segunda-feira, 5 de outubro de 2015

MALDITO ROMEU! - ATO III

Romeu encontrou Mercúcio e Benvólio no refeitório. O jantar era macarrão com carne moída, como em todas as sextas, o que significava queixos sujos de vermelho e poças escorregadias de molho de tomate pelo chão, além de muito trabalho para os enfermeiros e outros funcionários do hospital.
Benvólio tentava convencer Mercúcio a levarem as bandejas para os quartos, enquanto Romeu esperava na fila.
- Por favor, Mercúcio! Você está um tanto instável hoje, e Romeu ainda não sabe sobre a morte de Rosalina. Vamos para o quarto antes que algum desastre aconteça! O jantar está quente, e o sangue ferve fácil nas sextas, como o molho da macarronada.
Mercúcio revira os olhos.
- Romeu não tem porque descobrir nada, e eu estou perfeitamente calmo. Você se preocupa demais!
- Por minha touca, aí vem o tal do Teobaldo, e com alguma coisa enfiada dentro do casaco! – Exclama Benvólio, olhando em volta como se buscasse por uma rota de fuga.
- Por meu coturno, eu não tô nem aí. – Responde Mercúcio, mal humorado, colocando mais queijo ralado no prato.

Teobaldo se aproxima com sua bandeja, sentando-se em frente aos rapazes.
- Boa noite. Queria exatamente trocar uma palavra com um de vocês.
- Só uma palavra? – Pergunta Mercúcio, fazendo pouco caso. – Por acaso não trocar uma palavra e um comprimido? Sempre quis experimentar um remédio tarja preta.
Teobaldo funga, irritado.
- Eu não tomo mais nenhum remédio de tarja preta a noite, seu boçal. Minha dose foi reduzida, diferente da sua, hipster bipolar! Mas vou te mostrar isso da próxima vez em que me oferecer a oportunidade... – Ameaça Teobaldo.
- Então não consegue achar oportunidade sem que te ofereçam? – Revida Mercúcio.
- Quero saber por onde anda Romeu, sei que você está concertado com ele.
- Concertado? Por acaso somos músicos, agora? Se acha que somos uma banda, se prepare para ouvir só falsetes desafinados. – Zomba Mercúcio.
Teobaldo começa a bater os punhos na mesa, os olhos irritados fixos em Mercúcio.
Benvólio continuava tentando acalmar os dois.
- Estamos bem no meio do refeitório, parem de fazer tumulto! Aqueles enfermeiros já estão de olho na gente...
- Que olhem. – Mercúcio dá de ombros. - Foi para isso que os olhos foram feitos. Daqui não saio.
Romeu se junta a eles, se sentando ao lado de Benvólio.
- O que houve? – Pergunta.
- Aí está você! – Diz Teobaldo, de repente com uma estranha calma. – Vi você na festa de ontem a noite, seu esquizofrênico!
- E daí? – Indaga Romeu. – Não incomodamos ninguém.
- Incomodaram a mim! – Grita Teobaldo. – Como ousaram se meter? Vocês são loucos e nem deveriam se misturar com as pessoas sãs!
- Meu caro Teobaldo, só não questiono o seu parecer sobre a sanidade porque o tenho em grande estima. – Diz Romeu, com um meio sorriso misterioso. – Acho até que poderia te considerar um primo, a partir de agora...
Teobaldo ri, escandaloso.
- Primo? Não me venha com suas baboseiras! O desprezo, Romeu, que você me desperta só me deixa dizer isso: você é um louco varrido! Além disso, deve ter sido por causa desse seu falatório que Rosalina endoidou de vez, não é mesmo?
- Ah, pelo amor de Zeus... – Gemeu Benvólio, começando a urinar nas calças.
- Do que está falando? – Indaga Romeu, franzindo o cenho. – Essa moça nunca gostou de mim. E eu agora não a procuro mais.
- Ah, então já a esqueceu? Não sente nenhum remorso? Eu o considero o maior culpado por essa tragédia!
- Como?
- Chega! – Grita Mercúcio, tão alto que o refeitório ficou em silêncio absoluto por alguns segundos. – Chega dessa ladainha infernal, Príncipe dos Gatos! Ninguém quer ouvir seus miados! Porque não cuida das sete vidas do gato escondido no seu blusão, em vez de nos atormentar com seu falatório?
O rosto de Teobaldo fica tão vermelho quando o molho de tomate no prato diante dele.
- Não tem nenhum gato aqui comigo! – Defende-se.
- Ah, não? – Em um gesto rápido com seu braço longo, Mercúcio puxa o zíper da jaqueta de Teobaldo, fazendo com que um gato preto e branco pule, assustado, e corra para a janela, saltando para a liberdade antes que Teobaldo conseguisse se mexer.
Mercúcio riu alto, mas Teobaldo começou a tremer, com os olhos se enchendo de lágrimas.
- Ah, minha nossa... – Benvólio colocou as duas mãos na cabeça, como se o teto fosse desabar.
Romeu se coloca de pé ao lado de Mercúcio.
- Senhores, por favor se acalmem...
- Olha o que você fez! - A voz de Teobaldo parecia mais um guincho. – Você assustou o Caneca, e agora ele fugiu para sempre!
Mercúcio abriu a boca para fazer um de seus comentários sarcásticos, mas não conseguiu. Porque Teobaldo agarrou seu bigode, puxando-o com força.
Romeu tentou intervir, assim como dois enfermeiros, mas nenhum deles conseguiu impedir que um tufo de pelos ficasse nas mãos trêmulas de Teobaldo.
Mercúcio estava pálido como um fantasma.
- O meu bigode... – Ele olhou para Romeu, que o segurava nos braços. – Aquele Caçador de Ratos arrancou o meu bigode!
Romeu olhou para o rosto de Mercúcio, chocado.
Era verdade. O bigode do qual Mercúcio tanto se orgulhava, o bigode mais digno e bem penteado que alguém já havia cultivado, havia sido brutalmente arrancado dele.
Não era justo.
Romeu cerrou os punhos e o maxilar.
Mercúcio era o seu melhor amigo, uma versão moderna e sarcástica de um fiel escudeiro, cujo auxílio era imprescindível para o sucesso de qualquer herói. Ele não podia simplesmente assistir àquele ultraje e não fazer nada!
Antes que pudesse se conter, Romeu pegou o próprio prato de macarronada. A fumaça subia do molho que há menos de um minuto estivera fervendo na panela...
E ele virou o prato no rosto de Teobaldo.
A comida queimou o Príncipe dos Gatos, que rosnou de dor, expondo as unhas, diante do refeitório todo.
Os enfermeiros foram pegos totalmente de surpresa.
Mercúcio ainda chorava pelo bigode perdido.
Benvólio fez mais xixi nas calças.
E Romeu, percebendo o que acabara de fazer, saiu correndo.

***
Julieta penteava o cabelo molhado, ainda um pouco quebradiço por causa das colorações, enquanto via os últimos raios de sol se refletindo no espelho.
- Que venha a noite, pois o sol é inimigo dos amantes. – Sussurrou para si mesma, satisfeita. – Uma noite trevosa é tudo o que Romeu e eu precisamos para nos encontrar às escondidas outra vez...
Ela examinou mais uma vez a camisola preta que vestia, com rendas nos ombros e que deslizava até o meio da coxa.
Era uma peça bastante sensual, mas que não mostrava demais. Seu estômago se agitou de ansiedade quando ela imaginou o que aconteceria naquela noite quando Romeu viesse.
Ela o queria.
E jurou para si mesma que faria de tudo para tê-lo pelo menos uma vez, jurou que não se negaria àquele prazer por medo ou qualquer insegurança.
Ela precisava sentir o cheiro dele na própria pele, numa obsessão meio louca, porém necessária para continuar vivendo.
A Ama entrou afoita no quarto, interrompendo seus pensamentos. Julieta sentiu o rosto ficar vermelho, como se tivesse sido flagrada em suas ideias mais íntimas.
- Quer me matar de susto? Porque entrou sem bater?
A Ama a encarou, nervosa.
- O que foi? – Indaga Julieta. – Por que está torcendo as mãos desse jeito? Tem algo haver com Romeu?
- Oh céus, oh céus! O que será de nós? Queimado, o rosto dele foi completamente queimado! Meu Jesus...
Julieta sentiu o coração se apertar.
- Como assim?! O rosto do meu namorado? O que aconteceu? Eu adoro aquele rosto, inclusive a barba! O mundo pode ser mesmo tão cruel?
- O mundo não, mas Romeu sim! – Exclama a Ama, caindo sentada na cama. – Romeu... Quem poderia ter imaginado?
- Ah, meu Deus... Ele queimou a si mesmo? Ele enlouqueceu de vez? Diz, Ama! Diga “sim” e eu volto a rasgar esses pulsos agora mesmo!
Mas a Ama mal a escutava.
- Eu mesma vi o rosto em carne viva! Pobrezinho! Tão jovem, tão bonito, e agora com o rosto arruinado! Coitadinho do Teobaldo!
- Como?! – Julieta era o cúmulo da perplexidade. – Teobaldo se queimou também? Por acaso houve um incêndio no alojamento masculino? Ah, aposto que foi aquele piromaníaco que chegou na semana passada!
- Não, menina! – A Ama fungou. – Teobaldo teve o rosto queimado, por causa de Romeu, que em um acesso de raiva lançou um prato de espaguete e molho fervendo na cara dele!
Julieta arregalou os olhos.
- A mão de Romeu derramou molho no meu primo Teobaldo?
- Derramou, derramou! Oh, ceús! Derramou!
A garota mordeu o lábio inferior.
- Ama, eu preciso saber o que aconteceu! Em detalhes, ouviu?
- O que mais quer saber? Esse Romeu é um maluco perigoso e violento, que quase cegou seu primo com o jantar! Espero que o diretor do hospital o coloque na solitária com uma camisa de força!
Julieta se levanta.
- Como se atreve a falar assim dele? Que sua língua caia se isso acontecer!
A Ama arfou.
- Vai defender o rapaz que machucou o seu primo?
- Vou amaldiçoar meu futuro namorado? Acho que não. Pelo menos não antes de saber toda a verdade. Romeu não é perigoso, muito menos violento. Ama, eu preciso vê-lo!
A Ama chegou a abrir a boca para dissuadi-la, mas apenas soltou um suspiro prolongado.
Conhecia Julieta bem demais para saber que a menina não teria paz enquanto não tivesse Romeu ali, diante dela. E também se lembrava de como era ser jovem e apaixonada, embora já estivesse em idade avançada.
Sendo assim, deu-se por vencida, cansada demais para discutir.
- Tudo bem, Julieta. Vou ver o que posso fazer. Ele está na capela do Frei Lourenço, para onde fugiu depois do ocorrido. O diretor também está lá, então não prometo nada! A situação do seu namorado está muito complicada, ouviu?
Julieta abraçou a Ama pela cintura, do jeito que fazia quando era pequena e a senhora deixava-a comer a sobremesa antes de almoçar.
- Obrigada. Obrigada por tudo!
E, surpresa, a Ama entendeu que Julieta não se referia apenas a situação atual, e abraçou a menina de volta.

***
Romeu não se atrevia a se mexer.
Tinha os olhos fixos nas luzes do confessionário, rodeadas por mariposas.
Parece que você voltou a ser um vilão, no fim das contas.
Ah, Deus. As vozes. As vozes voltaram outra vez.
Maldição. Elas haviam desaparecido por meses, e ele teve esperança de que não voltariam mais.
Você adorou queimar o rosto daquele menino, não é mesmo? Julieta nunca vai te perdoar por ter feito aquilo com o primo dela. Vilões não merecem o amor das heroínas.
- Ora, calem a boca – sussurrou ele, trincando os dentes. – Eu fiz aquilo por Mercúcio. Sei que foi errado. Eu não queria... Foi um acidente..
Não foi um acidente. Você quis fazer. Quis se vingar, como um homem vil de sentimentos mesquinhos que você é...
- Não é verdade!
- Romeu? - Frei Lourenço estava parado diante da porta aberta do confessionário, com a testa franzida de preocupação. – Não pode continuar escondido aí, meu filho.
Romeu baixou os olhos.
- Sei que estou sendo covarde. Mas não encontro coragem no meu coração nesse momento. O que vai ser de mim, padre? O diretor com certeza deve ter me expulsado, e eu nunca mais vou ver Julieta...
O Frei suspirou.
- Eu convenci o diretor a não expulsá-lo. Expliquei a situação e falei sobre a evolução do seu tratamento, e ele decidiu transferi-lo para outra ala do hospital, onde você ficará em obervação constante. Não poderá sair por um tempo, mas creio que assim que os médicos perceberem que você está mais calmo irá poder retornar à sua rotina normal.
Romeu apoiou o rosto nas mãos, sem coragem de encarar o padre.
- Ficar na solitária é ainda pior do que expulsão! 
- Ora, Romeu, deixe de chorar como uma criança e agradeça a oportunidade que está tendo! Vai receber o tratamento adequado para o seu caso, assim o que aconteceu hoje não irá se repetir.
- Mas vão me separar de Julieta, e eu prometi que ficaria com ela e a ajudaria a curar suas feridas... Como posso abandoná-la agora? Além disso, os que são mandados para a solitária não voltam, todo mundo sabe. E se Julieta tentar morrer de novo? E o que será de mim sem ela? Não existe cura, não existe vida longe de Julieta...
Ele soluçou, e o Frei lhe deu tapinhas no ombro.
- Força, Romeu. Se essa moça é mesmo tão importante pra você, se despeça dela antes de ir.
O rapaz fungou.
- Vão me autorizar?
- Com certeza não. Mas eu disse ao diretor que você passaria a noite aqui para que eu pudesse acalmá-lo, antes de ser transferido. – O Frei desviou o olhar, com o rosto ficando vermelho. – Na minha posição de sacerdote eu deveria me impor totalmente a deixá-lo ir até o quarto dessa moça, ou ficar sozinho com ela... Mas devido as circunstâncias, terei que confiar em vocês para que não caiam em tentação.
- E Julieta vai querer me ver? Ela já está sabendo? – Indaga Romeu, ousando ter um fio de esperança. – Não pensa que sou um louco?
O Frei não pôde responder, pois o rosto rechonchudo da Ama surgiu sobre o ombro dele.
- Quem dera eu a tivesse convencido disso! Mas a menina é teimosa e exige ouvir toda a história da sua boca. Então eu vim buscá-lo, prometi que faria o possível para que estivesse diante dela ainda hoje.
Romeu deixa escapar um suspiro.
- Se é assim, eu vou. Embora esteja tudo acabado, preciso vê-la, nem que seja apenas para pedir perdão pelo meu erro.
- Tenha cuidado. – Alerta o Frei. – Levante o capuz para que não o reconheçam. E, por tudo que é mais sagrado, esteja aqui amanhã bem cedo! Não deixe que o vejam, muito menos que o encontrem no alojamento feminino!
Romeu agradece o Frei com um abraço forte.
- Obrigado, padre. Se não fosse a dor me levando daqui, a sentiria por ter que me afastar do senhor.

***

Julieta ascendeu velas perfumadas, presentes de uma tia, e apagou as luzes do quarto.
Sorriu mais uma vez ao se lembrar das recomendações agitadas da Ama.
- Ai de mim se sua mãe sonhar com isso! Não sei de nada sobre o seu amor alcançar o ninho do passarinho essa noite, heim? Não, eu vou me trancar em meu próprio quarto e fingir que não sei de nada. Juízo, menina! E, a propósito, pegue isso. – Disse, vermelha, depositando timidamente uma cartela de preservativos na mão de Julieta. – Deus sabe como é ser jovem! Mas eu não sei de nada, e nem fui eu quem lhe arranjou isso, estamos acertadas?
A garota riu e deu dois beijinhos nas bochechas quentes da Ama, agradecendo-a e desejando-lhe boa noite.
Ela esperou que o hospital ficasse em silêncio e que as luzes dos corredores se apagassem, para então sair para a varanda e assobiar uma melodia qualquer.
Aquele era o sinal pelo qual Romeu estava esperando, e ela viu o vulto dele saindo dos arbustos e subindo as escadas até o parapeito da varanda.
O coração de Julieta palpitava, frenético, e ela sentiu um aperto nele quando percebeu as olheiras profundas sob os olhos de Romeu.
- Oi, meu amor. – Sussurrou ela, o mais docemente que pode, dando-lhe um beijo. – O que aconteceu hoje, afinal?
Ele suspirou, abraçando-a.
- Estar aqui com você faz parecer que tudo foi só um pesadelo, mas foi real, e estar aqui é um sonho.
Ela o conduziu para dentro do quarto, fazendo-o se sentar na cama e lhe contar o que aconteceu.
Quando Romeu terminou, Julieta deu um suspiro irritado.
- Ora, mas me parece que a culpa de tudo foi do meu primo Teobaldo! Ah, meu querido... Eu sinto tanto...
- Não mais do que eu. – Murmura ele, com o olhar vago. – Depois de te conhecer, eu estava me sentindo tão bem... Como um cavaleiro da tábula redonda, feliz por poder honrar sua amada...
Julieta franze o cenho.
- Como assim?
- Eu tenho isso. Eu me imagino sendo um herói de alguma aventura épica, para combater as vozes que tentam me convencer a ser um vilão. Meu psicólogo fala que tudo bem, se isso me ajuda, mas que não devo levar a sério a longo prazo. – Ele a encara. – Mas meu senso de honra e coragem às vezes falha terrivelmente, como aconteceu hoje. Esse é o problema de se querer ser um herói: a linha entre o heroísmo e a vilania é muito tênue.
Julieta apoia a cabeça no ombro dele, pensativa.
Ficam em silêncio por alguns minutos.
Romeu suspira.
– Eu fodi com tudo, não é? Agora vou ser mantido longe de você, dos meus amigos, do Frei Lourenço... Banido das únicas coisas que tornam toleráveis viver aqui. 
Julieta ergue o queixo dele para encará-lo.
- Não vamos falar disso agora. No momento, estamos aqui. Estamos vivos e estamos juntos, nem que seja pela última vez.
- Eu não quero te deixar.
- Então fique comigo agora.
Ela o beija, e ele corresponde.
De início com suavidade, depois com mais paixão.
Romeu repara pela primeira vez na camisola de tecido leve que ela usa.
- Uau. Você está... Maravilhosa.
Ela sorri.
- Estou sexy?
- Muito sexy. – Romeu hesita. – Mas eu prometi para o Frei que não iríamos, sabe como é, longe demais...
Ela abre ainda mais o sorriso, beijando-lhe no pescoço.
- É mesmo? Defina “longe demais”.
Ele a encara.
- Julieta, não quero comprometer a sua honra.
Ela revira os olhos, depois volta a rir.
- Romeu, eu acho que sou eu quem vai comprometer a sua honra. A não ser que você me impeça, claro.
Ela voltou a beijá-lo, e começou a desabotoar a camisa dele. E ele não se afastou.

***
Os primeiros raios de sol começaram a tingir o horizonte.
Julieta despertou, sentindo o braço de Romeu ao redor dela.
Ele ainda dormia, com a respiração leve e o rosto amaçado no travesseiro.
Uma onda de satisfação a percorreu.
Eles haviam feito o melhor sexo da vida dela, e o único da vida dele.
“É a minha primeira vez” havia confessado ele, com o olhar tão perdido e envergonhado que Julieta se derreteu de carinho por ele.
Mas logo ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Ela o teve, só para logo em seguida o perder.
Que vida mais amarga!
Em algumas horas ele teria que partir da vida dela.
Talvez para sempre.
- Bom dia, meu amor. – Sussurrou ele, com a voz ainda rouca por causa do sono. – Não chore. Eu te amo.
- Eu vou te amar até morrer. – Sussurrou ela em resposta. – Mas estou com medo.
Ele a abraçou.
- Julieta, eu vou voltar pra você. Mais rápido do que você possa imaginar. Eu vou melhorar tanto e tão rápido, que vão ter que me deixar sair. Ou até me darem alta. E então eu virei até você.
Ela suspirou.
- Mas você já vai? Ainda está escuro...
- O sol já está nascendo.
- Não é o sol, são as luzes do alojamento masculino sendo acessas. Fique mais um pouco.
Ele segurou o rosto dela com as mãos, beijando-a.
- Quer saber? Não me importo. Vou ficar. Vou fazer amor com você outra vez, e vou prolongar a melhor noite da minha vida! Quem se importa se me expulsarem?
Julieta morde o lábio inferior.
- Ah, não... Vai ser muito pior se te expulsarem!
- Mas se você não quer que eu vá, eu não vou...
Ela suspira, dando-se por vencida.
- Vai, Romeu. A manhã está se iluminando cada vez mais.
Ele também suspira, sentando-se na cama.
- A manhã está se iluminando cada vez mais... Enquanto anoitece em nossos corações.

***
Julieta ficou sentada na varanda, abraçando os próprios joelhos, com o vento frio da manhã agitando seus cabelos e eriçando sua pele, que a camisola fina deixava exposta.
Ela havia visto Romeu sumir de vista, mas não conseguiu voltar para o quarto. Não quando a cama ainda tinha o cheiro e o calor dele. Era surreal demais.
A Ama lhe trouxe o café, como em todas as manhãs, mas ela não quis comer.
Estava deprimida de novo, mas não era como nas outras vezes.
Era uma melancolia maior do que ela mesma, era a distância, a falta de algo precioso que havia sumido além dos arbustos.
Romeu havia dito que cuidaria dela e curaria suas dores, mas era com ele que ela estava preocupada agora. Ele é quem precisava de cuidados.
Mas talvez não dos cuidados dela, refletiu, melancólica.
A Ama a cutucou.
- Querida, trago boas notícias!
- O que é? Ah, é o Romeu? Desistiram de mandá-lo para a solitária?!
- Não, menina. Infelizmente uns enfermeiros já foram buscá-lo na capela e o levaram. Mas talvez fique feliz em saber que você vai receber alta na quinta-feira, e vai poder ir pra casa. Não é ótimo?
Julieta arregala os olhos.
- Já nessa quinta? Achei que a terapia ainda estava na metade!
A Ama sacode os ombros.
- É... Parece que a sua mãe contribuiu para que isso acontecesse.
- Como assim?
- Ela ficou preocupadíssima quando soube o que aconteceu com Teobaldo, e ligou para o diretor do hospital. Embora ele tenha garantido sua segurança, ela quer te tirar daqui.
Julieta cerrou os punhos, furiosa.
- É tudo culpa daquele Gatuno! Pois eu não quero receber alta! Eu vou ficar! Romeu disse que iria voltar... E eu vou esperar por ele!
A Ama franze a testa.
- Garota, seja sensata! Infelizmente Romeu precisa se tratar, ele tem problemas ainda mais graves que o seu. Você não pode passar o resto da sua vida em um hospício esperando por ele. Tome. Sua mãe mandou uma coisa pra você.
Julieta desamarrou o laço que envolvia o envelope, sem animação.
Mas suas mãos começaram a tremer de nervoso quando duas passagens de avião caíram em seu colo e ela começou a ler a carta mais do que perturbadora de sua mãe.
- O que há, menina? – Indaga a Ama. – Você ficou pálida de repente!
Julieta deixa cair o papel, incrédula.
- Minha mãe quer que eu faça uma viagem para Londres... Com Páris.
- Uau. – A Ama bate palmas, animadas. – É o que a senhorita sempre quis, não foi? Conhecer Londres, viajar para a Europa?
- Eu queria. Eu quero... – Julieta sacode a cabeça, zonza. – Não, isso não está certo! Eu terminei com Páris. Eu não gosto mais dele. Estou apaixonada por Romeu.
- Mas Romeu não poderia ir com você, querida! Ele precisa se tratar...
- Eu sei! – Ralha Julieta. – Mas leia a carta você mesma! Minha mãe comenta sobre um anel de noivado! Está claro como água que ela espera que Páris me peça em casamento nessa viagem, e que eu aceite!
- Não seria romântico? – Indaga a Ama.
Julieta sente o estômago se revirar.
Se imaginou passando o resto de sua vida com uma pessoa tão superficial e egoísta como Páris, e sentiu falta de ar.
- Eu preciso respirar. – Diz ela, se levantando.
- Quer que eu vá dar uma volta com você? – Pergunta a Ama.
- Não precisa. Eu só vou até o pátio.
Ela calçou os chinelos e se apressou na direção da porta.
- Julieta, você ainda está de camisola!
- Eu sei. – Bufa ela, tentando conter as lágrimas. - Mas não me importo!
CONTINUA

<< ATO II   ATO IV >>

2 comentários:

  1. "Por meu coturno. Não to nem aí!" Hahahhaa! Adoro esse cara! <3
    Eu teria lido mais rápido, mas meu gato estava tentando arrancar meus dedos com seus dentes :/ sabe como é?! Hahaha.
    Não me diz que a Julieta vai ter que fazer essa viagem?! Não quero! Ela não pode fazer isso poxa, o que a mãe dela tem de errado?
    Giovanna, por favor, me diz que o seu final não será como o de Shakespeare?

    ResponderExcluir
  2. Carla, eu não sei como vai ser o final...
    Sério, não cheguei lá ainda.
    Não sei direito o que eu vou fazer. Por um lado, o final de Shakespeare é tão triste...
    Mas por outro, eu queria manter o curso da história o mais fiel ao original possível O_O

    Ou seja: Lasquei-me.

    ResponderExcluir