sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O ROMANCE QUÍMICO - PARTE 12


12. Amantes Demolidores

Se passou uma semana até Helena convencer seus pais que estava bem para voltar para a escola.
Quando esse dia chegou, ela mal conseguiu dormir, de tanta ansiedade. Dessa vez, se arrumou melhor.
Queria impressionar o homem, mostrar que estava bem e confiante, que ela havia evoluído, que não se importava mais com os babacas da escola.
Não sabia porque aquilo era importante, mas era.
Quando saiu para a rua, Diego estava lá.
Esperando por ela, como nos velhos tempos.
- O que está fazendo aqui? – Disparou, assim que o viu.
Ele deu de ombros.
- Te esperando para irmos juntos pra escola.
Helena ergueu uma sobrancelha.
Ele continuou.
- Eu tentei te ligar esses dias, mandei mensagens no Facebook, mas você não respondeu, então eu entendi que você queria dar um tempo. – Ele sorriu como se estivesse orgulhoso da própria genialidade. – Achei melhor esperar, mas minha promessa ainda será cumprida. Quando você quiser, vou vir falar com os seus pais. Ah, e eu comprei um presente pra você. Nada de flores e ursos de pelúcia dessa vez, é um CD da sua banda favorita...
Ele abriu a mochila e ergueu o pacote para Helena.
- One Direction? Sério? – Helena riu. – Detesto esses caras, Diego.
Ele pareceu sem graça.
- Ah, é? Mercedes disse que vocês duas gostavam...
- Mercedes é uma vadia burra. Não tem como eu gostar das mesmas coisas que ela. – Helena suspirou. – Diego, nós não voltamos. Nem vamos voltar.
- Helena... Mas eu ainda te amo.
- E eu não. Acho que nunca amei. – Ela devolveu o CD pra ele. – Foi mal, cara. Eu não quero te magoar. Mas agora eu percebo que o nosso relacionamento era de fachada, sabe? Eu queria um namorado para exibir por aí.
- Você pode continuar me usando. Eu não ligo!
Helena balançou a cabeça.
- Não, Diego. Chega. Não dá mais.
Ele mordeu o lábio, guardando o CD na bolsa.
- Não acredito que você está me dando um fora, Helena. Não depois de tudo o que fizemos...
- O que fizemos? Sexo, sexo e sexo. E nem era tão bom.
Diego franziu a testa.
- Ninguém nunca vai te amar quanto eu te amo. Você nunca mais vai encontrar alguém como eu! – Ele lhe deu as costas.
Helena suspirou.
- Assim seja!

***

Dessa vez, quase ninguém falou com ela na escola.
Helena até agradeceu Mercedes mentalmente por isso.
A ex-melhor-amiga-da-onça estava cumprindo suas ameaças.
Mas Helena já não se importava com mais nada.
O único momento que ela aguardava era a aula de química.
E quando ele entrou na sala, ela começou a tremer.
Eram tantas lembranças, tantas sensações tão fortes...
Por um momento ela teve medo de desmaiar outra vez.
Mas quando os olhos dele encontraram os dela, por alguns segundos, apenas, ela caiu em si.
Ele estava ali, em uma das suas atuações perfeitas, tão hipnótico que parecia cada um dos alunos em sua teia de fingimento.
- Hoje vamos começar nossa aula prática. Laboratório.
O falso professor saiu e os alunos o seguiram.
Helena notou Mercedes e outras duas meninas andando ao lado dele, abobadas.
Helena deu um sorriso ferino.
Gostaria de ver a cara delas se descobrissem o assassino que ele é, e as fotos de mulheres ensanguentadas em sua parede.
Os alunos entraram no laboratório escuro.
As janelas haviam sido vedadas com panos pretos, e o cheiro de produtos químicos no ar fez Helena arfar.
Não existem lembranças mais intensas do que as despertadas por aromas.
E Helena se lembrava exatamente o que havia acontecido da última vez em que havia sentido aquele cheiro, em um quarto escuro...
Haviam bandejas distribuídas pelas mesas, iluminadas pela luz de emergência vermelha.
O assassino começou a dar as instruções.
Ele iria ensiná-los a fazer uma revelação de fotos caseira.
Helena se remexia, inquieta.
Havia se sentado no fundo da sala, isolada.
Ele começou a passar lentamente pelas bancadas, observando o trabalho dos alunos, fazendo um comentário aqui e ali.
Helena tremia como uma vara verde.
Ele sempre teve muito poder sobre as emoções dela.
Porque ela achava que aquilo um dia iria mudar?
Quando ele finalmente chegou até ela, abriu aquele sorriso que ela não sabia se gostava ou odiava.
- Como vai, Helena?
A voz dele pronunciando o nome dela...
Oh, céus, porque era tudo tão impactante desse jeito?
Ela o olhou.
- Bem. – Respondeu, esperando que sua voz não falhasse. – Ótima, na verdade. O que está fazendo aqui?
- Dando uma aula de química.
Helena respirou fundo, se esforçando para manter a calma.
- Eu estou falando sério. Não deveria pensar em pisar nessa cidade de novo.
Ele abriu ainda mais o sorriso.
- E porque não? O interior não é tão desagradável.
Helena aproximou o rosto do dele.
- Uma palavra minha – sussurrou ela. – Uma palavra minha e você estará atrás das grades.
- Isso é uma ameaça? Porque eu não consigo me sentir ameaçado por alguém que se preocupou em me proteger tanto.
Helena engoliu em seco.
Então ele sabia.
Sabia das mentiras sobre ele que ela havia contado para os pais, a polícia e até mesmo para a psicóloga.
- Posso mudar de ideia.
- Não, não pode. – Ele tocou a mão dela sobre a bancada, discretamente. – E lembre-se do quanto eu posso fazê-la se arrepender do menor erro que cometer. Conversamos depois.
Ele lhe deu as costas.
E Helena sentiu uma emoção estranha se agitar dentro dela.
Não sentia aquilo há muito tempo.
Não saberia dar um nome.
Mas parecia felicidade.

***

Quando a aula finalmente terminou, os alunos foram saindo do laboratório.
Menos Helena.
E Mercedes.
Helena permaneceu no fundo da sala.
Enquanto Mercedes se pendurava na mesa do professor.
- Vamos dar uma festa na piscina – falava ela. -  E gostaríamos que o senhor fosse, sabe. Porque é um professor legal, e seria uma espécie de boas-vindas...
- Entendo. – Ele abriu um pequeno sorriso. – Ninguém vai desaparecer nessa festa, vai?
Mercedes lançou um olhar venenoso para Helena.
- Não, profe. Só vamos convidar quem conseguir se cuidar, sem bancar a vítima ou querer ser o centro das atenções.
O homem riu.
- Você é muito sutil, Mercedes. Mas é melhor se apressar. Ou vai se atrasar para a próxima aula.
Ela hesitou, mas ele insistiu.
- Preciso falar com a Helena. Em particular.
Mercedes saiu do laboratório, um pouco contrariada.
O homem ascendeu as luzes e fechou a porta.
Helena foi até ele, com o coração disparado.
- Vamos. Pode continuar com as suas ameaças. – Sorriu ele.
- Não. – Helena se atirou para ele, o abraçando. – Me leve daqui. Me leve com você.
Ele continuou sorrindo.
- Ora, não diga bobagens, Helena. Você queria tanto voltar para casa... E agora que conseguiu, quer que eu a leve comigo de novo? Que tipo de jogo masoquista você está fazendo consigo mesma?
Helena fungou, se afastando.
- Naqueles meses eu fui sua refém, sua vítima, sua amante e nem sei mais o que. – Ela respirou fundo, tentando recuperar o fôlego e encontrar as palavras. - E agora você me devolveu para o meu mundo, mas eu simplesmente não consigo me encontrar mais nele. Mesmo que Diego queira voltar comigo, que meus pais estejam juntos de novo, fui eu quem mudou. Sou eu quem não consegue mais viver assim. Você precisa me levar com você. Vou me comportar, matar quem você quiser. Mas me leve, por favor. Não posso continuar vivendo essa vida, não posso!
Ele sorriu.
- Você tem que aprender a mentir com mais sinceridade. Não quer que eu te leve comigo por achar que assim viverá melhor. É para fugir de você mesma. Você descobriu que todos estão muito melhor sem você, e que tem nojo de si mesma. E se está apaixonada por mim, é mais estúpida e idiota do que eu imaginei.
Helena suspirou.
- Não estou apaixonada! Eu não amo você. Amo o que você faz, e como faz. Você é detestável, mas é deslumbrante. Não consigo evitar querer ser como você.
Ela se atirou para a frente e o puxou pelo pescoço, louca por um beijo. Ele cedeu, como alguém que se diverte com uma piada.
Depois a olhou.
- Eu simplesmente não sinto, Helena. – Começou ele, com franqueza. - Não consigo sentir nada, nem por você, nem por ninguém no mundo. E não fico triste por isso. Entenda, eu nunca poderia te dar o que você quer. Nunca. Mesmo assim, apesar de tudo isso, você significa algo pra mim. Você é o meu legado. A única pessoa que sabe tudo o que se há de saber sobre mim. – Ele assentiu, como se falasse consigo mesmo. - Você é o meu legado.
- O que quer dizer?
Ele deu um longo suspiro antes de começar.
- Não vim para cá para te levar comigo. Vim para te fazer uma proposta. Ninguém sabe a minha história além de você. Ninguém mostrou ser leal a mim além de você. – Ele começou a andar pela sala. – Helena, imagine só... Quando eu morrer, toda o meu trabalho vai morrer comigo. Todas as fotografias, as histórias daquelas mulheres, a arte... Seria um desperdício enorme. E eu não gosto de desperdícios.
Ele a olhou.
- Você vai me ajudar a nunca ser esquecido. Você vai escrever minha biografia. Minha história.
Helena arregalou os olhos.
- O mundo vai se ajoelhar diante de mim – ele falava, sem olhar pra ela. – O mundo vai conhecer a arte mais cruel e linda que poderia existir. A arte a partir da morte. Os retratos perfeitos. – Ele voltou a encará-la. – Você vai escrever tudo. Você escreve razoavelmente bem, e é a minha melhor opção. Pode fazer isso pra mim?
Helena assentiu, sorrindo pela primeira vez.
- Claro. Mas é claro que posso fazer.
Ele se aproximou.
- Ligue para a sua mãe. – Sussurrou, com o estranho hálito de menta e café. - Diga que vai para a casa da Mercedes depois da aula, e me encontre no parque. No lugar onde nos esbarramos pela primeira vez.
Helena o observou se afastar e sair do laboratório.
Ela ficou sozinha, ainda atormentada pelas batidas do próprio coração, se perguntando como alguém poderia ser tão fascinante.

***

Querido Diário,

As coisas mudaram. Radicalmente.
E pela primeira vez, pra melhor.
Quase todos os dias, depois da aula, nos encontramos em segredo, o homem e eu, para depois irmos para o apartamento que ele alugou.
Então nos sentamos e ele começa a falar, e eu vou anotando tudo.
Ele não quer que eu grave nada nem que leve anotações pra casa, porque meus pais continuam me vigiando muito.
Mas vale a pena cada minuto.
São os únicos momentos da minha vida em que eu me sinto realmente em meu lugar. Todo o tempo restante eu me sinto uma estranha tentando viver uma vida que não pertence a mim.
Ele anda agindo como um verdadeiro cavalheiro e às vezes nos beijamos, outras vamos para a cama. Só que o mais empolgante é a expectativa.
Cada vez que nos beijamos, fico me perguntando se ele vai tentar fazer algo para me ferir ou até mesmo me matar.
Sei que é loucura. Sei que é medonho.
Mas eu adoro essa relação.
O jeito que a adrenalina corre nas minhas veias.
E as coisas que ele me conta, ah...
É como desvendar um pedacinho de um mistério a cada dia.
Ainda não sei o nome dele, mas sei o quanto ele é metódico, genial... Um serial killer de filme. E um artista. Um poeta.
Na escola ele nem me olha.
Eu apenas assisto um ator perigoso em seu papel de professor.
Mercedes parece querer entrar dentro das calças dele, e é muito engraçado vê-lo repelir as cantadas dela, deixando-a cada vez mais frustrada, e às vezes confusa por não entender o sarcasmo dele.
Tenho um pouco de medo do dia em que ele se cansar e resolver ir embora, voltar para os assassinatos, sua própria vida. E se vou consegui convencê-lo a me levar junto.
Se ele ao menos vai me avisar quando for partir...
Eu fico imaginando o que todas as pessoas que eu conheço diriam se soubessem que o homem que me sequestrou está tão perto, que ele também é um assassino, que eu saio com ele por livre e espontânea vontade, e que adoro tudo o que fazemos juntos, e o quanto eu o admiro.
E eu rio, diário.
Eu rio porque eles não irão descobrir o meu segredo antes que seja tarde demais.


CONTINUA

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Aushaushauhsuahsuahs
    Vivi, ri muito com o seu comentário! :D

    "Até porque as outras pessoas que chegaram perto dele acabaram mortas" Rachei! kkkkk

    Quanto ao fato de ser o penúltimo capítulo...
    Também quase não posso acreditar.
    Essa série foi bem difícil pra eu escrever. Para tentar transmitir todas as emoções conflitantes dos personagens, deixar claras as intenções... Não foi fácil.
    Mas é irreal vê-la tão próxima do fim.
    Só espero que o final não decepcione ninguém :P

    Abraços ;)

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  3. Agora que eu vi que meu comentário anterior não foi publicado. :( Então vamos lá vamos nós de novo:
    Eu estou tão curiosa para ler o final de tudo isso :3 Gosto tanto dessa série, mas não posso negar que estou louca para começar a ler a próxima :D

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  4. Carla, eu estou amando escrever a nova série...
    Embora eu vá senti falta de "O Romance Químico" também.

    Quanto a isso do comentário não ser enviado, você não é a primeira com quem isso acontece, e eu não entendo o que se passa.
    :P

    Talvez tenha haver com o fato de eu ter editado o HTML do blog pra poder adicionar os comentários por Facebook. O.o

    Isso que dar a pessoa que não manja querer fuçar nas coisas XD

    Até mais!

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