quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Carta à todas as mentiras que já contei e que ainda irei contar

Minha querida,
Você se lembra de quando sumiu por uma semana e voltou com uma tatuagem nova?
Eu estou cansada dessa farsa, porque as mentiras que você fez não vão embora.
Essa é a história de uma garota que amava mentir.
Não, não é a minha história.
Ela era perfeita de um jeito que só uma mentirosa poderia ser. Ela inventou a perfeição em suas palavras e gestos calculados.
Quando nos conhecemos ela me disse seu nome, mas esse mesmo nome mudava todos os dias. Ela segurava a minha mão e me olhava nos olhos toda vez que mentia, e minha carne se arrepiava, ouriçada pela sensação de ser enganada.
Uma vez ela disse que estaríamos juntas para sempre, e disse isso sem me encarar. Desconfio que isso tenha sido a única verdade.
Naquela noite chovia muito, sua mão escorregava da minha a toda hora. A lama chegava aos nossos tornozelos e quando ela me soltou eu caí na beira do rio.
Você se lembra quando disse que ia buscar ajuda, que logo iria voltar? Eu fiquei te esperando até o amanhecer, mas você nunca voltou, porque você morreu.
Mas você não havia mentido, então deve estar viva.
Até sua morte é enganosa.
Eu ainda sonho com ela todas as noites. Sonhos pálidos, nebulosos, muito frios e molhados. E eu acordo gritando, gélida e com lama nos pés, agarrada ao vestido com o qual você foi enterrada.
Eu vi o caixão dela ser coberto por terra. Mas também vi suas mentiras emergirem do chão e se enroscarem em cada fio de cabelo meu, me seguindo aonde quer que eu vá.
Você deve estar se sentindo sozinha sem elas.
Eu coloquei um punhado de flores aos meus pés. Estou usando o seu vestido de morta. Tem terra embaixo das minhas unhas depois de ter cavado tanto.
Eu estou sobre o meu túmulo. O túmulo dela. O seu túmulo. E não há nenhuma verdade nisso, nem mesmo quando eu quebrei o pescoço na beira do rio lamacento.
É tão solitário dentro desse caixão...
Eu sou a sua parte que você sempre escondeu. Você morre, e eu continuo. Nós morremos. Nós continuamos. Eu morro e você mata.
Passo os dedos pela minha tatuagem no ombro, que fiz na semana em que estive no inferno.
Adeus, minha querida. Espero que você encontre minha carta. Não peço que acredite, mas apenas que se lembre que nossas mentiras sobrevivem à nós.
Elas vencem.
E não podemos mais decidir o que é verdade ou não.

3 comentários:

  1. como dizia o outro, quando nada é verdadeiro, tudo é permitido.

    ResponderExcluir
  2. Obrigada pelos comentários.
    Fico feliz que tenham gostado :*

    ResponderExcluir