terça-feira, 2 de junho de 2015

A METÁFORA

Eu sabia que estava enlouquecendo.
Então não procurei por ajuda ou por uma solução razoável, como uma pessoa não-louca faria, e sim saí andando pela rua.
Tive a sensação de que a noite me engolia e cuspia de volta, várias vezes sem conta, mas não me importei.
Enfiei as mãos no bolso do casaco.
Parei em um ponto de ônibus e me sentei.
Era agradável estar louca. Eu não precisava planejar o que faria a seguir. Poderia pegar um ônibus ou não. Poderia falar sozinha, dançar no meio da rua ou tirar a roupa.
Não importava.
Os loucos não têm obrigação social, são livres das regras.
Ninguém espera absolutamente nada deles, a não ser coisas inesperadas.
Comecei a rir, porque me lembrei dos meus pais.
De quanto dinheiro tinham gasto com terapia, remédios, clínicas. Dinheiro jogado pela janela. A loucura vencera.
Meu destino era ser louca, sempre foi. E eu estava feliz por agora saber alguma coisa sobre mim.

- Hei, você não é a menina que gosta de brigar?
A voz parecia um violino.
Me virei para o cara sentado ao meu lado.
Era um dos garotos do bairro que havia crescido e continuado por ali. Mas eu não o chamaria de homem. Tinha cabelo, muita barba e óculos grandes, mas o sorriso de canto dele tinha uns 12 anos.
- Eu não gosto mais. Mataram a minha fúria.
- Que pena. Quem se atreveu a cometer esse homicídio?
- Os remédios idiotas. Os remédios que me deixavam idiota.
Era verdade.
Antes eu gostava de sair pelas ruas e arranjar briga.
Eu sentia muita raiva das pessoas em geral. Desde pequena. Eu era uma criança frustrada.
Bater, xingar, machucar e ser machucada. Era uma válvula de escape para a minha raiva.
Eu voltava pra casa com um olho roxo, joelho ralado e jeans arruinados, mas muito mais leve, com o sangue e as raspas de pele dos meus rivais nas minhas unhas.
Mas esse não era um comportamento aceitável na opinião dos médicos e da minha família. Então vieram os remédios. E a raiva se foi. E levou todas as outras emoções junto com ela.
Então eu fiquei normal e inerte. Passiva. Entrei pra faculdade e arrumei um emprego comum.
Mas no fundo eu sabia que as coisas não poderiam terminar assim. Então, em um dia nublado qualquer, eu simplesmente enlouqueci de vez.
E agora estava ali.
Não disse isso ao cara, e ele parecia não querer saber.
- Seus olhos parecem duas poças de lama enormes. – Disse ele, me encarando.
- Obrigada. – Respondi.
- Eu gostaria de pintá-los.
- Como?
- Pintar um quadro. Pintar você e seus olhos cor de lama, em uma paisagem escura, que vai fazer as pessoas chorarem quando olharem pra ele.
- Eu gosto de fazer as pessoas chorarem. – Respondi. Porque era verdade. Eu achava interessante ver lágrimas escorrendo de olhos que não fossem os meus.
- Ótimo, perfeito. Vamos para o meu estúdio.
Uma garota em seu perfeito juízo não sairia por aí com um estranho que compara seus olhos com lama.
Mas eu estava louca, então fui.

***
- Você é um pintor?
- Algo assim.
- Quem é você?
- Uma metáfora de mim mesmo.
Gostei daquilo. Podia ser que eu não gostasse daquele cara, mas gostava de metáforas.
Ele me pediu para me sentar em uma poltrona velha e olhar para o horizonte, tentando não piscar.
Obedeci porque olhar para o horizonte sem piscar era uma das minhas especialidades. Acho que foi fazendo isso que comecei aquele processo de enlouquecer.
Olhar para o vazio, enquanto as coisas iam ficando embaçadas, era uma porta aberta aos pensamentos insanos.
O tal pintor se sentou atrás de uma tela com uma paleta de tintas no colo e começou a trabalhar freneticamente, com a testa franzida e os lábios contraídos.
Ficamos assim, em silêncio, por horas.
Ele tentando encontrar o marrom perfeito para a lama dos meus olhos, e eu enlouquecendo mais um pouco para não perder o hábito.
Já era de madrugada quando ele suspirou, dando um passo para trás.
- Está feito.
Eu não me mexi. Não queria. Estava acomodada demais com a minha insanidade ali, naquela poltrona velha, cercada por quadros e cheiro de tinta.
O pintor se aproximou de mim, intrigado.
Ele era um homem bonito, mas era um artista, e era sozinho e exótico.
- Você foi muito paciente. – Disse ele.
- Eu não tenho pressa de nada.
- Tem para onde ir?  Está tarde.
- Na verdade, é muito cedo. – Respondo. – Falta pouco pra amanhecer. De qualquer forma, posso ir pra qualquer lugar. A qualquer hora.
Tomamos café e ficamos vendo o sol nascer da varanda minúscula do apartamento.
Conversamos um pouco. Os raios de sol se enrolavam na barba dele.
- Também sou uma metáfora. – Eu disse, de repente.
- Uma metáfora de você mesma?
- Não. Uma metáfora da loucura.
- Talvez você só esteja metaforicamente louca.
- É. Talvez.
O pintor me perguntou se eu aceitava fazer amor com ele. Eu disse que sim, e fomos para a cama alta e macia onde ele já deveria ter amado muitas modelos e chorado muitas noites.
Foi bom. A barba dele tinha cheiro de tinta, sabonete e café. E os olhos eram notavelmente míopes sem os óculos.
Acordei no meio da tarde com o barulho do trânsito. Vesti minha camisa e me levantei pra ir embora.
O pintor ainda dormia e eu não queria acordá-lo.
Morávamos no mesmo bairro e em algum momento nos veríamos de novo. Não havia necessidade de despedidas ou bilhetes.
Me olhei em um espelho no meio da sala.
Meus olhos pareciam mesmo duas grandes poças de lama. E estava mesmo muito escuro ao meu redor.
Mas era bom saber disso. Decidi que seria bom sempre que eu descobrisse algo novo sobre mim mesma.
Então sorri.
Mas a imagem do espelho continuou séria.
Foi então que percebi que aquele não era o meu reflexo, e sim o quadro que ele havia passado a noite pintando.
Estava assinado.
A Metáfora.
Ah, então eu era mesmo uma metáfora. Não de mim mesma, nem da loucura, mas daquele quadro.
Eu definitivamente podia ir embora.
Havia encontrado meu sentido literal.

***
Conto Vencedor do XII Prêmio Barueri de Literatura, 2015
Categoria Conto - Autores Residentes Maiores de 18 Anos
1º Lugar

5 comentários:

  1. Que maravilhoso! Adorei! Estou com vontade de ler mais, sua escrita é tão... envolvente?! Não sei. Viciante. Quero mais *-----*

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  2. " Ficar Louca de vez em quando, ou sempre, é uma necessidade básica de se permanecer sã." Osho.

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