segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O SÉTIMO NAMORADO

- Se você pudesse ler uma última história antes de morrer, qual seria?
Pensei um pouco na pergunta, mas logo desisti.
- Sei lá. Eu não ia me preocupar muito em ler se estivesse morrendo.
Amanda sorriu.
Passei o braço pelos ombros dela, encostando sua cabeça em meu peito, bem acima do meu coração, mesclando os batimentos com as sacudidas do metrô.
Desde o primeiro momento em que eu havia colocado os olhos em Amanda, sabia que não conseguiria mais dormir em paz.
Desde o nosso primeiro beijo, em uma biblioteca pública, eu sabia que já estava apaixonado demais para ser racional e não agir como um trouxa.
Desde a nossa primeira noite juntos, eu soube que ela era a mulher da minha vida.
Ela era a garota mais bonita da faculdade, a aluna caloura por quem todos os caras, até mesmo os veteranos, babavam.
Mas foi comigo com quem ela acabou ficando.
E apesar de ser linda, Amanda não era apenas um rostinho bonito.
O cabelo preto e longo, naturalmente liso, os olhos castanhos e as roupas escuras escondiam uma personalidade fantástica.
Amanda era uma artista.
Um incrível talento para a pintura. E nada me deixava tão bobo quanto escutá-la ler Edgar Allan Poe em voz alta.
Ter Amanda como namorada havia feito dos últimos meses momentos inesquecíveis.
Os piqueniques debaixo das árvores mais velhas do parque, os almoços na minha casa (minha mãe e minha irmã a adoravam), as tardes na biblioteca, os passeios aos cinemas mais antigos da cidade, e cada minuto chacoalhando no metrô: tudo, absolutamente tudo, tinha sido maravilhoso, daquele jeito que só as pessoas que estão ou já estiveram idiotas de amor podem saber.
Amanda é doce, inteligente, complexa, e, posso dizer, um tanto misteriosa.
Poucas vezes na vida podemos ter a certeza de que encontramos nossa cara metade, alguém por quem vale a pena correr todos os riscos, como havia acontecido com a gente.
Naquele romance recém-nascido havia apenas uma única coisa que me intrigava um pouco.
Mesmo depois de seis meses de namoro, de planos para depois da faculdade e de juras de amor eterno, eu ainda não conhecia a família de Amanda, nem sabia exatamente onde ela morava.
Bom, sabia que ela morava com os pais, e que sua casa não era muito longe da estação (ela descia três estações antes de mim). Mas ela nunca falava muito deles, e nunca me convidava para ir a casa dela.
Uma vez, quando sugeri marcar um jantar para conhecer os pais dela, Amanda ficou muito chateada.
- Não é uma boa ideia, Fausto. – Ela disse, com um suspiro.
Nunca mais falei nada sobre isso.
Mas aquilo me perturbava às vezes.
Talvez Amanda achasse que os pais dela não me aprovariam.
Tudo bem, um braço coberto por tatuagens e cabelo azul escuro não é o visual que os pais mais desejam para o namorado de sua filha, mas eu tinha fé de que poderia conquistá-los com o tempo, se ela me permitisse tentar.
Eu não era o primeiro namorado dela.
Amanda já havia tido seis namorados antes de mim (enquanto eu só havia namorado duas meninas antes dela, sendo que uma delas foi uma colega da quarta série com quem eu só havia passeado de mãos dadas e dado alguns selinhos), mas ela nunca havia mencionado se havia apresentado algum para os pais.
Mas, apesar de querer conhecer meus sogros, eu respeitava a escolha de Amanda e esperava pacientemente que ela decidisse quando seria o momento certo.
Eu esperaria o quanto fosse necessário, sem pressioná-la.
Porém, nos últimos dias, Amanda estava um pouco distante.
Eu falava com ela, mas ela raramente me escutava. Ficava distraída, olhando para o nada, e eu tinha que repetir a mesma pergunta pelo menos três vezes para conseguir uma resposta.
Isso era um tanto inquietante, já que Amanda sempre foi bastante atenta a tudo e muito observadora.
Eu sabia que havia algo errado.
E aquele algo errado só podia se na casa dela. Comigo, com a faculdade e com as poucas amigas que tinha, Amanda estava muito bem.
Hoje, depois da última aula, quando normalmente saíamos juntos da aula de Comunicação, ela pegou a bolsa e saiu apressada da sala, sem dizer nada.
Confuso, a segui, mas a perdi de vista no corredor apinhado de gente.
Só a encontrei meia hora depois, saindo do banheiro feminino, com os olhos vermelhos e inchados, evidência clara de que ela havia tido uma crise de choro.
Eu fiquei sem palavras, mas ela apenas me abraçou e eu a apertei forte, como se quisesse protege-la do resto do mundo com aquele gesto.
- Eu te amo – ela sussurrou. – Eu nunca amei ninguém como eu amo você, Fausto. Eu preferia morrer a... – e se calou com uma espécie de soluço.
- Amanda...
Demorei um pouco para conseguir acalmá-la e arrastá-la comigo para a estação.
Ficamos em silêncio, abraçados, no meio de muitos outros estudantes que riam e conversavam dentro do vagão sacolejando, mas ao mesmo tempo isolados do mundo.
Eu havia tentado perguntar, mas ela não queria responder.
Desde que nos conhecemos, eu nunca havia visto Amanda se descontrolar daquele jeito.
Ela tremia nos meus braços, muito abalada.
A situação estava fora de controle, pelo jeito.
Eu não podia ficar de braços cruzados.
Tinha que descobrir qual era o problema e como eu podia ajuda-la.
Quando chegamos à estação em que Amanda descia, esperei que ela me desse um beijo rápido e saltasse do vagão e saí logo em seguida, me mesclando aos outros passageiros que desembarcavam.
Por sorte, ela não se virou para acenar pra mim, como normalmente fazia, nem olhou para trás.
Ela saiu da estação em passos apressados, descendo a rua.
Uma parte de mim se sentia patética e envergonhada por estar seguindo minha própria namorada, a outra só queria andar o mais silenciosamente possível pela rua escura e deserta para não despertar suspeitas.
Amanda logo parou diante de um portão de grades pretas e bem alto.
Me escondi atrás de um carro estacionado enquanto a observava entrar em um casarão antigo, bastante comum naqueles bairros.
Observei que o portão não tinha cadeado nem era trancado a chave: bastava puxar o trinco, como Amanda havia feito.
Minhas mãos começaram a suar e confesso que o meu coração começou a bater mais depressa: era a minha última chance de voltar atrás ou praticar uma invasão de domicílio.
Mesmo temendo entrar numa fria, fui em frente.
Abri o trinco do portão e entrei, fechando-o atrás de mim.
O jardim até que era grande, e haviam algumas árvores enormes.
Olhei para a casa, que parecia muito escura.
Mais escura do que deveria estar.
Talvez os pais dela já estejam dormindo...
Parei a meio caminho da porta.
Eu deveria bater? Ou ir embora?
Ou mandar uma mensagem para Amanda?
Antes que eu alcançasse o celular no bolso, um rosnado me fez olhar para o lado.
Amanda nunca havia me contado que tinha um cachorro.
Um cão preto e enorme, só pra constar.
Quando percebi que não haveria conversa e que ele ia avançar, corri e em dois pulos estava em cima de uma árvore.
O barulho logo atraiu a atenção dos moradores da casa, e uma luz se ascendeu. Amanda saiu pela porta da frente e seus olhos se esbulharam ao me verem.
- Fausto? – Ela se aproximou de mim e o cachorro correu para o fundo do quintal. – O que você está fazendo aqui?
Desci da árvore, envergonhado. Esperava que ela ficasse zangada comigo, mas ela apertou os meus braços e pareceu apavorada.
- Você tem que sair daqui! Tem que ir embora antes que ela o veja!
Antes que eu pudesse dizer algo, uma mulher alta e espantosamente magra apareceu na porta.
Ela usava um vestido preto e um véu rendado sob o rosto.
- Amanda? Então esse é o seu novo namorado?
Ela não respondeu, apenas apertou o meu braço com mais força.
Limpei a garganta antes de falar.
- Boa noite, senhora. Desculpe qualquer incômodo.
Ela emitiu um som que parecia um riso, mas eu não tive certeza.
- Incômodo? Minha filha não poderia ter me feito uma surpresa melhor. Entre, o jantar logo será servido.
Ela desapareceu dentro da casa.
Olhei para Amanda, mas tudo o que ela fez foi abaixar a cabeça e a seguir.
A casa era pouco iluminada.
Entramos em uma sala grande, onde um homem mexia em um notebook.
- Fausto, esse é o meu pai. – Amanda disse, tão baixo que mal a escutei.
O homem ergueu a cabeça e me cumprimentou vagamente, e deu um sorriso de canto antes de voltar a digitar.
- Ah, o amor! – A voz da mulher de véu me assustou, vinda do topo da escada que levava até o segundo andar. – Nada tão inspirador quanto um jovem apaixonado. Posso até sentir o cheiro doce que o coração dele exala.
Não soube o que dizer, mas ela não parecia esperar uma resposta.
- Vamos, o jantar está na mesa.
Me sentei ao lado de Amanda em uma grande mesa na sala de jantar.
O pai dela se sentou diante de nós, e a mãe ocupou a cabeceira da mesa, mas apesar do cheiro agradável da carne assada, apenas o pai de Amanda parecia ter apetite.
Eu comi apenas o suficiente para não ser mal educado, Amanda só cutucava a carne com o garfo, e a mãe simplesmente não se serviu.
Apenas apoiou o queixo nas mãos e ficou nos observando comer, ainda usando o véu.
Comecei a me perguntar se ela teria alguma doença de pele. Talvez tivesse sofrido um acidente e tivesse cicatrizes no rosto.
Será por isso que Amanda nunca havia me convidado para ir até a sua casa?
 Talvez visitas aborrecessem sua mãe. Talvez ela não gostasse dos olhares curiosos de estranhos como eu.
Comecei a me sentir culpado.
- Como estava o jantar? – Perguntou ela, de repente.
- Ótimo. – Respondi, forçando um sorriso. – Estava tudo delicioso.
- Bem, agora quero que conheça a casa, Fausto. Acho que vai gostar da sala de armas. Meu marido e eu colecionamos todo tipo de artefato, alguns medievais.
Meus olhos brilharam. Aquilo parecia fantástico.
Amanda e eu estávamos cursando História na faculdade. Me espantava ela nunca ter comentado nada.
- Eu adoraria. – Respondi.
- Não, Fausto. – Amanda apertou o meu braço. – É melhor você ir. Já está tarde. Sua mãe vai ficar preocupada.
- Amanda, não seja grosseira. – A mãe a censurou. – Vai levar só alguns minutos.
Ela se levantou e eu a segui até o segundo andar.
A sala de armas era ainda melhor do que eu poderia imaginar, apesar de escura. Haviam machados, espadas e punhais tão antigos quanto peças de museus, presos nas paredes vermelhas e protegidos por um vidro.
Mas a mãe de Amanda passou direto por eles, e foi até a parede no fundo da sala, ocupada apenas por seis retratos.
Quando me aproximei, vi que eram fotos de rapazes.
- Amanda é uma garota maravilhosa. – Disse ela, olhando para os retratos.
Não consegui conter um sorriso.
- Ela é a garota mais fantástica que eu já conheci.
- Ela é mais do que isso. – Sussurrou. – Ela é a melhor filha que uma mãe poderia desejar. Não importa quantas vezes tenha que se sacrificar, sei que sempre fará o que é melhor pra mim.
Ela se virou para me encarar.
- Sabe qual é a coisa mais preciosa e cheia de vida no mundo, Fausto? Um coração apaixonado.
Eu não pude ver o seu rosto, mas senti sua respiração grave sob o véu, e aquilo, por algum motivo que desconheço, me fez sentir um calafrio na espinha.
- Mãe! – Amanda entrou correndo na sala, com lágrimas nos olhos. – Ele não, mãe! Por favor... Eu não poderia...
- Amanda – a voz dela era seca e sem nenhuma gentileza dessa vez. – Não me atrapalhe. Está se esquecendo do que se trata isso tudo? Eu sou sua mãe. Eu te dei tudo o que eu tinha. Ninguém é e nem nunca será tão importante pra você quanto eu.
Amanda apenas se colocou entre nós, desafiadora.
Eu estava cada vez mais confuso com aquela conversa.
Talvez fosse melhor eu ir embora.
- Acho que já está ficando tarde... – Comecei.
- Calado, rapaz. – Me interrompeu a mãe. – Logo terá sua moldura nessa parede. E acho que será o rosto mais bonito.
- Mãe, fique longe dele. Você não tem o direito de...
Mas ela não deixou Amanda terminar.
Com uma força descomunal, segurou Amanda pelos ombros e a arremessou para o lado oposto da sala, como se ela fosse uma boneca de trapos.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela se voltou para mim.
- Ah, eu estou com tanta fome...
Ela ergueu o véu, e eu deixei um grito de pavor escapar.
Era de longe o rosto mais horrendo que eu já havia visto. Os olhos eram dois pontos brilhantes perdidos na face enrugada, e a quando ela abriu a boca, exibiu dentes afiados e separados.
Parecia ser a cara do próprio diabo.
Era um monstro mais terrível do que qualquer pesadelo poderia criar.
- É assim que eu fico enquanto sua namorada fica cada vez mais exuberante! O mínimo que ela pode fazer por mim é me trazer os doces corações de seus amantes para que eu possa florescer por mais um ano!
Tentei correr, mas minhas pernas não me obedeciam.
Era mais do que pavor: era como se uma corda invisível se enrolasse pelo meu corpo!
Ela cravou as unhas em meu peito e rangeu os dentes perto do meu rosto, fazendo com que eu sentisse o cheiro de açougue e podridão de seu hálito.
Foi quando eu vi um dos machados medievais descer com força até o seu pescoço, arrancando um urro de dor da criatura.
Cai no chão, livre do feitiço que me paralisava, mas tonto demais para conseguir me manter em pé.
Amanda se inclinou sobre mim, com o rosto borrado pelas lágrimas.
- Eu lamento muito, Fausto. Mas vai ficar tudo bem agora.
***
Isso tudo aconteceu há três anos.
Agora Amanda e eu estamos de casamento marcado, e muito felizes com isso, embora a família dela não vá comparecer à cerimônia.
É que demônios geralmente têm aversão à igrejas.
Por sorte, ela nasceu inteiramente humana.
Quando as pessoas me perguntam sobre a minha relação com os meus sogros, digo que o pai de Amanda não é de falar muito.
Quanto a mãe, não tenho nada a temer desde que ela perdeu a cabeça.

FIM

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Meu Deus!! Maravilhoso! Amei esse conto, é sem duvidas o melhor que você já escreveu. Estou sem palavras, ficou incrível.

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  3. Muito obrigada, meninas! :3
    Fico feliz que tenham gostado tando XD

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