sábado, 26 de dezembro de 2015

#MeuCaldeirão: Feliz Ano Novo Pra Quem?

Audrey Tautou em O Fabuloso Destino de Amélie Polain
Eu estou trancada no meu quarto, presa às minhas correntes enquanto o som dos fogos de artifício explodem lá fora.
Podia ser o som de eu explodindo, mas são só fogos de artifício.
O Ano Novo me deprime.
Eu não consigo olhar pra trás e ficar satisfeita com mais um ano da minha vida que acabou pra sempre que não vai voltar.
Não importa o que eu faça, eu me sinto um fracasso.
Toda vez que o mês de dezembro começa eu me desespero, tentando não me afogar nos fatos e reconhecendo a derrota ao aceitar que o ano está no fim e eu não encontrei todos os meus pedaços que preciso encontrar pra chegar perto de me sentir completa de novo.
É como se eu em alguma outra vida ou estado prévio da minha existência tivesse espalhado por aí pedacinhos de mim tão dolorosamente solitários e não possa viver sem encontrá-los.
Eu passo dias, semanas e meses fazendo mapas e traçando caminhos para encontrar meus pedaços, mas acabo não saindo de casa.
Em todo Ano Novo eu me sinto uma criminosa, que comete crimes contra si mesma e sempre acaba presa em uma cadeia de dias infelizes.
Talvez eu seja apenas uma vadia ingrata e pessimista, então kiss my ass.
Eu olho pra trás e tento me lembrar de quando eu comecei a me sentir tão infeliz, e a falta de sertralina no meu cérebro me faz pensar que foi sempre assim.
Eu achei meu animus, mas fui rejeitada.
Eu tentei ir a lugares onde eu suspeito que existam partes minhas, mas fecharam a porta na minha cara. Eles não entenderam que tinha um pedaço meu ali e eu só queria procurá-lo. Naquele dia não senti o amor.
Eu fui rejeitada.
Eu quase não vejo mais meus amigos. Será que eles ficaram com algum pedaço meu, e eu não percebi?
Alguém que viu as minhas cicatrizes, mas não entendeu a profundidade delas.
Eu me sinto tão fodidamente pra baixo, mas eu juro que quero fazer certo dessa vez.
Eu só quero que os fogos pisquem no céu e matem logo todas as aves do coração e os abraços acabem e o próximo ano comece e eu consiga dar um rumo nessa vida extraordinária que eu venho levando.
Eu fico imaginando que tipo de pessoa eu seria se eu pudesse escolher, e chego a conclusão de que posso me imaginar sendo várias mulheres diferentes, mas nenhuma é feliz de verdade. Todas são vazias.
Em todas elas faltam pedaços.
Feliz Ano Novo pra quem é completo.
Feliz Ano Novo pra quem não se sente quebrado em pedaços se cortando em cacos sem coração sem alma sem nada e se sentindo morrendo ou invés de vivendo.
Feliz Ano Novo pra qualquer um, menos pra mim.

Cena de Karen Gillan na série Selfie

4 comentários:

  1. Que texto incrível!!
    Giovanna, nunca sei o que comentar nesses seus textos, eu sempre gosto tanto que fico meio sem reação, então me desculpa esse comentário nada a ver, hahaha.

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  2. Giovanna,

    meh.

    já me senti miserável. e depois disso, quando tudo me dizia que só podia ter piorado, a dada altura, apontei que "e depois do vazio, vem a paz - uma festa de contornos sentidos". nessa altura, achava estar já bem depois do, vá, ponto de não retorno, a fazer tempo para não me suicidar até depois de os meus pais morrerem, talvez por gratidão/caridade. nessa altura, deixou de doer, acho que se pode dizer assim.

    mas as pessoas são bem mais resistentes do que pensam, de uma teimosia épica, maior que a dos gatos, e lá fui ficando.. mas, enfim, os progenitores também ainda não morreram todos/de todo, não se pode dizer que o plano tenha abortado.

    enquanto o animal se mover, irão aparecendo sempre outras distracções e o engraçado, no meu caso em concreto, que é o único de que realmente posso falar, é que até haverá gente com inveja do meu suposto sucesso :\

    e agora, às vezes, ocorre-me que, se calhar, era mais lúcido quando me sentia miserável, pelo menos saíam mais coisas fixes, ditas e escritas, e tenho pena de que já não seja assim.

    pior: moer o juízo à namorada, por exemplo. para arranjar discussões para me sentir miserável, para ficar mais introspectivo e ver tudo mais.. bonito.. não funciona. porque foi propositado e parte de mim precisa de ser a vítima, mas uma vítima culpada, que é coisa à maneira.

    isto para constatar que face ao que evidencias, agora, pelo menos te ocorrem coisas fixes e arranjas paciência para as partilhares. parecerá uma abominação, isto que te estou a dizer, mas comigo tem sido assim, estar perdido também possui certa forma de doçura, nem que seja a posteriori.

    claro que um dia vem o "tilt" final e depois não vai haver "a posteriori", mas talvez também não haja o próprio para se lembrar. aí também não vai importar.

    cumprimentos de ano novo, até ver.

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  3. Sem palavras pra me expressar. Apenas vendo partes de mim nessas linhas.

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