quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

HÁBITOS NOTURNOS

Começou quando parei de dormir, e não quando eu parei de dormir a noite.
Eu fiquei uns dois anos sem dormir. Digo, sem dormir pra valer. Eram apenas cochilos e sonhos incômodos. Então eu acordava, tomava um banho e abria as janelas, miando em resposta a todos os gatos do bairro. Eu não separava o dia da noite naquela época.
Mas aos poucos eu fui parando de sair de casa durante o dia.
Depois parei de abrir a janela durante o dia, também.
A luz do sol me importunava tanto que enquanto ela brilhava eu não conseguia viver. Cheguei a achar que estava virando uma vampira, mas quando estava quase saindo para morder pessoas e beber o sangue delas, me lembrei de que não acreditava em vampiros.
E também de que adoro alho frito na minha salada.
Já que eu não era uma vampira, só podia ser um animal noturno, porque eu tinha que ser alguma coisa. Decidi que seria um gato, então, porque sempre gostei de conversar com eles.
E aprendi a roubar como eles.
Aprendi a andar por muros e telhados muito silenciosamente. Aprendi a ser uma presença tão sutil e nebulosa como a própria noite que me circulava, que me preenchia, me inspirava e me expirava.

Comprei um tecido grosso que parecia pele de gato e costurei um manto com ele. Eu entrava nas casas como uma presença sobrenatural, navegando no barco da morte.
Eu dançava sobre as camas das pessoas e bebia de seus sonhos. Em troca, lhes dava agradáveis pesadelos, do tipo que se acorda gélido e suando como um porco, mas com uma satisfação quase perversa.
Um vampiro precisa ser convidado para poder entrar na casa de alguém e invadir seus sonhos. Um gato, não.
Eu apenas entrava. E roubava coisas. Pequenas grandes coisas. Uma concha da última viagem da família à praia. Uma foto de casamento. Um par da meia do bebê. Uma chave velha.
Eu levava essas coisas para casa, arrumava-as em prateleiras e ficava olhando pra elas, e então inventava uma história para cada uma.
A concha pertencera a uma sereia-pirata. O casamento era de uma mulher morta com um ET. A meia era de um bebê que só tinha um pé. E a chave abriria a Caixa de Pandora qualquer dia desses.
Satisfeita com as histórias, eu fechava todas as janelas e dormia enquanto o resto do mundo lá fora acordava.
E então eu sonhava que também acordava, como uma pessoa de novo, e não como um gato, e todas as coisas que eu havia roubado haviam sumido.
No sonho, eu voltava a abrir as janelas, escovava os dentes, trocava de roupa e saia para trabalhar. Pegava ônibus. Falava com pessoas. Comprava comida. Comia. Voltava para casa. Ligava para alguém. Via TV. E então tomava um banho e ia me deitar.
Era sempre nessa hora que eu acordava de novo, com tudo já escuro lá fora, depois desses sonhos rotineiros, e saia para miar e roubar.
E enquanto eu sussurro com as patas pelos telhados, com minha pele de gato sendo arrastada comigo, antes de focalizar meus olhos amarelos na próxima janela da próxima casa do próximo furto, não posso evitar uma arrogante satisfação por estar acordada com os gatunos enquanto todos dormem.
Na minha presunção felina eu não estava em um sonho dentro de um sonho.

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