segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O ROMANCE QUÍMICO - PARTE 11


11. Fantasmas

- Então, Helena... Animada para voltar pra escola?
Helena ergueu os olhos para a psicóloga.
- Não. Porque eu estaria? Estou cansada daquela escola fodida. Já estava há muito tempo. O fato de eu ter morrido não torna as coisas melhores.
A médica a olhou por sobre os óculos.
- Você não morreu, Helena.
- Mas achavam que sim. Isso não me torna uma morta, aos olhos deles?
A mulher começou a anotar alguma coisa.
Helena estalou os lábios.
- Entendo sua impaciência, Helena. Mas você está no último semestre. Logo vai estar formada. Isso não te anima?
Helena deu de ombros.
- Você já pensa em algum trabalho ou faculdade?
- Quero ser fotógrafa. – Respondeu ela.
A psicóloga voltou a fazer anotações.
Depois de uma pausa, colocou as mãos entrelaçadas sobre a mesa.
- Bem, Helena, suas sessões comigo acabaram. Já tivemos as horas de consulta recomendadas para casos como o seu. Mas eu tenho a opinião que você deveria continuar, comigo ou com outro psicólogo. Ter passado por uma experiência assim pode deixar algum trauma que você não percebe agora, mas que pode te prejudicar no futuro.
Helena torceu o nariz e saiu, sem se despedir.
O que aquela mulher pensava? Ela nem era médica de verdade, nem podia receitar remédios! Que ficasse lá, achando que a entendia e que podia curar seus pacientes loucos.
Helena se sentia louca, às vezes, mas também se sentia mais lúcida do que nunca depois dos últimos meses.
Enxergava tantas coisas na sua vida, a ponto de não querer vivê-la mais.
Às vezes suas mãos tremiam, seu coração batia mais depressa e ela sentia calafrios na nuca. Se virava, com a impressão de estar sendo observada. Por ele.
Era uma febre que não passava.
Helena não conseguia esquecê-lo nem por um minuto.
Passava os dias fantasiando sobre um reencontro, contando o dinheiro que ele lhe dera e planejando ir atrás dele. E então percebia o que estava fazendo, a obsessão que o assassino se tornara pra ela, e se reprimia.
Ligava os fones de ouvidos, tentava esquecer.
Saia na rua, e vê-lo se tornava a preocupação principal. Cada vulto alto, cada homem de cabelos castanhos era motivo de uma pulsação acelerada.
Era uma mistura de temor e desejo.
Helena não sabia se correria ou se iria se atirar nos braços dele se o visse de novo.
Só sabia de uma coisa: precisava encontrá-lo.
Não sabia porque nem para que, mas precisava.
Procurava por ele em cada esquina, em cada volta no parque, em cada ida à padaria.
Sair de casa era sempre uma caça.
Helena se sentou no ponto, esperando pelo ônibus.
Um carro de vidros escuros passou devagar diante dela.
E ela imaginou o rosto do assassino dentro dele, observando-a com um sorriso frio.

***

Voltar para o colégio só não exigiu mais de Helena por ela estar mais do que cansada de ficar em casa aturando seus pais.
Eles estavam cada vez mais ansiosos, não a deixavam sozinha nem um minuto, e estavam sempre perguntando se ela estava bem ou se precisava de algo.
Então, por mais insuportável que fosse a ideia de voltar a frequentar a escola, era mais aturável do que passar 24 horas do dia com eles.
Assim que Helena pisou no pátio, foi impossível ignorar os sussurros e olhares por toda a parte.
Ela era a garota morta que estava viva, metade dos que estavam ali havia estado em seu funeral.
E era como se todos os holofotes brilhassem sobre ela.
Eu teria adorado isso há algum tempo, pensou ela.
Estaria vestindo suas melhores roupas e super maquiada - não escondida sob moletom e jeans - pronta para ofuscar o brilho das outras meninas e se tornar ainda mais popular.
Que vida fútil e hipócrita ela havia tido até então...

***

As aulas passavam.
Mercedes havia se pendurado nela, e na hora do almoço, tagarelava sem parar, adorando ter a atenção de todos que rodeavam Helena, que não falou muito.
Diego vez ou outra trocava um olhar constrangido com ela.
Helena estava se sentido cansada e fraca.
Queria ir pra casa e tirar um cochilo na frente da TV.
Mas mais três aulas teriam que ser aturadas.
Quando voltaram para a classe, havia um murmurinho incomum.
- Vamos ter um professor de química novo. – Cochichou Mercedes, enquanto colava adesivos de coração no caderno de Helena. – E ouvi dizer que ele é um gato.
- Sendo gato ou não, só quero ir pra casa. – Resmunga Helena, mordendo o lápis.
- Muda essa cara. – Pede Mercedes. – Depois da escola, vamos a um spa. Fazer umas limpezas de pele, hidratação no cabelo, massagem... Eu pago. Minha mãe abriu uma conta lá.
Helena nem escutou.
O professor de química entrou na classe, e ERA ELE.
Seus nervos se paralisaram.
Era ele, de verdade.
Lágrimas encheram os seus olhos.
Ela não estava se engando dessa vez. Não era alguém parecido.
ERA ELE.
Ele disse alguma coisa.
Os alunos riram.
Mercedes sussurrou alguma coisa.
Helena não ouvia.
Os olhos dele pousaram nela.
Helena estava de pé.
Não se lembrava de ter se levantando, mas estava de pé.
Ele perguntou algo.
Ela não conseguia se mover.
O choque era demais.
Helena caiu.
Vários gritos.
Desmaiou.

***

Quando Helena abriu os olhos, reconheceu a enfermaria da escola.
Na época em que ficava dias fazendo no food, e sentia tonturas e fraquezas, ia para lá e pedia água com sal e açúcar ou uma xícara de chá.
A enfermeira checou a pulsação dela e perguntou se ela estava bem. Disse que a mãe dela estava indo buscá-la.
Se virou na maca e viu que Diego estava lá.
- Helena! Você me assustou!
Ele se ajoelhou e segurou a mão dela.
- Como você está?
Helena se esforçou para se sentar.
- O professor de química... Cadê ele?
Diego a olhou, sem entender.
- O Vitor? Ele te trouxe pra cá. Ele foi bem rápido. – Diego fez uma pausa. – Helena, quando eu vi você cair... Eu me dei conta de que não aguentaria te perder de novo...
- Ele me trouxe? – Ela passou a mão na testa, com um calafrio. Ela havia estado nos braços do assassino outra vez...
- Eu ainda te amo, Helena.
Ela franziu a testa.
- Diga isso para a sua namorada Mercedes.
Diego balançou a cabeça.
Helena se sentiu incomodada ao perceber que os olhos dele estavam cheios de lágrimas.
- Eu me sinto cada dia pior. Eu sinto como se tivesse traído você. – Ele soluçou. – Em momento algum eu quis ficar com a Mercedes. Juro. Eu me aproximei dela por que achava que ela sentia a sua falta tanto quanto eu. E quando eu me dei conta... Já era tarde. Eu estava sob o controle dela.
Helena conhecia muito bem os truques da Mercedes, mas não dava importância a isso.
- Eu preciso achar aquele professor. Me ajude a levantar!
Diego balançou a cabeça.
- Está tudo bem, meu amor. Explicamos pra ele o que aconteceu. Você não vai ser prejudicada... – Diego se agachou e ficou diante dela. – Helena, me escute. Eu acabei de terminar com a Mercedes. Eu amo você. Se eu soubesse que havia alguma chance de você voltar pra casa, jamais teria me aproximado dela.
Helena suspirou, impaciente.
- Vamos voltar a ser como antes. – Diego continuou. – Mas dessa vez eu quero fazer a coisa certa. Quero ir conversar com os seus pais... Eu quero fazer tudo por você para compensar tudo isso. Helena, você me aceita de volta?
A porta da enfermaria se abriu com um estrondo.
Era Mercedes, com o nariz vermelho, rímel borrado e os cachos despenteados.
- Preciso falar com você. – Ela olhava para Helena. - Sai, Diego.
Diego hesitou.
- Mercedes, não é uma boa hora...
- Sai! Agora!
Diego podia ter terminado com Mercedes, mas parecia ainda ter medo dela, porque lançou um último olhar para Helena e se retirou.
- Você conseguiu, não foi? – Começou ela, olhando acusadoramente para Helena. – Fingiu que não ligava, mas desde o começo queria tirar o Diego de mim...
Helena revirou os olhos.
- Ele era o meu namorado, Mercedes. Mas eu realmente não me importo. Fodam-se os dois.
- Não, foda-se você, Helena! Estou cheia disso, sabia? Você sempre consegue estragar tudo. Sempre se fazendo de vítima para chamar a atenção. Eu preferia que você estivesse morta!
Helena deu um sorriso amargo.
- Você sempre foi uma vaca invejosa, Mercedes.
Mercedes ri.
- Inveja? De você, Helena? Quem era você antes de ser minha amiga? Uma gorda. Sozinha. Depois virou uma anoréxica e conseguiu perder a virgindade. Mas jamais seria popular se não fosse por mim. Pelo MEU dinheiro, MINHAS roupas...
- E ainda assim, você tem inveja de mim. Inveja dos meus peitos, do fato de eu conseguir ter um namorado sem ter que fazer chantagens e joguinhos, das minhas notas mais altas... – Devolveu Helena. – Ah, e fui EU quem te mostrou My Chemical Romance.
- Essa banda é uma merda! – Gritou Mercedes. – Eu ODEIO aqueles emos e aquele som irritante deles! Só disse que gostava pra você parar de tagarelar sobre aqueles caras. Graças a Deus essa porcaria acabou!
Helena balançou a cabeça.
- Quer saber? Você é uma bosta de amiga. Um lixo.
- Não, Helena. Você é um lixo. E a partir de agora, tem uma nova inimiga nessa escola. Se prepare para se tornar invisível para a turma legal. A partir de amanhã já pode almoçar com a Evelyn Nojenta.
Mercedes lhe deu as costas, se preparando para sair.
- Mercedes! – Helena a chamou, fazendo-a se virar. – Talvez você tenha que se preparar. Vou contar pra todo mundo que a sua mãe era puta.
Mercedes soltou um grito de irritação antes de sair.
Helena se levantou, disposta a ir atrás do homem, mas sua mãe chegou naquele instante.
E ela teve que ir.

CONTINUA

3 comentários:

  1. Eu sabia, sabia que eles se encontrariam de novo! Por que você terminou o capítulo na melhor parte?
    Eu estou cada vez mais curiosa, sabia? Quero saber o que vai acontecer entre esses dois :3 E ainda quero saber o nome verdadeiro dele, porque isso de Vitor não cola comigo.
    Beijos, :)

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Obrigada pelos comentários, meninas!
    Estamos naquelas tensões dos últimos capítulos, com detalhes a serem revelados...
    E acho que NINGUÉM gosta da Mercedes.
    Ela é aquela "amiga" invejosa que às vezes encontramos por aí XD

    Abraços, e fiquem ligadas...
    Em breve postarei o PENÚLTIMO capítulo :D

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