quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Vampirismo


Desperto com o pôr-do-sol e vou me erguendo com as sombras, com o frio, com os sintomas noturnos agudos e crônicos.
Do meu túmulo, onde a terra ainda é fresca e o tempo parou, minha pele morta e jamais envelhecida vence as leis da ciência e me ergo como uma figura do romantismo não romântico, gótico.
Tem terra debaixo das minhas unhas, e eu não entendo as coisas direito. Mesmo na minha palidez fantasmagórica e com o meu cheiro de sepultura apodrecida,  ainda há pessoas que me vêm como uma amante digna de promessas e encontros secretos, dos quais eu saio satisfeita e eles saem cadáveres.
Não há paixão no sangue. Há apenas dor, perda e muita sede. No cemitério em que habito, existem outros como eu, que perseguem as pessoas de sangue quente e corações tristes que vagam pela madrugada.

Não sou nada além de uma escrava da meia-noite, mas já fui alguma coisa. Eu já fui menina, fui mulher. Já tive um coração que batia e olhos capazes de chorar lágrimas que não eram vermelhas.
Mas mesmo assim eu sofria. Meu coração era assombrado por um mal que nenhum médico era capaz de detectar. Eles achavam que entendiam, mas não. Vozes dentro da minha cabeça me atormentavam dia e noite fazendo de cada minuto uma agonia.
 E de todos os fantasmas que me visitavam, o mais frequente era um cavalheiro com rosto de caveira que me fazia promessas horríveis e belas sobre dor e morte. Acabei descobrindo tarde demais o seu nome.
O Fantasma do Suicídio pegou minha mão e delicadamente me conduziu até a pia do banheiro.
Me mostrou meu rosto pálido e marcado por olheiras profundas refletido no espelho e enquanto enfileirava as lâminas sobre o mármore frio, disse para que eu não me preocupasse. Seria tudo muito rápido.
Minha cabeça estava pesada por causa dos remédios, e o vazio que me inundava era tão profundo que eu estava me transformando em uma espécie de abismo ambulante.
Segui todas as instruções do Fantasma do Suicídio. E enquanto eu assistia o sangue fluir das minhas veias, caída no chão do banheiro, cada vez mais fraca, suas palavras me confortaram: não acorde, não acorde, não acorde meu amor.
Mas eu acordei.
E descobri que estava morta. Em um caixão, embaixo da terra. De todos os meus surtos psicóticos, o daquela noite foi o pior. Como senti falta dos remédios que antes eu odiava, por me deixarem inerte e passiva!
Agora vago em uma existência ainda mais miserável, veja só. Me arrastando pela terra remexida do cemitério quando anoitece, dançando entre os túmulos como uma bailarina ou talvez uma viciada.
E ele, o Fantasma do Suicídio, se atreve a me procurar novamente, depois do grande desgosto que me causou, me enganando daquela maneira.
- Estou apaixonado por você. – Sussurrou ele. – Amo você. Amo todos os que precisam desesperadamente da morte como um remédio, pois sinto a dor de cada um deles.
- Eu já estou morta.
- Eu sei.
- E continuo sentindo dor. Continuo tendo os mesmos pensamentos alucinados e filosofando sobre uma existência sem motivo. Mesmo com o coração sendo devorado por vermes, continuo sofrendo.
- Você sofria muito quando estava viva. Sofria demais. A mulher triste e doente morreu, mas você continuou. Você é a doença dela, seu sofrimento, que ainda vaga tentando sugar outras pessoas e deixá-las doentes também.
Aquelas palavras me deram vontade de gritar. Eu era um resto de ser humano. Uma espécie de nova Peste Negra. Talvez a que por fim dizimaria a humanidade.
- Eu sou o primeiro amante desiludido que se enforcou com uma corda. – Continuou ele. - Eu sou o último adolescente que cortou os pulsos e a garganta ao som de uma música que ninguém nunca entendeu direito. Eu sou invocado pela névoa gelada, eu sou a âncora que afunda os que querem se afogar. E você, com seus olhar vago e seu cheiro de rosas mortas... Eu apenas queria ajudá-la a chegar ao fim. Você não precisava mais suportar seus fracassos e se deitar sobre eles. Deveria parar de se arrastar mediocremente por uma vida inteira. Há um modo mais fácil de chegar ao fim, e eu mostrei o caminho.
Arranquei uma flor murcha do meu túmulo, despetalando-a com os dedos, quase com raiva.
- Mas eu continuo aqui!
Por um momento, o Fantasma não disse nada. Depois suspirou, daquele jeito triste que só alguém que já ajudou milhares de loucos e desesperados a encontrarem o próprio fim pode suspirar.
- É por isso que eu voltei a procurá-la. Preciso lhe mostrar o caminho. Outra vez. E embora esse seja o meu trabalho, dilacera o meu coração frio. Sabe, eu nunca quis machucar ninguém. Você também não. Eu gostaria de segurar sua mão e me deixar levar para o seu túmulo, onde a luz não nos alcança e ficaríamos mais frios e cinzentos. Apenas eu e você, pela eternidade.
Olhei para ele e senti meus olhos ficarem embaçados de vermelho por causa das lágrimas de sangue ameaçando brotar.
- Então venha comigo. – Eu disse, segurando suas mãos.
Ele balançou a cabeça.
- Não posso. Eu sou o mais amaldiçoado dos seres. Vou até os atormentados e os encorajo para que descansem de todas as suas provações. Mas eu mesmo não posso aderir à minha própria filosofia suicidal.  Sou um espectro imortal.
Pude avistar, no horizonte, o sol começando a aparecer e o desespero me dominou.
- Por favor, venha comigo! O tempo está acabando!
Mas ele não se mexeu.
- Você precisa ser forte, agora. Precisa ser corajosa. Eu sei que no fundo você é só uma garotinha triste e doente, mas precisa parar. Eu sou o Fantasma do Suicídio. Eu sei quando as coisas estão saindo do controle. Não pode mais sugar toda a vida das pessoas e arrastá-las com você.
Comecei a chorar, e o Fantasma me abraçou.
Os primeiros raios de sol, fatais para mim, começaram a avançar lentamente pelos túmulos.
O Fantasma do Suicídio segurou minhas mãos quando o calor finalmente se chocou contra mim, e tive a sensação de estar caindo enquanto cada célula morta do meu corpo também morto se transformava em cinzas. Mas, pelo menos, foi uma queda livre.
Vamos todos parar no mesmo abismo, mas eu cheguei aqui primeiro. Eu tive coragem de tomar um atalho. Duas vezes.
Encare, encare o abismo. E não estremeça quando ele te encarar de volta. No final, somos todos feitos a partir da mesma matéria imperfeita. Das cinzas às cinzas. Do pó ao pó.

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