menos uma hora até pararmos. Me fez descer, soltou minhas mãos e me pediu para contar até 30, depois tirar a venda. Quando eu a tirei, estava perto da rodoviária da Barra Funda, com um envelope de dinheiro no bolso e nenhum sinal dele.
Os dois policiais se entreolharam.
- É o caso mais estranho de que eu já ouvi falar. – Disse um deles. – Não é normal um sequestrador manter a vítima em cativeiro por tanto tempo, sem entrar em contato com a família para pedir dinheiro, e depois simplesmente libertá-la.
- Estamos lidando com algum tipo de psicopata, talvez? – Indagou o outro. – Ele alguma vez tentou te causar medo, dúvida ou qualquer sensação de pânico?
- Não.
- O que pode nos dizer sobre ele?
Helena pensou um pouco.
- Ele era bastante tranquilo.
- Suas roupas e fios de cabelos foram encontrados perto de um incinerador de lixo em Vila Maria. Sabe de alguma pista?
- Não. Ele vez ou outra me trazia roupas limpas, e levava embora as sujas.
- Alguma vez  ele te molestou sexualmente?
- Não.
- Alguma vez o viu portando armas brancas ou armas de fogo?
- Não.
- Descreva-o melhor. Como era a voz dele?
Ela pensou novamente.
- Normal. Voz de um homem normal.
- Ele parecia ter que idade?
Ela demorou um pouco para responder.
- Acho que ele era velho. Tinha pelos brancos nos braços. Talvez mais de cinquenta anos, mas ainda parecia ser bem forte.
- Estatura?
- Um pouco mais alto do que eu.
- Cor dos olhos?
- Azuis, muito azuis.
Os policiais continuaram a fazer perguntas e mais perguntas, e quando Helena achou que não iam mais parar, desligaram o gravador.
- Obrigada pelas informações, senhorita. Provavelmente a chamarão na delegacia durante a semana, caso tenha se lembrado de alguma coisa. Qualquer mínimo detalhe pode ser relevante para a localização do sequestrador.
- E o que vai acontecer se o acharem?
- Ele provavelmente responderá pelo crime de cárcere privado, praticado contra menor de idade e por mais de 15 dias, o que resulta em pena de reclusão de dois a oito anos.
- Irão pegar esse desgraçado – ralhou a mãe de Helena, cerrando os punhos. – Se Deus quiser!
Helena apenas mordeu o lábio inferior.
Não, nunca irão pegá-lo.

***

Ela conseguiu dormir um pouco, mas foi acordada com novas batidas na porta.
- Filha... – Sua mãe entrou no quarto. – Podemos conversar?
Helena bocejou e assentiu.
A mãe se sentou na cama.
- Está confortável? Quer comer alguma coisa?
- Não, mãe. Eu já disse que estou bem. Um milhão de vezes.
- Desculpe se estamos sendo super protetores, mas perder você foi de longe a pior dor que já enfrentamos. – Os olhos dela se encheram de lágrimas. - Ainda mal podemos acreditar que você está aqui.
Helena desviou o olhar, esperando que a mãe parasse de soluçar.
- Eu só queria dizer – continuou ela. – Que você sempre foi e sempre será a coisa mais importante das nossas vidas, Helena. E isso o que aconteceu, apesar de horrível, trouxe uma coisa boa. Seu pai e eu... Vamos nos casar de novo.
Helena a olhou.
- Por que? Não se comete o mesmo erro duas vezes.
- Filha, não... Estávamos enganados. Nós ainda nos amamos e precisamos um do outro. Perder você foi o que nos fez enxergar isso. Daqui dois meses vamos nos tornar marido e mulher novamente, e agora que temos você de volta... Nada poderia ser mais perfeito.
Helena apenas balançou a cabeça.
Não conseguia sentir nada.
Não conseguia nem mesmo dizer se achava aquilo bom ou ruim.
Era como se todos os sentimentos houvessem se esvaído dela.
A mãe alisou o seu cabelo algumas vezes, depois saiu do quarto.
Helena se levantou para ir beber água, mas quando ia abrir a porta, ouviu sussurros.
- O que você disse pra ela?
- Falei sobre o casamento, só isso.
- Não comentou nada sobre a gravidez, não é?
- Claro que não. Vamos deixá-la respirar um pouco. E não quero que ela se sinta rejeitada. Acho que devemos dar toda a nossa atenção a ela por um tempo, sem mencionar o bebê, sabe?
Se afastou da porta, decidindo que uma garganta seca era melhor do que olhar para os rostos dos seus pais.
Um bebê.
- Como tudo pôde mudar tanto? – Sussurrou para si mesma, fechando os olhos.
Mas a pior parte ainda estava por vir.
- Helena! – Sua mãe gritou. – Mercedes e Diego estão aqui.
Helena se sentou na cama, praguejando por dentro, enquanto os dois entravam.
Mercedes disparou na direção dela, sufocando-a com um abraço.
- Helena! Eu não acredito! Senti tanto a sua falta!
Helena retribuiu o abraço sem muita vontade.
Diego acenou de longe, parecendo um pouco constrangido.
- É realmente bom te ver, Helena. Sentimos muita saudade.
Mercedes se agitou, passando as mãos embaixo dos olhos, como se estivesse secando as lágrimas.
- O que aconteceu? Nos conte tudo.
Helena suspirou e repetiu a história que havia contado para os investigadores da polícia, resumindo-a mais ainda.
Os dois ouviram pacientemente.
- Então não foi nada tão grave assim. – Mercedes abriu um sorriso. – Estou aliviada. Agora podemos seguir nossas vidas normalmente.
- Mercedes, Helena foi sequestrada – Diego se apressa em dizer. – Devemos dar algum tempo a ela...
- Não precisa fazer drama, amor... - Mercedes se interrompe, olhando de Diego para Helena.
Helena apenas ergueu uma sobrancelha.
- Amor?
Diego coloca as mãos no bolso, nervoso.
- Helena, eu...
- Deixa que eu falo. – Mercedes o interrompe. – Helena, quando você sumiu nós te procuramos feito loucos, sabe. Não perdemos as esperanças até que ficamos sabendo da sua morte. E ficamos arrasados. E só tínhamos um ao outro para nos consolarmos...
Helena escutou Mercedes despejar todo o melodrama de como ela e Diego haviam descoberto que eram almas gêmeas, que jamais fariam algo para magoá-la, e que não tinham culpa de terem se apaixonado tão perdidamente, e se ela podia perdoá-los, enquanto Diego nem conseguia olhar pra ela.
Sentiu vontade de esmurrar os dois.
Falar o quanto ela era uma vadia e o quanto ele era é um traíra.
Ela não dava mais a mínima para o Diego. Não. Mas como Mercedes se atrevia a vir exibi-lo na cara dela, como um troféu? Conhecia bem o suficiente a “melhor amiga” para saber que ela havia planejado todo aquele discurso ao ir até ali. Que seu interesse maior não era ver como Helena estava, mas sim como ficaria ao saber que Diego agora estava com ela.
Mas tudo o que ela fez foi assentir.
- Tudo bem. Eu entendo.
Mercedes pareceu surpresa.
- Mesmo?
- Claro. Fico feliz por vocês. Muito feliz mesmo. Já transaram?
Diego engasgou. Mercedes soltou um risinho…
- Ah, Helena...
- Já entendi. – Ela forçou um sorriso. – Mercedes, amiga... Agora que já sabe, peço desculpas por tantas vezes ter mentido sobre o tamanho de coisas que dizem respeito somente ao Diego.
Depois de mais alguns minutos constrangedores, os dois finalmente foram embora.
A mãe de Helena entrou no quarto.
- Filha... Aquele Diego não é o seu namorado?
- É. Quer dizer, era. Tanto faz. Não faz diferença nenhuma.
A mãe saiu do quarto e Helena, bateu a porta e caiu de joelhos no chão. Teve vontade de gritar.
Esse mundo já não é mais o meu.
Fechou os olhos e fez um desejo.
Depois os abriu e se perguntou se não estaria enlouquecendo de vez.

CONTINUA

4 comentários:

  1. Eu escrevi um mega comentário e simplesmente não enviei D':

    Enfim, quase chorando aqui, vou ter que resumir o que eu tinha dito antes pq né... ~preguiça~ xD

    Ótimo cap como sempre (^u^)/
    Só queria saber se a Helena não ta tendo que ir em consultas com psicólogos ou psiquiatras(nunca sei a diferença x.x -q).

    E fiquei bem surpresa com a tranquilidade da Helena, juro que quando comecei a ler ja tava imaginando ela reclamando de toda a atenção e talvez ate tratando as pessoas mal x.x

    Abraços :3

    Ps.: Fico muito aliviada em saber que não parou com a sétima encruzilhada :3

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  2. Oi, Vivi!
    Como sempre, obrigada pela visita e por comentar aqui ;)
    A Helena deverá se consultar com um psicólogo, sim. Isso ainda será mencionado.
    Quanto a diferença entre psicólogo e psiquiatra, só sei que o primeiro não pode receitar remédios, enquanto o segundo pode XD

    A Sétima Encruzilhada está meio abandonadinha, mas estou bolando algumas coisas e a série vai voltar, sim, fique tranquila ;)

    Um grande abraço e até a próxima!

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  3. Quero saber que desejo é esse que ela fez no final do capitulo :3
    Eu já disse alguma vez o quanto eu odeio a Mercedes?
    Essa garota é insuportável.
    E sobre a nova série, eu juro que não sabia em qual votar, mas Sortilégios parece ser tão incrível que ganhou meu voto :D

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  4. Pois é, Carla... Podiam fazer o seriado "Todo Mundo Odeia a Mercedes" kkkk #Sqn
    Estou super animada com "Sortilégios" também, que está ganhando a enquete XD
    Já comecei a fazer as ilustrações :D

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