quinta-feira, 21 de abril de 2016

SEREIA

Ela morava na areia e suas novas pernas coçaram quando ela se levantou pela primeira vez, sentindo-se o serzinho mais desajeitado do mundo e como tudo era pesado, cada membro, braço...
E seus primeiros passos foram na direção oposta do mar que rugia através dela tentando avisar: querida, você vai se ferrar.
Ela se olhou no espelho toda nua e se despiu mais ainda pra poder se conhecer. Achou as pernas muito tortas, muito compridas, gostou dos segredos guardados no meio delas.
Desenrolou os cabelos que pareciam fios infinitos e como conchas contavam histórias ao som de ondas. O cabelo era ondulado como o oceano.
Não entendeu porque as pessoas usavam calças e saiu descalça. Gostou dos shorts. Gostou dos jeans.
Naquela noite foi a uma festa e se embriagou pela primeira vez sem beber nada. Saiu tropeçando bêbada com o suor, o calor dos corpos, a vida na respiração das pessoas.
Chorou quando se lembrou da solidão aterradora que o fundo do oceano proporcionava e como era frio lá no escuro, aonde o sol não chegava.
Tomou uma chuva tão pesada que machucava e quando colocou a língua pra fora descobriu que a água era doce e por um único e incomparável instante se sentiu diante de uma coisa mágica e absurda demais para acreditar mesmo em seus sonhos mais naufragados mais iludidos e nas mais fantásticas e fanáticas fodidas fantasias de sereia.
Não olhava para os peixes mortos quando ia ao mercado com medo de ver uma antiga amiga ou irmã sepultada sem honra no meio do gelo.
Foi beijada, foi tocada e fez tudo o que queria quando encontrou homens mortais que não eram ruins.
O amor era bom, mas a arte era melhor. A arte era mais paixão e mais tesão do que qualquer outra coisa e ela sentia muito medo de não conseguir entender uma coisa tão complexa e tão simples ao mesmo tempo.
Sem arte suas pernas eram inúteis e seus pedaços que ainda eram peixe não tinham mais expressão do que um atum enlatado.
Às vezes ela lambia o próprio braço só para sentir o gosto salgado de mar e ficava imaginando se era mística, mitológica ou apenas uma puta esquizofrênica vivendo uma realidade do avesso em uma dimensão aonde sereias só cantavam desgraças para marinheiros no coração frio do mar.
E de todas as artes a poesia era a melhor porque era o único lugar em que ela era bonita sendo tão errada e era completa mesmo toda fodida e despedaçada.
E as ideias se debatiam em sua cabeça como um peixe retirado da água, e as dores do seu coração eram aguadas.
Ela decidiu voltar pro mar porque nenhum lugar pode ser tão poético quanto o oceano tão vivo e morto, terrível, misterioso, gelado com vida por toda a parte, solitário, muitas criaturas juntas sozinhas.
Ela deixou as pernas na areia e quando viu os membros caídos os achou bem poesia, então prosseguiu. Suas escamas gritaram de felicidade quando encontraram as primeiras ondas e seus cabelos flutuavam ao seu redor como uma nuvem de fios fantasmas.
A sereia voltou pro mar, mas não se despediu de nada.
Ela era como um poema e como a espuma das ondas que se desintegram e não se entregam toda hora em uma eternidade infinita.

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