domingo, 28 de junho de 2015

ÁRVORE MORTA

Quando saí de casa, não sabia qual seria o meu destino. Mas depois de caminhar até ficar suada e exausta, descobri: meu destino era uma árvore sem folhas.
Me sentei entre suas raízes, um ninho de folhas secas caídas, ofegante. Nossa, o meu coração batia tanto. Batia tanto que senti medo de que ele me denunciasse, ali sentada, com medo de não saber quem eu era, sem um rumo na vida.
Ele, meu coração, parecia mais pesado também. Fiquei com medo de infartar. Não que eu não seja saudável, mas sou dramática também. E garotas dramáticas são impossíveis e sempre pensam que estão pra morrer.
Ergui a cabeça e vi que os galhos pelados da árvore se erguiam muito além do que eu havia imaginado. Parecia que espetavam as nuvens.
Uma árvore morta é sempre uma árvore morta.
Abri a mochila e tirei três cascas de noz e três pétalas de rosa vermelha. Cantarolei enquanto as enterrava entre as folhas, pois era assim que se fazia uma oferenda aos gnomos das árvores velhas.
Minha tia havia me ensinado aquilo quando eu era pequena, e o que a gente acredita quando criança continua sendo importante depois que ficamos adultos, mesmo que não seja verdade. Mas quem disse que gnomos não eram?
Muito bem. Então eu era dramática, acreditava em gnomos e sempre pensava estar morrendo. Não era muito promissor, pois mesmo que eu descobrisse quem eu era, continuava sem rumo.
Eu não podia ficar assim. Não dava pra continuar comprando roupas caras e guardando-as no armário, ainda com etiquetas, pensando em devolvê-las.
Eu tinha comprado um blazer preto e branco de Paris na semana passada e minha consciência se corroía toda vez que eu olhava pra ele. Por que eu não arrancava logo a etiqueta e usava? Se eu tinha gostado dele, por que ainda pensava em devolver pra loja?
Não era culpa financeira, não. Ele tinha sido um pouco mais caro do que as roupas que eu costumava comprar, mas não chegara a abalar minha planilha de gastos.
A verdade é que eu estava me sentindo indigna dele. Sei que parece ridículo, e é mesmo ridículo, mas ultimamente eu sentia tamanho desgosto por mim mesma que não me julgava merecedora de nada.
Nem uma roupa cara, nem um corte de cabelo. Muito menos um perfume importado ou uma renovada no meu arsenal de maquiagem.
Acho que a coisa mais chata do mundo é quando nos sentimos feias ou solitárias. Solitária eu não era, mas me sentia horrenda, fora de forma e sempre reclamando de mim mesma.
Eu não conseguia ser a pessoa que eu queria ser, e isso me frustrava. Me frustrava tanto que eu acabava me jogando nos mesmos hábitos velhos que me levam mais ainda pro fundo do poço.
Veja bem, é um ciclo vicioso. Me tornei minha própria inimiga, na ausência de uma, quando eu deveria ser minha melhor amiga.
Me apoiei ainda mais na árvore morta, com um suspiro.
Talvez essa semana eu me anime em pintar o cabelo. Talvez perca alguns quilos. E talvez me sinta linda e pronta para um final de semana agitado.
É sempre “talvez”. Porque não consigo me prever, e às vezes nem me controlar. Ainda estou tentado aprender a me entender, mas é mais difícil do que eu pensava.
Bati três vezes no tronco oco da árvore. Toc toc toc.
Me despedi dos gnomos, coloquei a mochila e fui embora.
Espero não levar uma vida inteira para aprender.
Porque uma árvore morta é sempre uma árvore morta, e ano após ano ela continua presa ali, imutável, fingindo que ainda vive.

Um comentário:

  1. Ahhh, que texto incrível Giovanna! Me identifiquei muito com ele, ando no mesmo estado que a garota do texto ;/ Meio pra baixo, uma pessoa que não conhece a si mesma... Amei, realmente incrível <33

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