quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

#MeuCaldeirão: Eu estou enlouquecendo, mas acho que isso é normal desde o final do século XX

Winona Ryder como Susanna Kaysen em Garota, Interrompida (1999)
“Ás vezes eu me viro e sinto o cheiro de você e eu não posso seguir eu não posso seguir foda-se sem expressar essa terrível tão fodidamente horrorosa, física, dolorosa, fodida saudade que eu tenho de você. E eu não posso acreditar que eu posso sentir tudo isso e você não sente nada. Você não sente nada?
(Silêncio)
Você não sente nada?”

É um fragmento do texto 4:48 Psicose, de Sarah Kane.
Eu o decorei para fazer um teste de teatro. E me recuso a esquecer.
Porque eu acho que ela estava falando comigo. Pra mim. Talvez de mim.
É muita presunção achar que uma dramaturga inglesa de prestígio estava falando comigo?
É muita presunção me sentir uma merda por ter só três anos de idade quando ela se enforcou com um cadarço de sapato, e eu não pude fazer nada para impedir?

Taissa Farmiga em
 American Horror Story - Murders House
Foi em 1999. Mesmo ano em que o filme As Virgens Suicídas foi lançado. Mesmo ano em que Garota, Interrompida chegava aos cinemas.
Susanna Kaysen, a mulher real por trás desse último filme, sobreviveu à psiquiatria.
Sarah Kane, não.
Mas as duas encontraram formas de contar suas histórias de vida e quase-morte.


“E eu saio às 6h da manhã e começo a minha procura por você. Se sonhei a mensagem de uma rua, um bar ou uma estação, eu vou lá. E fico esperando por você.
(Silêncio)
Sabe, eu me sinto como se estivesse sendo manipulada mesmo.”
Eu sinto que estou enlouquecendo de verdade.
Estou perdida partida em pedaços. Tem outras eus que fazem e falam coisas que não são minhas. Tem outras eus que vão desabar com golpes que ainda estão por vir.
Eu não sei mais como tentar impedir.
Eu encontro sinais que pessoas mortas me deixaram. Eu não sei o que é mais insano, acreditar nesses sinais ou pensar realmente que eles são pra mim.
Talvez as pessoas deprimidas tenham inventado uma linguagem própria ao longo dos anos. Talvez não. Talvez eu ache isso e esteja enlouquecendo sozinha.
Lux Lisbon (Kristen Dunst) em As Virgens Suicidas (1999)
“Eu nunca na minha vida inteira tive problema em dar às outras pessoas o que elas querem, mas ninguém jamais foi capaz de fazer isso por mim. Ninguém me toca. Ninguém se aproxima de mim. Mas agora você me tocou em algum lugar tão fodidamente profundo que eu não consigo acreditar, e eu não consigo ser assim pra você. Porque eu não consigo te achar.
(Silêncio)
Como é que ela é?
Como é que eu vou saber que ela quando a vir?
Ela vai morrer. Ela vai morrer. Foda-se, ela só vai morrer.”

Eu tenho escrito sobre a loucura de  forma quase obsessiva nos últimos tempos.
Não só nos últimos tempos, na verdade. Mas sempre.
Eu escrevia histórias de vampiros que não podiam morrer e de bruxas que poderiam resolver tudo com pactos e magia, mas a verdade é que os meus textos sempre foram fugas da realidade. Sempre tiveram relação com estar louca.
Talvez a minha arte, se é que eu possa chamar assim o que eu faço, seja consequência da minha insanidade.
Kate Winslet como Rose em Titanic (1996)

“Você acha que é possível uma pessoa nascer no corpo errado?
(Silêncio)
Você acha que é possível uma pessoa nascer na época errada?”

Sim, Sarah.
Eu acho que é possível. Como não acharia?
Eu não gosto do meu corpo.
Eu não gosto da época em que eu vivo, mas também não sei se iria gostar de estar em alguma época do passado, muito menos do futuro.
Eu às vezes acho que tudo em mim está tão errado que chega a doer.
Esse papo sobre ser diferente só é legal até certo ponto. Ninguém gosta de ser diferente demais. Ninguém gosta de ser incompreendido, porque dói pra porra se sentir totalmente sozinho assim.
Eu sei, e você também sabia.

“Vai se foder. Vai se foder. Vai se foder por ter me rejeitado nunca estando lá. Vai se foder por me fazer sentir uma merda. Vai se foder por ter me feito sangrar amor e vida. E que se foda o meu pai por ter fodido a minha vida inteira pra sempre e que se foda a minha mãe por nunca tê-lo abandonado, mas acima de tudo, vai se foder Deus por ter me feito amar alguém que não existe! Vai se foder! Vai se foder! VAI SE FODER!”
Effy Stonem (Kaya Scodelario) na série britânica Skins
Amar alguém que não existe.
Isso me soa tão familiar que é como se eu estivesse desenterrando um antigo diário. Mas é claro que não. Isso são as palavras de uma dramaturga renomada. Não de uma simples garota.
Mas ao mesmo tempo eu não posso ser só uma garota. Eu tenho quase vinte anos. Eu vivi tantas vidas, tantas paixões, que nem cabem dentro desse meu coração pifado.
E então eu me lembro de que li e imaginei essas vidas, e caio novamente em mim mesma. No corpo errado, na época errada, tentando fazer com que as coisas tenham algum sentido.
Eu não tenho mais vontade de chorar.
Eu não tenho mais vontade de me cortar.
Eu não tenho mais vontade de tomar meus remédios.
Eu não tenho mais vontade de nada.
Angelina Jolie, que interpretou Lisa Rowe em
Garota, Interrompida (1999)
Eu só quero achar o meu lugar. Um lugarzinho onde caibam meus livros, minha gata e eu. Minha bagunça e minha confusão. Minha bagagem incorpórea. Meus medos. Minha indecisão. Minhas lágrimas. Meus sorrisos cada vez mais raros. Um lugar onde eu não possa ser esquecida, mesmo se eu morrer. Mesmo se eu sumir.
Eu achava que esse lugar eram os palcos, mas está muito difícil chegar até eles.
Eu achava que esse lugar eram as histórias, mas não posso ficar nelas pra sempre.
E agora eu acho que esse lugar é aqui.
Por isso eu escrevo. Por isso eu insisto em postar esses textos tão íntimos na internet.
Porque, por algum motivo, não adiantaria apenas escrevê-lo. Ou mostrá-lo a um amigo.
Eu preciso acreditar que se eu publicá-lo, ele vai chegar às pessoas certas, pessoas que talvez eu nem conheça.
Eu preciso acreditar que existe uma pequena chance, por mais mínima que seja, de que alguma Sarah Kane possa lê-lo. E talvez dessa vez ela me ligue antes de decidir enrolar o cadarço no pescoço.
E então eu poderia dizer a ela que entendo a depressão e o afã do suicídio, pois fui adolescente nesse século que parece ter começado em 1999 ou antes.
***
Sarah Kane
Sarah Kane (1971-1999) foi uma atriz e dramaturga inglesa, que durante os seus 28 anos produziu peças como Blasted (Ruínas) e Crave (Falta).
4:48 Psicose foi seu último texto, que Sarah escreveu durante o período em que esteve internada em uma clínica psiquiátrica por conta de sua depressão. Foi seu pedido de socorro.
A srta. Kane se suicidou aos 28 anos, antes de ter a chance de ver essa peça sendo encenada, se enforcando com o cadarço do próprio sapato em um banheiro de hospital. Algumas fontes alegam que o cadarço era de um tênis All Star, mas nada comprovado até então.

2 comentários:

  1. ah, sarah kane. "e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender porque é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava". gosto. há uma coisa que me faz espécie: já reparei que quase todas as pessoas querem, essencialmente, que as deixem em paz. mas de onde virão, então, tantos conflitos? será o extrazinho que começamos a querer quando sentimos o mais elementar assegurado?

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  2. Esse monólogo de "Ânsia" é incrível *-*
    Pois é... A paz das pessoas se tornou tão superficial que parece significar estar em guerra consigo mesmas...

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