domingo, 1 de janeiro de 2017

Eu sou Alice


Agora que eu cheguei ao fundo do poço mais uma vez e minhas lágrimas são tudo o que me cercam – eu não deveria ter chorado tanto - tento encontrar um culpado para o meu atual estado de passiva contemplação.
Eles me dizem que a culpa são das drogas, mas não é verdade. A loucura começou antes dos doces e do chá. Eu caio, eu caio, eu caio e continuo caindo enquanto as pessoas continuam assistindo. Um circo, uma blasfêmia.
A verdade é que, apesar dos cigarros queimando nas minhas mãos, sou apenas uma garotinha. Eu e você, apenas garotinhas. Somos sonhadoras incuráveis, somos ridiculamente iludidas e brutalmente inconsequentes. Somos deprimidas e precisamos de remédios. Somos do signo de peixes e não conseguimos encontrar o caminho de volta para casa.
O Chapeleiro – meu traficante – está preso no tempo e agora, mesmo quando ele grita, todo mundo está chapado demais para escutar. Ele está pagando diante da incompreensão enquanto temos overdoses e começamos tudo de novo.
Mas isso tudo é idiotice. É idiotice tentar ser compreendido. Nós somos todos loucos aqui. Se até um gato sabe disso, como não percebemos? Somos uma geração de idiotas. Garotinhas idiotas e ingênuas. Queremos atenção, queremos entender, mas estamos perdidas e não chegamos a lugar algum.
Fazemos arte, fazemos amor, discutimos sobre política, sexo e religião, mas não conheço ninguém da minha idade que não esteja doente, que não esteja esgotado, que não esteja com medo. Nós achamos que somos mais esclarecidos do que nossos pais, mas o preço disso é a insanidade.
Meus olhos estão vermelhos, e está amanhecendo nesse bairro perigoso – e o perigo somos nós. Eu escuto vozes e continuo sozinha. Perdi todas as minhas seringas e não me lembro de ter bebido.
Mas estou indo para casa, e quando chegar tudo vai ficar bem de novo. As drogas me deixarão com sono e com sede, e quando eu acordar vai parecer que tudo não passou de um sonho. Poderei voltar a minha rotina e fingir que está tudo bem, que foi tudo uma noite de diversão arriscada e deliciosamente irresponsável. Vou esquecer minhas filosofias de bêbada, e vai ser como se nada tivesse acontecido.
E então poderemos voltar ao nosso cotidiano estável e equilibrado, aonde as maiores preocupações são pagar boletos no banco – e não entender o sentido da vida.
Eu sou Alice. Mas vou fingir que sou uma mulher adulta. Sei exatamente o que fazer. Está tudo bem. Vamos fazer compras e falar de amenidades. Estamos mesmo bem. Tudo sob controle. Bom dia, será que eu posso ajudá-lo?
Feliz Ano Novo.
"Essa foi uma história muito triste" by Dear Diary...

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