sexta-feira, 1 de abril de 2016

#MeuCaldeirão: Livros com fortes protagonistas femininas


Elas foram deixadas de lado por muito tempo. Apareciam na literatura clássica apenas como princesas ou donzelas em perigo que conquistavam o coração do protagonista. Sempre belas, inocentes e frágeis.
Mas, felizmente, como o papel das mulheres na sociedade vem se transformando através dos séculos, a arte tratou de acompanhar essa evolução, e a cada dia que passa, novas heroínas célebres surgem no mundo literário.
A seguir, cinco livros no qual a personalidade, força e capacidade das protagonistas femininas se destacam.

Scarlett O’hara, de E o vento levou

Vivien Leigh como Scarlett O'hara
“Uma ideia surpreendente essa, de que uma mulher podia tratar de negócios tão bem, ou melhor, que um homem, uma ideia revolucionária para Scarlett, que fora criada na tradição de que os homens eram oniscientes, e as mulheres, não muito inteligentes. Claro, ela tinha descoberto que isso não era bem verdade,mas ainda estava presa à agradável ficção. Nunca antes pusera essa ideia incrível em palavras. Sentada imóvel, com o pesado livro no colo, meio boquiaberta de surpresa, pensando que durante os meses magros em Tara ela fizera o trabalho de um homem, e o fizera bem. Ela fora criada para acreditar que uma mulher sozinha nada poderia realizar; contudo, tinha dirigido a fazenda sem homem algum para ajudar até a chegada de Will. Ora ora, sua mente gaguejava, creio que as mulheres podem fazer qualquer coisa no mundo sem a ajuda dos homens, exceto ter filhos, e Deus sabe, nenhuma mulher em sã consciência teria bebês se pudesse evitar. Com a ideia de que ela era tão capaz quanto um homem, veio um súbito ímpeto de orgulho e uma intensa vontade de provar, de ganhar dinheiro por conta própria como os homens faziam. Dinheiro que seria dela, pelo qual não teria que pedir nem dar explicações a qualquer homem.”

Sou suspeita para falar sobre essa incrível obra-prima da americana Margaret Mitchell, já que sou fã declarada de E o vento levou desde a adolescência.
A aventura da sulista Scarlett O’hara durante a Guerra Civil Americana, as dificuldades, o orgulho, a luta de uma mulher para se reerguer.
Scarlett sem dúvida não é bondosa, inocente e ingênua como muitas protagonistas femininas da literatura, mas é forte, destemida, orgulhosa e teimosa de uma maneira cativante, inspiradora e apaixonante.
O romance com o charmoso Capitão Rhett Butler é apenas mais um ingrediente que a autora utilizou para criar uma das melhores histórias do século XX.
O filme homônimo, que chegou aos cinemas em 1939, teve a eterna diva Vivien Leigh no papel principal, que simplesmente encarnou Scarlett em cada fio de cabelo. Não poderiam ter escolhido atriz melhor.
O filme tem mais de 4 horas, mas é incrível, uma verdadeira obra de arte e muito fiel ao livro. Tão envolvente e divertido que nem se nota o tempo passando!

Título: E o vento levou
Editora Best Bolso,
527 Páginas (volume I)
511 Páginas (volume II).

Dora, de Capitães da Areia

“O assombro dele não teve limites:
- Tu quer dizer...
Ela o olhava calma, esperando que ele concluísse a frase.
- ...que vai andar com a gente pela rua, batendo coisas...
- Isso mesmo – sua voz estava cheia de resolução.
- Tu endoidou...
- Não sei por quê.
- Tu não tá vendo que tu não pode? Que isso não é coisa pra menina. Isso é coisa pra homem.
- Como se vocês fosse tudo uns homão. É tudo uns menino.
Pedro Bala procurou o que responder:
- Mas a gente veste calça, não é saia.
- Eu também – e mostrava as calças.
De momento ele não encontrou nada que dizer. Olhou para ela pensativo, já não tinha vontade de rir. Depois de algum tempo falou:
- Se a polícia pegar a gente não tem nada. Mas se pegar tu?
- É igual.
- Te metem no orfanato. Tu nem sabe o que é...
- Tem nada, não. Eu agora vou com vocês.
Ele encolheu os ombros num gesto de quem não tinha nada com aquilo. Havia avisado. Mas ela bem sabia que ele estava preocupado. Por isso ainda disse:
- Tu vai ver como eu vou ser igual a qualquer um...
- Tu já viu mulher fazer o que um homem faz? Tu não aguenta um empurrão...
- Posso fazer outras coisas.
Pedro Bala se conformou. No fundo gostava da atitude dela, se bem tivesse medo dos resultados.”

Esse diálogo entre Dora e Pedro Bala é um dos meus trechos favoritos do livro Capitães da Areia, do célebre Jorge Amado. A garota, tão doce e tão forte, é uma personagem ímpar. É muito fácil amar Dora, rir e sofrer com ela.
Quem não teve que ler Capitães da Areia na escola ou para prestar vestibular, faça-o. É fácil de encontrá-lo em qualquer biblioteca, sebo ou livraria. Além de uma leitura fácil e ao mesmo tempo comovente, é um retrato da realidade social da Bahia e muitos outros lugares do Brasil.

Título: Capitães da Areia
Autor: Jorge Amado
Editora Companhia das Letras, 275 páginas.

Tracy Withney, de Se houver amanhã


“Os pensamentos ardiam e flamejavam, até que a mente se esvaziou de toda a emoção, a não ser uma única: vingança. Não era uma vingança dirigida contra as suas companheiras de cela. As três eram tão vítimas quanto ela. Nada disso. Ela queria vingança contra os homens que haviam destruído sua vida”.

Esse já faz um bom tempo que li. Foi indicação da minha mãe, que é fã de carteirinha do Sidney Sheldon. Peguei emprestado em uma  biblioteca próxima de casa e o devorei.
A trama é muito envolvente, há muitas surpresas, momentos de tensão e reviravoltas, marcas registradas das obras do autor.
Mas o que mais chamou minha atenção, de longe, foi a personalidade da protagonista Tracy Withney e como ela evolui no decorrer das páginas.
Ela é muito esperta, talentosa e sabe usar suas habilidades para conseguir o que quer, e, principalmente, para se vingar dos seus inimigos. A maneira como os sofrimentos e injustiças sofridas por ela a fizeram crescer e ficar cada vez mais forte é notável e muito bem construída. Com certeza uma leitura que vale a pena.

Título: Se houver amanhã
Editora Record, 402 Páginas

Mariam e Laila, de A cidade do sol

“Em poucos anos, essa menina vai ser uma mulher que pede muito pouco da vida, que nunca incomoda ninguém, nunca deixa transparecer que ela também tem tristezas, desapontamentos, sonhos que foram menosprezados. Uma mulher que vai ser como uma rocha no leito de um rio, suportando tudo sem se queixar. Uma mulher cuja generosidade, longe de ser contaminada, foi forjada pelas turbulências que se abateram sobre ela.”

Livro do mesmo autor de O caçador de pipas, e tão triste quanto. Mesmo não sendo uma história real, é o reflexo do que muitas garotas e mulheres muçulmanas sofreram e sofrem em tempos de guerra e violência provocadas pelo Talibã.
Contudo, Mariam e Laila conseguem ver uma luz no fim do túnel. Vivendo na mesma casa e dividindo um marido abusivo e controlador em tempos muito conturbados, as duas, com todas as suas diferenças, cuidam uma da outra e aprendem a se unir para planejar uma nova vida e um futuro melhor, apesar de todas as dificuldades.
Uma leitura, no mínimo, emocionante e muito interessante.

Título: A cidade do sol
Editora Nova Fronteira, 364 Páginas

Marguerite Gautier, de A Dama das Camélias

Greta Garbo em A Dama das Camélias, de 1937
“Já fiz gastarem em flores mais dinheiro do que seria preciso para sustentar uma família durante um ano. Agora, uma só flor que Armand me deu esta manhã basta para perfumar todo o meu dia.”

Um romance belo, emocionante, arrebatador.
E com a bela Marguerite, a cortesã francesa de luxo que nos envolve e nos deixa quase tão apaixonados por ela quanto o próprio Armand Duval.
A narração da história é dele, e ele a enaltece, a coloca em um pedestal. Mas conforme a leitura vai avançando, o leitor percebe minúcias da Mademoiselle Gautier que até mesmo Armand parece desconhecer.
A capacidade dela de amá-lo é tanta que ela se dispõe a sacrificar tudo por ele: sua vida de luxos em Paris, suas jóias, seus amantes e, fatalmente, sua própria felicidade.
E apesar de tudo isso, eu a admiro por sua força, sua singularidade, sua capacidade de amar e sou grata por Alexandre Dumas Filhos ter construído um romance tão belo e rico em elementos sociais da França do século XIX.

Título: A Dama das Camélias
Editora Martin Claret, 248 Páginas

***

Todas essas personagens são inspiradoras, não?
Se você conhece algum outro livro com protagonistas femininas incríveis, deixe um comentário. Até a próxima!
Clark Gable e Vivien Leigh em cena do filme E o Vento Levou

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