terça-feira, 19 de maio de 2015

#MeuCaldeirão: Histórias de Vida e de Morte

"O Estranho Mundo de Jack", de Tim Burton
Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.”
(Meu Epitáfio, Cora Coralina)

O Cemitério Municipal de Barueri pode não ser um exemplo de arquitetura tumular, nem a necrópole mais bem estruturada e preservada, mas é um lugar válido para uma caminhada tranquila, para se ficar a sós com os nossos próprios pensamentos, que nem sempre nos lembramos de escutar.
Em um desses passeios, eu pensava justamente em quantas histórias haviam ali, enterradas, guardadas, muitas esquecidas.
Na maioria das lápides vemos os nomes, as datas de nascimento e falecimento, mas quase nenhuma pista da história de vida daquelas pessoas, hoje mortas.
Parei diante de um túmulo pequeno. Havia ali um nome feminino, e duas datas, com apenas três dias de diferença entre elas.
Mas o que mais me chamou foi o epitáfio:
Mesmo que seu tempo conosco tenha sido breve, sua chegada nos mudou completamente. Papai e Mamãe sempre irão te amar.
Três dias. Algumas palavras. Uma história completa.
Continuei caminhando, pensando no quanto algumas palavras, duas ou três frases, podiam trazer um novo sentido a uma lápide velha. A pessoa ali enterrada deixava de ser um corpo estranho e esquecido em meio a terra. Se tornava alguém com uma história.
Encontrei, no caminho da saída, um senhor trabalhando em um túmulo, cobrindo-o com cerâmica. Me aproximei e começamos a conversar.
Devia ter uns 50 anos, mas tinha um sorriso jovial e pareceu gostar de conversar.
Perguntei se as pessoas, supersticiosas como são, não estranhavam quando ele dizia que trabalhava em um cemitério.
“Sim. Algumas acham estranho. Mas é o melhor lugar para se trabalhar. É tranquilo. E não há o que temer. A morte, aliás, é o único caminho da vida.”
“Deve ser interessante. Afinal, estando aqui é que nos lembramos que não vamos viver para sempre, e isso faz parte da natureza. Uma planta tem que morrer para outra nascer.” Disse eu.
Ele concordou.
E acrescentou que ali não existiam ricos ou pobres, bonitos ou feios. Alguns até podiam ser enterrados em túmulos mais sofisticados ou caixões mais caros, mas todos acabavam no mesmo lugar.
Observei que as pessoas com frequência deviam perguntar a ele se nunca havia visto algo estranho ou sobrenatural enquanto trabalhava lá.
“A morte é um sono eterno. Não tem como alguém que morreu aparecer para os vivos. Aliás, só no dia do juízo final, quando Jesus voltar, todos nós iremos despertar para então nos libertarmos.”
Mesmo tendo uma opinião diferente, sorri e concordei. Ele parecia satisfeito. Disse que trabalhava para a prefeitura de segunda a sexta, mas naquele sábado havia pego um serviço particular, e que logo iria para casa.
Elogiei o trabalho caprichado no acabamento da lápide e me despedi.
No caminho para casa, pensei sobre o que aquele senhor dissera.
“A morte é o único caminho da vida”.
Toda história de vida, afinal, termina no túmulo. E não há o que temer ou lamentar, por mais que evitemos pensar nisso. Porque no fundo sabemos que certas coisas são como devem ser.
Não sei para aonde vamos nem o que vai acontecer. É um mistério. Só sei que quero fazer o que tenho que fazer enquanto estiver aqui, e que quando eu estiver embaixo da terra, minhas palavras resistam e ainda flutuem.
Como uma planta que morre para virar adubo, como as flores que brotam das rachaduras dos túmulos.

3 comentários:

  1. Excelente Gi. Realmente não refletimos muito sobre o misterio da morte que, por sinal, pode chegar a qualquer momento para nós.....

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  2. *O* Que incrível! Você está escrevendo cada vez melhor Giovanna!
    Não sei o que pensar sobre a morte e ainda evitando cemitérios, não sei... Devo ser mais medrosa do que imaginava.
    Mas sério, achei o texto muito incrível, a forma como você escreveu... Você tem que escrever mais aqui no blog, sinto falta das suas histórias. <3

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  3. Obrigada, Gu!
    Obrigada, Carla!

    Eu ultimamente andei muito afastada do blog, eu sei...
    Mas estou me "redescobrindo" como escritora, como artista.
    Buscando evoluir, me inspirar, porque escrever faz parte de mim e sempre irá fazer.
    E eu pretendo embarcar nessas viagens cada dia mais :*

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